O Carnaval e as suas problemáticas contemporâneas

Para muitos foliões e epígonos da Sapucaí, o Carnaval terá início hoje mesmo. Não obstante, as queixas artificiais e intrínsecas ao festival ocorrem há décadas; sendo feitas, inclusive, por cidadãos que apoiam o evento. Isso ressalta, de maneira sinótica, a dificuldade que a população segue carregando ao emitir opiniões sobre algum panorama, especialmente quando julga necessário exibir que tem um lado com o qual se identifica.

É impossível mensurar o número de indivíduos que reclamavam de tudo antes da chegada deste feriado que envolve o país inteiro, mas é correto definir que a insatisfação popular ficará suspensa até o final da próxima semana: altura em que as lamentações voltarão a incidir no cotidiano das pessoas mediante o descongelamento da realidade que a esbórnia das serpentinas petrifica anualmente. Os distúrbios resultantes da conflagração política, incontestável mantenedora do atraso nacional, serão evidentemente preteridos.

Constatar que os frequentadores de uma série de blocos carnavalescos são os mesmos que postergam as denúncias contra os elementos que criticam indeterminadamente a fim de dançar, vestir trajes excêntricos e consumir bebidas alcoólicas e outros narcóticos é um paradoxo inquestionável. Entretanto, a dissonância comportamental do brasileiro faz parte da estrutura sociocultural da nação desde épocas remotas. Os acidentes, por exemplo, são nódoas que jamais se desvencilharam da festa que encerra o Tempo da Septuagésima e, consequentemente, amplificam o seguinte pensamento: folia é sinônimo de tragédia!

Assim como em qualquer espetáculo nupérrimo capaz de reunir multidões, o Carnaval é uma solenidade popular que reflete o assombroso consumo de entorpecentes lícitos e ilegais. O álcool é a substância que comprova a veracidade desta afirmativa, dado que é o principal fator de causa dos incidentes e desastres. As pessoas terminam pernoitando de forma subsequente pelas ruas; se expõem ao perigo dos ataques de marginais; ingerem altíssimas quantidades de cervejas, vinhos e aguardentes sem moderação e colocam outras vidas em risco. Não existe um átimo intermitente sequer para a recuperação orgânica em geral através do descanso, até porque o objetivo destes bufões em específico é ultrapassar todos os limites do bom senso. São jovens que bradam ostensivamente o autoadentramento em estado comatoso graças ao uso superlativo de produtos alucinógenos. É um orgulho insano, pois estão assumindo, de modo latente, a culpa das incontáveis perniciosidades que suas infrações provocam.

Em unidades federativas como o Rio de Janeiro, onde acontece um dos maiores Entrudos do planeta, o fluxo exacerbado de veículos se deslocando com uma negligência terrível entre as rodovias ilustram o drama acarretado pela junção de bebida alcoólica com a itinerância automotiva. É lógico que tamanho aturdimento é facilmente localizado em outras datas e circunstâncias, mas se desdobra como um miasma durante o Carnaval. Mesmo havendo um consenso global acerca de que os condutores de motocicletas, carros, ônibus e afins não devem se embriagar, os bêbados infradotados que se recusam a aceitar que não possuem condições de dirigir persistem, corroborando na propalação senoide das fatalidades e da violência. Tais casos são apurados de maneira plástica e acabam esquecidos, visto que a gafieira mercantilista não pode ser interrompida e as vidas ceifadas significam pouco sob essa ótica.

É preciso esclarecer que, devido ao pluralismo social verificado no Brasil, há um vasto renque de foliões que saem nas passeatas carnavalescas em busca de uma diversão honesta e gratificante. E que também é uma verdade irrefutável que há um entroncamento de pândegos fora da órbita da juventude cometendo as mesmas atitudes irresponsáveis, bem como existem moças e rapazes indiscutivelmente profícuos nestes festejos. Porém, essa ordem de cidadãos vem sofrendo uma redução drástica, e exceções não configuram arquétipos. Esse prolóquio é ratificado com a turgidez das colisões nas estradas a partir dos índices que classificam os acidentes de trânsito ao longo do Carnaval.

