O isolamento social da carochinha

Assim como a maioria dos brasileiros que ainda possuem certo nível de prudência, venho me dedicando à examinar os panoramas da contemporaneidade; isto é, os eventos intrínsecos ao COVID-19 e seus derivados, em busca de respostas profícuas e que não fujam da realidade do contexto sociopolítico do Brasil. Todavia, que seja dito de passagem: o isolamento social é algo profundamente monótono!

É inegável que este período de quarentena detém condições de viabilizar experiências benéficas, singulares e inovadoras. Estou tentando ajustar o lado hipoteticamente positivo deste momento tão insólito com todas as minhas denúncias e opiniões acerca da situação. Nas redes (antis)sociais — coisa que felizmente não utilizo há anos —, uma multitude de celebridades e indivíduos anônimos fazem ode ao solilóquio rompante de que é maravilhoso ter uma chance de reprogramar a vida. Tudo isso seria efetivamente belo e radiante se não fosse a hipocrisia e o descaso que configuram os pilares desse mantra.

Não pertenço ao seleto grupo de pessoas que, apesar de terem um domicílio, residem praticamente fora dele. Trabalho em minha casa e prefiro a solitude de um cômodo vazio e silencioso desde a infância. Além disso, quem faz da avaliação científica a sua profissão e a ilustra por meio da escrita literária permanece exilado durante a maior parte do nictêmero. Me habituei ao distanciamento físico muito antes de qualquer deflagração pandêmica. Não obstante, é lógico que sinto falta dos churrascos e das reuniões com os meus amigos em uma cervejaria. Mas é possível aproveitar uma Stout; uma Trapista ou uma Doppelbock de forma satisfatória usando uma máscara? A pergunta é duplamente retórica, visto que não há bares (decentes) funcionando. Os parênteses do adjetivo são eliminados quando a deferência pelas normas éticas que conduzem uma nação apresentam o mesmo respaldo oferecido às mercadorias de qualidade superior.

Por efeito do conteúdo que recebo em aplicativos de mensagens instantâneas, não é difícil concluir que existe um alto número de criaturas desprovidas de maturidade, autocontrole e sabedoria causal. São reclamações intempestivas que dimanam do Brasil inteiro, alegando que a nova rotina já se tornou insuportável. Não sou especialista em saúde mental, porém sugiro que não considerem o flagelo dessa pestilência maldita como um simples contratempo pessoal ou distúrbio emocional. O planeta está diante de uma hecatombe socioeconômica; com sequelas estritamente análogas às de uma série de guerras em conjunto. Transfigurar o COVID-19 em um desgosto sentimental é trilhar em direção ao precipício. Se necessitam da ajuda de psicólogos a fim de lidar com os virtuais problemas acarretados pelas medidas de restrição, me contatem via e-mail que indico uma dezena rapidamente.

Em uma ida à portaria de meu edifício para recolher produtos indispensáveis que encomendei do supermercado na última terça-feira, li uma nota de pesar informando sobre o falecimento de um vizinho que pertencia ao grupo de risco. O zelador me disse que o finado cumpria as recomendações dos sanitaristas com bastante afinco, mas que contraiu a doença porque “saiu ali na rua e nem demorou” (sic). É justamente isso o que muitos estão fazendo: um deslocamento (frequentemente) esporádico pelas vias metropolitanas. Conheço uns e outros capazes de jurar perante suas divindades que seguem as prescrições dos médicos e biólogos sem ambivalências; entretanto, compartilham uma porção de vídeos e fotografias em praias e restaurantes nas mais diversas plataformas do ciberespaço. Alguns executam verdadeiros conclaves no intuito de assistir as tão comentadas “lives”. Independente do grau de surrealismo, incoerência e dissimulação nas justificativas, elas são drapejadas ad infinitum.

A questão é que a sociedade brasileira passou a acreditar nas fábulas construídas por ela mesma. Em anexo à estolidez de terceiros, essa foi a principal razão que me fez abdicar das páginas de relacionamentos digitais. A falsidade exibida nas “timelines” é completamente repugnante! Os internautas se manifestam exaltando uma imensidão de valores admiráveis no que tange às suas personalidades; no entanto, se comportam de maneira diametralmente oposta na esfera material. Portanto, quem dispõe de bravura o suficiente para assumir que não respeita as ordens de contenção e assepsia? O Brasil se converteu no epicentro do miasma devido à boçalidade e imprudência de uma enorme legião de negacionistas antiéticos. O resultado dessa equação fabricada por apedeutas políticos e bosquejos de cidadãos é de quase 1,7 milhão de infectados e 62 mil óbitos. Se todos afirmam que a reclusão é um parecer definitivamente hierático perante ao cenário macabro do país, como haveria de ser o ambiente nacional caso ninguém atendesse as instruções profiláticas? Talvez uma paisagem cyberpunk no estilo da Trilogia Sprawl, de William Gibson.

Ao avistar o mundo pela janela de meu quarto, percebo que o fluxo de pedestres nas avenidas tem se desenvolvido em excesso. As calçadas e os mobiliários urbanos continuam lotados! Proscrições salutíferas unidas à malemolência da incultura brasileira confecciona o pior dos horizontes sem intervalo de tempo! Enquanto que as atividades laborais são postergadas e os compromissos vêm sendo adiados, uma fração volumosa do povo tem é caído na esbórnia! Não há carência de subterfúgios para defender o relativismo pertinente ao infringimento das advertências dos profissionais de saúde. Reitero mais uma vez que estamos sofrendo com o impacto monocórdio de um episódio frágil, atípico e desagradável. Porém, cuidado: mentiras não impedem que a contaminação se alastre.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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