‘O Discurso do Rei’: A gagueira levada a sério

A gagueira é um distúrbio multifatorial, que se manifesta na infância e pode persistir na vida adulta

Como aponta o portal Drauzio Varella, a gagueira é um distúrbio neurobiológico da fluência da fala, que tem sua origem, provavelmente, no funcionamento inadequado dos núcleos de base, aglomerados de células nervosas envolvidos no controle da motricidade.

Cabe aos núcleos de base estabelecer a intercomunicação entre diferentes áreas do cérebro, o que permite a execução de atos motores complexos. Quando essas estruturas não funcionam adequadamente, entre outros problemas, podem interferir na sequência motora da automatização da fala, ocasionando os alongamentos, bloqueios e repetições da fala próprios da gagueira.

Nisso, a gagueira é um distúrbio multifatorial, que se manifesta na infância e pode persistir na vida adulta. Segundo a fonoaudióloga Fernanda Papaterra Limongi, três fatores estão envolvidos no aparecimento e manutenção da gagueira. São eles: os fatores predisponentes, os fatores precipitantes predominantemente ambientais e os fatores perpetuantes, incluindo sentimentos como o medo e a ansiedade diante de situações que pressupõem a comunicação oral. O tema gagueira é destaque no longa-metragem “O Discurso do Rei” (2010), do diretor britânico Tom Hooper (‘‘Les Misérables’’ (2012), ‘‘A Garota Dinamarquesa’’ (2015),‘‘Cats’’ (2019) ), traz à tona os desafios de quem tem gagueira. A trama tem como foco a trajetória do rei George VI, pai da rainha Elizabeth II.

Antes de comentar sobre o filme convém contextualizar quem foi o monarca apelidado de ‘‘rei gago’’, ou por alguns, ‘‘o rei que não queria ser rei’’. George VI (1920-1936) foi rei da Grã Bretanha e Irlanda do Norte entre 1936 e 1952, e último imperador da Índia entre 1936 e 1947. Pai da Rainha Elizabeth II da Inglaterra, sucedeu seu irmão mais velho, rei Edward VIII (1894-1972). Albert Frederick Arthur George, o então Duque de York, nasceu em York Cottage, Sandringham, Norfolh, Inglaterra, no dia 14 de dezembro de 1895. Era o segundo filho de George V (1865-1936) e de Maria de Teck (1893-1936). Nasceu durante o reinado de sua bisavó, a memorável rainha Vitória (1819-1901). Era neto do rei Edward II (1841-1910) e de Alexandra da Dinamarca (1844-1925). Como o segundo filho do rei George V o príncipe Albert cresceu vendo seu irmão mais velho, o príncipe Edward, sendo preparado para herdar o trono. Em 1909, George ingressou no Royal Naval College, Osbome. Entre 1913 e 1917 serviu na Marinha Real. Entre 1917 e 1919 serviu na Força Aérea Real. Entre 1919 e 1920 frequentou o Trinity College de Cambridge onde estudou história, economia e educação cívica. Em 1920, o Príncipe Albert, como era chamado, recebeu o título de “Duque de York”.

Ainda na infância, o príncipe George conheceu Lady Elizabeth Angela Bowes-Lyon (1900-2002), filha mais nova do 14º conde de Strathmore e Kinghorne (1855-1944) e de Cecília Bowes-Lyon (1862-1938). Após duas propostas (1921 e 1922), Elizabeth concordou em namorar o Duque de York. O príncipe Albert e Lady Elizabeth se casaram em uma cerimônia realizada na Abadia de Westminter no dia 26 de abril de 1923. O casal teve duas filhas: a princesa Elizabeth (futura rainha Elizabeth II) que nasceu no dia 21 de abril de 1926, e a princesa Margaret (1930-2002) (depois condessa de Snowdon) que nasceu no dia 21 de agosto de 1930. O príncipe George era canhoto, mas foi forçado a escrever com a mão direita, como era comum na época (fato abordado no roteiro do filme). Desenvolveu uma gagueira que o fez sofrer durante anos. George temia falar em público. Após seu discurso de encerramento da Exposição de Império Britânico em Wembley no dia 31 de outubro de 1925, resolveu procurar ajuda de um fonoaudiólogo.

