O futebol não deve ser empregado como arma de destruição biológica de um país

Apesar de ser torcedor declarado do Fluminense Football Club e acompanhar o desempenho da equipe nos torneios disputados pela mesma, futebol é um tema que raramente surge nos espaços onde divulgo os meus textos. Porém, quando minha estimada agremiação se posiciona de maneira sensata contra a proposta irresponsável e hedionda de alguns clubes tradicionais endossados pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) para que o campeonato estadual seja recomeçado em pleno surto do COVID-19, demonstrar meu apoio como epígono tricolor e cidadão brasileiro se transforma em um dever moral.

Assim como tantos outros despautérios asquerosos, este também recebeu o apoio incondicional de Jair Bolsonaro, atual líder do Governo Federal. Para os que ainda não sabem, essa pestilência vem acarretando milhares de óbitos diariamente. O número de enfermos ultrapassa os trezentos e cinquenta mil, com quase vinte e dois mil finados. O ente federativo do Rio de Janeiro é o segundo mais afetado por tal calamidade no que concerne às mortes. A projeção científica está se confirmando brutalmente. Seria possível retomar a dinâmica futebolísticas nesse panorama de terra devastada? Haveria todo aquele entusiasmo lúdico que o desporto exige e jamais retraiu? Caso sim, não passaria de um desplante axiomático para com as famílias dilaceradas por este flagelo pandêmico. Qualquer indivíduo com o mínimo de retitude idiossincrática deduz claramente que não há o que celebrar — a não ser que haja um projeto que tenha como objetivo a multiplicação das vítimas fatais.

É revoltante verificar que, mesmo com a quantidade incrível de fundamentos especificamente relacionados à patologia, ainda surgem criaturas ignóbeis o bastante para disseminar calúnias e boatos acerca de um problema gravíssimo. São pessoas como Rodolfo Landim e Alexandre Campello, dirigentes dos clubes de regatas localizados na Gávea e em São Januário, respectivamente, que contribuem para a elevação deste abominável quadro de negacionistas da ciência. A partir do momento em que figuras públicas bem cotadas por suas gestões e que influenciam os torcedores e os ambientes que coordenam se reúnem com o Presidente da República ignorando as medidas de proteção que os agentes de saúde e biólogos recomendam a fim de pulverizar esse laivo maldito, como a distância mínima de quatro metros e a utilização de máscaras, os pretextos estúpidos de indivíduos comuns que não seguem tais determinações adquirem vigor. A situação piora quando Márcio Tannure, chefe hospitalar do vencedor da Copa Libertadores da América 2019, participa do evento agindo com a incúria dos demais. Tannure e Campello possuem graduações em medicina.

Tantas negligências assim homologam os impropérios que o energúmeno lotado na superintendência da União orneja com altíssima frequência sobre tamanha desgraça que infesta o país. Ademais, o maior patrimônio de toda associação desportiva é o seu renque de apreciadores. Fãs de uma instituição são pessoas de diferentes padrões de vida; com linhas ideológicas e uma gama de valores distintos e singulares. Isto posto, é absolutamente errado que uma diretoria se incline para os flancos de qualquer governante, uma vez que este arbítrio subestima os caudatários do lado oposto. Times de futebol; basquete; vôlei; pólo aquático; tênis; críquete e afins não são coretos predispostos à demagogos infradotados. É obrigação de seus controladores manter a imparcialidade das células e não aquiescer com óticas genocidas em hipótese alguma!

São apontamentos extensivos para um não adepto do clube que inaugurou seu departamento de futebol com ex-membros do Tricolor das Laranjeiras. Contudo, ressalto que minhas críticas são nas particularidades de um brasileiro comum mas inteirado de suas atribuições perante a sociedade. Não é certo dizer “e daí?!” para uma cena tão medíocre, onde uma seita de empresários corporativistas buscam destruir a saúde do povo através de um horizonte paralelo que não defende nada além dos rendimentos financeiros. Não é desforra de rival; é objeção ao culto à veleidade! Enquanto que as Olimpíadas e o Campeonato Europeu de Futebol já foram adiados para 2021, aqui temos entidades pleiteando jogos contra o Madureira e a Portuguesa da Ilha do Governador…

