O desrespeito ao autores e cientistas nacionais

Sociedade está cansada com a desconsideração ao trabalho de profissionais brasileiros

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VivianneFair-OCaçadoFaz alguns meses que muitos brasileiros estão envolvidos em protestos por todo o país, tanto nas ruas, quanto virtualmente. Entre os internautas manifestantes, uma grande parte não protesta contra a realização de eventos como a Copa do Mundo e Olimpíadas, mas no sentido de como eles deixaram ainda mais evidente não só a falta de estrutura do país, mas a falta de investimento em várias áreas vitais, como transporte e educação.

O uso errôneo da ideia que o esporte ajuda a combater a violência, quando um povo já tem outras áreas desenvolvidas, tornou importantes trabalhos de profissionais nacionais, como nas ciências e artes, algo completamente ignorados. Isso porque todos os incentivos e atenções vão apenas para o futebol.

Se alguém tinha qualquer dúvida, bastou ver a cerimônia de abertura da Copa no Brasil, que teve uma avanço tecnológico de grande importância para a humanidade, praticamente, ignorado. O projeto do exoesqueleto de Miguel Nicolelis, que possibilitou o paciente paraplégico Juliano Pinto, caminhar e dar o chute inicial.

Brasil de várias camadas é desrespeitado até por brasileiros

Não só trabalhos e nomes de cientistas renomados internacionalmente são ignorados, mas também artistas nacionais que buscam a diversidade. Muitos brasileiros ignoram a existência da diversidade cultural como, por exemplo, na literatura nacional. Não fazendo ideia da existência de muitos autores e obras, que não seguem os padrões das mais conhecidas. Como é o caso de autores de literatura fantástica, quadrinhos, entre outros.

Um caso recente, que deixa evidente o problema, ocorreu com a autora e quadrinista nacional Vivianne Fair, que teve um de seus trabalhos em quadrinhos desrespeitado e adulterado. Se já não basta o fato de muitos acharem que não existe desenhista de quadrinhos mulher no Brasil, a administradora de uma página na rede social, usou uma das tirinhas de Vivianne Fair, sem incluir créditos e ainda adulterada, o que fez a autora buscar esclarecimentos.

Se o roubo de imagem já não era problema suficiente, a administradora da página em questão, em tom de deboche, declarou no perfil da autora que se estava no Google, os desenhos podiam ser usados como quisesse. Que não era roubo de imagem e que a autora estaria cometendo o “crime” de calúnia.

Fãs chocados e indignados saírem em defesa da autora e quadrinista que ficou feliz com a preocupação de todos. “Graças a vocês (fãs de ‘A Caçadora’ e ‘O Caçado’), o conteúdo foi removido. Obrigada…”, declarou a autora em seu perfil na popular rede social. “Espero que a tal página pare de roubar imagens dos outros. Gente de má fé dá nisso…”

O comentário de Viviane aborreceu a administradora da página, que se justificou dizendo que “não sabia”. A autora havia informado que por ser uma imagem disponibilizada por ela no Google, sempre incluía crédito. Porém o roubo de imagem ocorreu, já que além do crédito ter sido apagado, o conteúdo foi adulterado.

Quando questionada, sobre o ocorrido Vivianne Fair declarou que uma imagem não aparece do nada, alguém a coloca na internet. Por isso a desculpa de “não sabia” e/ou que “estava no Google” não é válida.

Além disso, uma pessoa que pega uma imagem do Google tem como ver sua origem. E se também tira os créditos, é claro sabia de quem era.

Desenhista de quadrinhos, a autora e também é cartunistas, começou como tantos outros de sua área, com desenhos que inclui tirinhas cômicas, brincando com personagens favoritos de outros autores, mas sempre incluindo os devidos creditados.

Os fãs

Vários fãs que viram o comentário equivocado da administradora da página, que cometeu o roubo da imagem, aproveitaram para dar umas aulas de direitos autorais a desinformada, que infelizmente como muitos atuais donos de blogs e páginas na internet, usam a desculpa da ignorância para cometer crimes virtuais.

Fãs, como Ana Carolina, defenderam a criadora do quadrinho roubado. “Existe uma coisa chamada FanArt/Fanficttion no mundo, que é a arte de fazer algo baseado em uma coisa da qual é fã, mas para isso, existe um termo no qual você não pode lucrar em cima disso”, observou Ana Carolina.

Nesse caso um fã que é desenhista, se inspira em trabalhos de outros artistas, muito comum entre artistas gráficos, para aperfeiçoarem sua técnica. O que não foi o caso, já que usaram quadrinhos da autora, removendo os créditos e apagando o texto original para incluir outro no lugar.

Ana Carolina ainda mencionou um acontecimento com artistas famosos internacionalmente, sobre uso indevido de imagens. O caso envolvendo o cantor Justin Bieber, que roubou a fanart da banda Paramore. O jovem cantor também achou que não tinha problema já que “estava no google” e o resultado foi um processo pelo crime.

“As imagens no Google estão protegidas por direitos autorais, mas muita gente usa sem respeita-los”, ressaltou Ana Carolina. Vale destacar que “se viola os direitos autorais, quando os créditos não são incluídos e/ou o conteúdo original é adulterado.”

Não importa se o conteúdo é de um estúdio como a Fox, ou as tirinhas de uma autora nacional, é crime e alegar “calúnia” e “acusação infundada” por ser desinformado(a) não vai livrar o(s) infrator(es) de um processo. Plágio é crime.

Camila Guello comentou que ser desinformada não é desculpa. “Não é porque uma coisa está no Google que não tem direitos autorais. Se alguém pega uma imagem sua, tira sua assinatura e coloca em outro site, isso já é crime. O Google é apenas uma ferramenta de pesquisa… dizer que pegou no Google não é meio de defesa.”

Os casos

Dona do site Leitora Compulsiva, a blogueira Camila Guello, comentou uma matéria que escreveu na qual condena a leitura de e-books piratas. A matéria “Os e-books piratas e as desculpas furadas”, foi escrita por causa de um mal entendido, após ser contactada por uma autora nacional que, como vários autores no Brasil, sofria por conta de desrespeito aos direitos autorais.

“Infelizmente existem muitas pessoas que se prestam a manter um blog que disponibiliza links de livros piratas e um desses blogs tem um nome muito parecido com o do meu”, comentou Camila sobre a confusão. No entanto, ela conseguiu ter uma ideia da fúria que um autor sente ao ver todo o seu trabalho jogado pelo ralo e de como as pessoas são hipócritas, quando o assunto é e-book pirata.

A desculpa de que livro no Brasil custa muito caro, é a mais usada, mas se não é justo uma pessoa, que ganha um salário mínimo, ser privado da leitura.  “Baixar livros piratas é errado, não importa qual seja a sua desculpa”, completa Camila Guello.

Atualmente há no Brasil sites especializados e com preços bem em conta, com e-books originais e de boa qualidade.

Quando pedida a opinião de Vivianne Fair sobre o fato de muitos no país, acharem que o que está na internet pode usar como quiser, a autora respondeu que acha que isso é simplesmente uma desculpa.

“Até mesmo crianças sabem que não podem pegar trabalho da internet e usar como seu (na escola). Muito mais provável é achar que não vai ser pego. Seria bom se houvesse esse tipo de ensino na escola, por conta de um mundo cada vez mais tecnológico. Sobre spams, cyberbullying, plágio, vírus, pedofilia… afinal, há muito mais perigos virtualmente hoje em dia”, completa.

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