Começou a fazer exercícios respiratórios com o australiano, Lionel Logue (1880-1953) e depois de várias sessões conseguia falar com menos hesitação. No dia 3 de setembro de 1939 fez um discurso ao vivo, no rádio, quando a Grã-Bretanha entrou para a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Com a morte de seu pai, o rei George V, em 20 de janeiro de 1936, subiu ao trono o seu irmão mais velho, como rei Edward VIII. Porém, menos de um ano depois, em 11 de dezembro de 1936, Edward abdicou do trono para se casar com a sociality estadunidense Wallis Simpson (1896-1986), que era divorciada duas vezes e, nessa condição Edward não poderia permanecer rei. Em consequência da abdicação de Edward, o príncipe George Albert assumiu o trono. Recebeu o nome de rei George VI e sua coroação ocorreu na Abadia de Westminter no dia 12 de maio de 1937.

Vamos ao filme, o longa abre com o Príncipe Albert, Duque de York (Colin Firth), apelidado por sua esposa e família de Bertie, discursando no encerramento da British Empire Exhibition de 1925, no Estádio de Wembley, com sua esposa Elizabeth (Helena Bonham Carter) ao seu lado. Sua gaguez é um fato perceptivo durante a declamação do discurso, o deixa o público presente abismado e surpreso. Após o ocorrido, o príncipe passa a tentar inúmeros métodos de tratamento para sanar sua gagueira, até desistir, porém sua esposa o convence a visitar Lionel Logue (Geoffrey Rush), um terapeuta de fala australiano que mora em Londres. Na primeira sessão, Logue pede que eles se tratem pelos seus nomes próprios, quebrando a etiqueta real ao chamar o Duque de York pelo apelido. Ele o convence a ler o monólogo da peça Hamlet (1609) “Ser ou não ser”, do dramaturgo e poeta William Shakespeare (1564-1616), enquanto ouve Le nozze di Figaro (1786), de Mozart (1756-1791), nos fones de ouvido. Logue grava a leitura de Bertie em um disco de vinil. Porém, este, convencido de que havia gaguejado o tempo todo, deixa o consultório irritado. Logue oferece-lhe a gravação como lembrança.

Encerramento da British Empire Exhibition de 1925, Estádio de Wembley

Depois de fazer seu discurso de natal em 1934, o rei George V (Michael Gambon) explica para seu filho a importância da radiodifusão para a monarquia moderna. Após a explanação o velho monarca pede ao filho que releia o discurso para ele, Albert lê o texto com muita dificuldade e gagueja várias vezes, o que deixa o seu pai nervoso. Vale lembrar que a pessoa gaga sabe perfeitamente o que quer dizer, mas não consegue ajustar o tempo e a duração dos sons. Isso faz com que repita ou prolongue a emissão de uma consoante, de uma vogal ou de uma sílaba, ou, então, que interrompa a fala diante de um som que considera de risco para articular sem tropeços.

A segunda visita a Logue

Na noite daquele mesmo dia, Bertie estava um pouco deprimido com a situação, nisso a fim de se distrair resolve por para tocar a gravação de Logue, ele passa a ouvir sua própria voz, e percebe que não houve qualquer hesitação ou dificuldades linguísticas durante a declamação do trecho de Hamlet (1609). Esse fato tem uma explicação, pessoas com gagueira podem ser fluentes quando cantam, declamam um poema, repetem a fala de uma personagem no teatro, ou imitam um sotaque. Isso acontece, porque a região do cérebro estimulada na fala não espontânea, o hemisfério direito, é diferente da região responsável pela falta de sincronia que aparece na fala espontânea, ou seja, o hemisfério esquerdo.

O ocorrido faz com que ele regresse ao consultório de Logue. Após uma séria conversa sobre as condições do tratamento, ele e Logue passam a trabalhar juntos em relaxamento de músculos e controle respiratório, enquanto simultaneamente procuram a origem psicológica de sua gagueira. Entretanto, ao que diz respeito às formas de tratamento para a gagueira, o filme não oferece contribuições diretas, mas é preciso dizer que nem se esperava isso, já que a história se passa na década de trinta do século passado; evidentemente, àquela época nada se sabia sobre gagueira como fenômeno neurológico, havendo apenas especulações sobre o que a causaria. Estão presentes exercícios respiratórios e rítmicos, assim como ocorre em tratamentos atuais. Contudo, muitos procedimentos equivocados e maléficos, como por exemplo, fumar para relaxar as pregas vocais (ação que na vida real provavelmente acabou por causar no Rei um câncer pulmonar, entre outros males), estão presentes, mas felizmente a maneira jocosa como são tratados não dá a entender que poderiam melhorar de fato a sua qualidade de fala. Além disso, muito embora uma das sequências iniciais já revele intuições sobre fenômenos cerebrais que hoje são base para tratamentos efetivos, a ideia não é levada adiante.