É nítido que tais cartolas não desconhecem as mazelas que a virulência tem causado pelo Brasil. Eles não viajaram até o Distrito Federal para negociar formas de liquidar os óbices jurídicos que derivam de multas por atraso salarial ou dívidas. Coatar o inquilino do Palácio da Alvorada também não é uma opção, dado que Jair Bolsonaro esbraveja com frequência em prol do restabelecimento das atividades cotidianas. No entanto, os dias insólitos da contemporaneidade fúnebre modificaram os critérios de rotina. O hebetismo e a iniquidade não reverteram os malefícios da doença em lugar nenhum. É óbvio que os sodalícios desportivos estão com dificuldades seríssimas nessa conjuntura atroz; todavia, isso é o resultado de um produto extremamente complexo: a nação brasileira encontra-se totalmente mergulhada em um lodaçal de turbulências. Essas agremiações fazem parte da mesma estrutura socioeconômica integrada por diversos outros trabalhadores que merecem ser respeitados em paridade com os atletas. O vórtice extemporâneo trazido pela hecatombe do COVID-19 retalhou o país inteiro e, consequentemente, todos precisaram reavaliar suas metas. Se desejam avidamente o regresso do futebol em condições tétricas, então que instaurem a “Taça Cloroquina”. É a única alternativa capaz de materializar esse ruritanismo estúrdio!

Que se conjecture uma instância em que o torneio de futebol volte a acontecer: Qual seria o regulamento adotado neste período emergencial? E o comportamento dos torcedores? Todos fariam uso dos equipamentos de higiene e proteção? Respeitariam as ordens para evitar aglomerações? Os estádios receberiam as adaptações devidas? Ora, nem as próprias delegações oficiais do rubro-negro e do cruzmaltino aderiram a isso! As equipes voltaram aos treinos sem autorização das secretarias de saúde. E a evasiva de partidas com as arquibancadas vazias e lojas fechadas não convém, pois o lucro de ingressos e consumação no entorno das arenas são os mais proeminentes. Há outras dissonâncias condimentando essa vitualha pungente: A FERJ, que cancelou a imensa maioria das competições que organiza, implora aos clubes do principal campeonato do Rio de Janeiro para que estes retornem aos gramados com urgência. Em resumo, o que a federação ambiciona é conservar as prédicas que ofertam as vastas alíquotas monetárias, não se importando com o fato de que esse dinheiro estará banhado em sangue. Os times menores e carentes? Que arrumem sozinhos um modo de permanecerem ativos.

Será que agora vão reconhecer que Carlos Augusto Montenegro, ex-comandante geral do clube de futebol e regatas que arrenda o Estádio Nilton Santos, não exagerou ao se referir a estes sujeitos como homicidas em potencial? O médico e vice-presidente do Fluminense, Celso Barros, foi categórico na afirmação de que as instituições oriundas do remo e que simbolizam o Clássico dos Milhões detêm timoneiros que prestam um desserviço ao futebol justamente numa época drástica e obscura. Junto com o Tricolor das Laranjeiras, a agremiação de General Severiano empreende o Clássico Vovô há cento e quinze anos, fazendo deste certame o mais antigo do Brasil. Parece mesmo que uma das funções dos idosos é ralhar com os jovens que agem com imprudência e se misturam com os que não prestam.

A conduta ajuizada que o Fluminense tem priorizado e cumprido durante essa quarentena plangente é a única satisfação que este devaneio me trouxe. Me orgulha profundamente constatar que meu time de coração não optou pela inépcia. O Tricolor das Laranjeiras é o primeiro colocado do Grupo B da Taça Rio, bem como lidera a classificação geral do torneiro estadual. Não obstante, pouco me incomoda se o campeonato for rescindido; minha equipe já angariou o título metafórico de comprometimento social ao não escolher o sorvedouro da humanidade em troca de aquisição numerária. Com ressalvas à Estrela Solitária, as entidades opositoras não podem lograr do mesmo triunfo de enternecimento que o primeiro entre os doze maiores do Brasil a entrar em campo e a ostentar a palavra futebol no nome. Que não se argumente com subterfúgios e dissimulações para interceder em favor dos displicentes. A nódoa dos préstimos à cacogênese dos apedeutas ligados ao bolsonarismo não serão desfeitas com premiações e médias elásticas em gols e pontos.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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