O Brasil vive em fase bipolar

A recente polêmica sobre a realização ou não do Carnaval em 2022 nos leva a refletir sobre o ambiente social vivido pelo país

A pandemia de covid 19 que atinge o mundo desde 2020 revelou mais profundamente no Brasil um clima de bipolaridade, que já vinha se desenhando há algum tempo. Eu, particularmente, identifico este fenômeno desde as grandes manifestações populares nas ruas, em 2013, quando então uma onda de radicalismo e polarização tomou conta do país.


Mas por que uma coluna que se dedica ao samba está tocando neste assunto? Primeiro, porque não somos uma ilha e o mundo do samba está inserido na sociedade. Depois porque o carnaval fez aflorar radicalmente esse lado bipolar que de modo geral estamos vivendo. Bipolaridade, do ponto de vista psicológico, genericamente é definido como aquele estado mental em que vamos de um extremo a outro sem escalas. Um estado que repentinamente  alterna euforia e tristeza, otimismo e pessimismo, amor e ódio.

Há algumas semanas atrás parecia que caminhávamos para superar todos os transtornos trazidos por esta doença desde 2020. Talvez contaminados pelo clima natalino e da chegada de um novo ano.
Mas, num movimento brusco bipolar, tudo azedou neste início do ano. Em época que deveríamos estar começando a entrar na alegria do Carnaval, como sempre acontecia até dois anos atrás, ao contrário, o discurso vigente agora parece nos querer levar a depressão.

A prefeitura do Rio de Janeiro cancelou o carnaval de rua. Outras cidades com forte presença da festa, como Salvador, Recife, Olinda e São Paulo acompanharam a decisão.

Neste espaço, eu já tinha alertado que seria muito difícil a autorização da folia nas ruas, com blocos que arrastam multidões, pela dificuldade do controle sanitário e persistência da transmissão da covid, com esta nova variante ômicron. Por enquanto, garantido mesmo só os desfiles das escolas de samba, realizados em um Sambódromo fechado e com possibilidade de controle.

Uma decisão equilibrada, levando em conta dados estatísticos, baseados em Ciência. Por outro lado, ainda há os que insistem em cancelamento geral, movidos puramente por questões dogmáticas ou desejo próprio, sem considerar a complexidade envolvida nessas decisões.

A grande imprensa faz uma cobertura alarmista e por vezes sensacionalista do atual cenário da doença. Optou por uma abordagem preventiva, assustadora e pouco equilibrada. Cientistas e médicos dizem que a variante atual do vírus, embora seja mais transmissível, é muito menos letal. Os dados reais de internações nos hospitais e mortes parecem comprovar isto.

Mais do que nunca, precisamos ter equilíbrio para não entrar nessa onda de bipolaridade, nem sermos acusados de negacionistas. Precisamos refletir, ponderar sem relativizar. Enfim, depois de dois anos, parece que o carnaval 2022 vai ser a “meia bomba”. Já é alguma coisa, após o cancelamento do ano passado. Entretanto, o cenário bipolar aconselha a aguardar alguns dias, pois como dizia aquela antigo comercial ouvido no rádio, “o mundo gira e a Lusitana roda “. Ou aquele outro, “cada segundo que passa é um milagre que não se repete “.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e