Exercícios com Logue

Príncipe revela alguns dos seus traumas de infância: a severidade do pai, a repressão por ser canhoto, o doloroso tratamento de seu joelho, uma babá que preferia seu irmão mais velho e que o beliscava para fazê-lo chorar e ser repreendido pelos pais, e a morte de seu irmão mais novo, Príncipe John.

Enquanto o tratamento progride, os dois se tornam amigos e confidentes.
Segundo Gerhardt (2011) ‘‘No cinema, o que normalmente se vê, salvo casos raros de filmes alternativos que não alcançam o grande circuito, é a pessoa que gagueja ser tratada como alguém sem importância, com pouca inteligência, ou sem atrativos. Neste caso isso não aconteceu. Alguém pode afirmar que não se poderia tratar o Rei da Inglaterra como um tolo qualquer. Mas o que fez com que ele merecesse o filme foi justamente sua história de pessoa que gagueja e ser humano diferenciado, diante da contingência de liderar milhões de pessoas no curso de uma guerra dolorosa, e não poder fazê-lo de outra forma senão através do seu discurso – discurso aqui tomado num sentido geral, de produção linguística, mas também num sentido particular: a sua mensagem histórica ao povo britânico declarando guerra à Alemanha’’.

O Duque de York

Gerhardt (2011) afirma que ‘‘o filme em si, como realização técnica, nos ajuda bastante. Os planos fechados e os closes salientam as expressões das pessoas diante das dificuldades e dos sucessos do Rei na busca por uma fala fluente – constrangimento, vergonha, alívio. Revelam a angústia que tomava a todos enquanto o Rei sofria para falar, seja para o povo, seja para as suas filhas. A revelação desses rostos torna cruel o pensamento, exteriorizado por alguns personagens, de que a gagueira de George VI seria sinal de covardia, de incapacidade. Em alguns momentos, covardes e incapazes foram os outros, quando a História lhes reclamou seu lugar, e eles dele declinaram’’.

Gerhardt (2011) pontua que ‘‘o plano fechado mostra em plenitude e fidedignidade o que se passa na mente e no corpo de uma pessoa que gagueja, quando ela precisa, justamente, não gaguejar. Quem gagueja deve entrar no cinema preparado para poderosas emoções, porque Colin Firth consegue traduzir no rosto o que se passa com quem convive com a gagueira. Tanto que em uma entrevista, o ator demonstrou reconhecer plenamente o fardo que pessoas com essa condição carrega, ao afirmar que, assim como os gagos, necessitou viver o sacrifício que é, para quem gagueja, a tentativa de não gaguejar. Quem é gago sabe o que essa revelação provoca, mas agora ela vai provocar a todos, porque é muito difícil alguém assistir o filme ainda acreditando que quem gagueja o faz sem sofrer, ou o faz porque quer, ou porque lhe falta coragem. E quanto a isso temos muito que agradecer a esse ator inglês que iniciou sua carreira no cinema interpretando homens poderosos e decididos, que ao longo do tempo foram se tornando complexos, interessantes, com sua força sendo revelada através das enormes dificuldades por que passam. Assim é o Rei George VI que Colin Firth nos oferece’’.

 

Bora detalhar a parte artística, ao todo o longa recebeu 12 indicações na 83ª edição do Oscar, levando 4 estatuetas para casa, respectivamente, as estatuetas de Melhor Filme (Iain Canning, Emile Sherman e Gareth Unwin), Melhor Diretor (Tom Hooper), Melhor Ator (Colin Firth) e Melhor Roteiro Original (David Seidler). As demais nomeações foram nas categorias de Melhor Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush), Melhor Atriz Coadjuvante (Helena Bonham Carter), Melhor Trilha Sonora (Alexandre Desplat), Melhor Mixagem de Som (Paul Hamblin, Martin Jensen e John Midgley), Melhor Direção de Arte (Eve Stewart e Judy Farr), Melhor Fotografia (Danny Cohen), Melhor Figurino (Jenny Beavan) e Melhor Edição (Tariq Anwar).