Apesar das calamidades já relatadas, ignorar a deturpação administrativa que os governantes suscitam é um disparate completo. Seus métodos ásperos e escusos no intercâmbio de soluções e recursos dogmatizam a aplicação de multas como o único dispositivo manipresto na resolução das adversidades ligadas ao trânsito. O que necessita ser implementado com urgência é um efetivo programa de disciplina nas estradas, e não incursões publicitárias de cunho paliativo somente nos momentos derradeiros. Tal providência é superficial; uma tentativa de curar uma infecção com analgésicos. Essas campanhas são inconsistentes porque não se tratam de políticas públicas, e sim de mecanismos fugazes de dispersão. As sanções já destoam dos salários exíguos, o que abre margem para o surgimento de dívidas multilaterais e o aditamento de impostos a fim de cobrir este saldo negativo. Todavia, quem concede e revoga os documentos de habilitação é o Departamento Estadual de Trânsito, um órgão estatal que também é incumbido de gerenciar o tráfego das alamedas. O justo seria infirmar os registros daqueles que ousam praticar essa atitude criminosa ao invés de punir a sociedade inteira, e o Estado — nas suas Três Esferas de Poder da União e da República Federativa — tem a obrigação de instruir plenamente os condutores de veículos e os pedestres, acentuando os cuidados com a integridade física, moral e psicológica dos brasileiros e suprindo as propostas deficientes no setor com o apoio maciço da população.

Outra intempérie deste período que antecede a Quaresma é o alastramento dos homicídios dolosos. Para dar cabo a essa imolação, o Estado precisa intervir da mesma forma alusiva aos óbices itinerários, efetuando uma renovação educacional profunda que abranja a ciência e os esportes; investindo em segurança pública e células de inteligência e promovendo o trabalho conectado às atividades econômicas, com distribuição de renda planejada e valorização do ser humano. Isto posto, a releitura de leis será absolutamente verossímil e produzirá efeitos concretos. Talvez seja por esta razão que muito se comenta a respeito do acautelamento no trânsito enquanto se aborda tão pouco sobre a prevenção de assassinatos, pois se o fardo do primeiro episódio recai abertamente no indivíduo, o segundo caso vulnerabiliza a imagem dos políticos. A supressão da vida por intermédio da brutalidade desencadeia uma gama de transtornos em diferentes horizontes, englobando os atendimentos de emergência nos hospitais; a intranquilidade que o atentado lança no recinto e o desespero das famílias com a perda de seus entes queridos. A eliminação intencional de uma miríade de cidadãos brasileiros é algo extremamente ignorado no decurso do Carnaval.

A verdade é que a farra dos confetes apresenta duas instâncias heterogêneas: a folia dos cortejos e o sínodo de desorganização pública. Independente das particularidades antepositivas, os dirigentes e operadores que atuam no Carnaval desenvolvem o espetáculo de um modo ímpar, e por mais enfadonho que seja, os desfiles das escolas de samba nas avenidas já constituem — merecidamente — um dos vértices imateriais do patrimônio cultural do Brasil. No entanto, é indispensável alertar que não se deve fazer uso disso para camuflar os impasses contidos na festa. O escopo consiste na detecção das mazelas do evento, visto que é inútil ficar discorrendo se governantes de sete ou nove lustros atrás obstruíram ou não as demandas públicas. Isso não resolve as vicissitudes hodiernas. Fora que os pretextos utilizados para mitigar o desvio reiterado de verbas são infinitos e já obliteraram a longanimidade da população. A intolerância e a descrença no coletivo desvirtuaram os brasileiros, que praticamente já não acreditam na funcionalidade pública. Jornais de todas as categorias transmitem notícias que revelam montantes sobressalentes oriundos da arrecadação tributária. Insistir na endrômina de que as divícias financeiras são insuficientes é um escárnio com a dignidade e a lucidez do povo.

O estruturalismo nacional clama por uma revisão singular que o faça resistir a estes tempos obscuros em voga. Se a atualidade pleiteia uma reavaliação dos cenários que integram o Brasil, o Carnaval não pode ser desprezado.

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Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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