Discurso final

O roteirista David Seidler também gaguejava quando criança, devido ao trauma emocional da guerra, e por isso decidiu estudar a vida de George VI, declarou que os melhores diálogos do filme não foram escritos por ele, mas tirados diretamente do diário do próprio Logue, revelados há apenas cinco anos pelo neto do fonoaudiólogo autodidata. Seidler sempre foi fascinado pela a história de superação do monarca, isso o levou a desenvolver o argumento e, posteriormente, o roteiro de ‘‘O Discurso do Rei’’. Cabe comentar que na época ele estava enfrentando um câncer, usou esse período denso para se dedicar a construção da narrativa do filme. Depois de completar o roteiro e ter conseguido a remissão, ele mostrou o trabalho à esposa. Ela gostou do roteiro, mas achou que estava cheio de linguagem técnica de cinema e sugeriu que ele o reescrevesse como uma peça de teatro, para forçá-lo a se concentrar nos personagens. Seidler rasgou o roteiro original e escreveu uma peça do zero, com base nas suas pesquisas. Depois de tê-la completado, ele viu que realmente tinha gostado do resultado e a enviou a algumas pessoas para ouvir opiniões. O texto acabou caindo nas mãos de Tom Hooper que adaptou a peça para as telonas. Seidler, por sua vez, ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Original.

Alexandre Desplat ficou responsável pela Trilha sonora original. Desplat foi cuidadoso para não encobrir a dramaturgia. Em suas composições ele trouxe um arranjo disperso de cordas e piano, com a intenção de transmitir a tristeza do silêncio do Príncipe, e o calor crescente da amizade entre ele e Logue. Foi muito preciso ao usar a repetição de uma única nota para representar a monotonia da fala do Príncipe Albert. Perceba que à medida que o filme progride, blocos sonoros de cordas embalam a amizade entre os dois até o clímax, na cena da coroação. Para criar uma sonoridade de acordo com a época, a trilha foi gravada com microfones que haviam sido feitos especialmente para a família real, extraídos dos arquivos da EMI.

A cenografia foi um desafio para Judy Farr, pois produções de época exigem mais e o orçamento estava limitado a £10 milhões. Ao mesmo tempo, o filme precisava ser autêntico, combinando a elegância real com a miséria da época da depressão de Londres. A fotografia de Danny Cohen é levemente escura e realça a sobriedade da realeza inglesa. Essa sobriedade vem do comportamento, do respeito e da tradição da família real. Discretos, enquanto a indumentária exibe glamour e riqueza. Sobre o figurino, assinado por Jenny Beavan, podemos afirmar que ele retratou de forma exata a indumentária dos anos 1930. No limbo entre a primeira e a segunda Guerra Mundial, a Europa ainda possui dinheiro, ainda mais as pessoas da monarquia. Joias, peles, chapéus e, para os homens, o corte impecável da alfaiataria inglesa enchem os olhos de qualquer amante da moda.

Tom Hooper em sua direção fez questão de evidenciar o fardo que é se tornar rei. Ao contrário do que muitos pensavam, não existe glamour o suficiente que apague as responsabilidades de carregar uma nação nas costas. Apesar do rei em si não possuir de fato o poder de ação do primeiro-ministro, é ele quem precisa manter as aparências. Hooper empregou diversas técnicas de filmagem a fim de evocar os sentimentos de constrição do rei.

Hooper dirigindo

Colin Firth, merecidamente levou o Oscar de melhor ator por seu papel como rei George VI, teve muito química (flui de maneira espontânea e natural) ao contracenar com Geoffrey Rush, que dá a vida ao fonoaudiólogo Lionel Logue, e Helena Bonham Carter que interpreta Elizabeth, esposa do rei (é tão bom vê-la em um papel sóbrio e dramático), o desemprenho do trio é o trunfo do longa. Hooper conseguiu desenvolver bem a dinâmica do elenco e humanizar as figuras quase fabulares que compõe a nobreza, o clero e a plebe. O elenco é composto por Guy Pearce, Timothy Spall, Derek Jacobi, Jennifer Ehle, Anthony Andrews, Claire Bloom, Eve Best e Michael Gambon (o eterno professor Dumbledore de Harry Potter).

FICA O CONVITE

Fontes consultadas:

  • FRAZÃO, Dilva. Biografia de George VI. E Biografia, 04 de abr. de 2021. Disponível em . Acesso em: 04 de abr. de 2021.
  • GERHARDT, Ana Flávia L. M. Através do filme “O Discurso do Rei”, pudemos falar ao mundo. Instituto Brasileiro de Fluência -IBF , 04 de abr. de 2021. Disponível em . Acesso em: 04 de abr. de 2021.
  • VARELLA, Maria Helena. Gagueira. Portal Drauzio Varella, 04 de abr. de 2021. Disponível em https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/gagueira/. Acesso em: 04 de abr. de 2021.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

É editor da página Cinema e Geografia, comentarista, colunista e repórter de cinema.

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