November Tears

Sabemos que nada é para sempre, mas as lágrimas de novembro ainda insistem em cair e molhar os rostos sufocados por um hiato que se forma em nossos corações

Estive ausente um tempo por conta de organização. Isso mesmo, estava organizando meu novo estúdio e buscando novas ideias para por em prática. E no meio disso tudo me deparei com algumas notícias que nos pegaram de surpresa e nos deixaram muito triste.

São tantas que não sei se o espaço dará para enumerá-las. Mas vou tentar ser o mais breve possível. Começamos com o feriadão de finados, muita gente saiu às ruas, promoveu festas e bailes, encheram praias e bares nos deixando apreensivos com o que chegaria dias depois. Ainda no feriadão, tivemos a morte do ator Tom Veiga, 47, que interpretava o Louro José. Pegou todos de surpresa. Uma morte prematura de certa forma. Por falha humana novamente, depois de uma tempestade em Amapá, 13 cidades do estado ficaram sem energia elétrica por vinte e dois dias. Imagina a dor das pessoas que diante de uma pandemia que insiste em continuar nos fazendo companhia, ainda perdem seus alimentos e seus sustentos por culpa de uma máquina mais que falida chamada Estado.

Começamos muito bem o mês com uma primeira semana digna de prêmio Nobel da falta de amor ao próximo. Mas se você pensou que teríamos folga, enganou-se. Logo tivemos as eleições para prefeito e vereadores. Eu particularmente não sei para que tantos políticos se eles não fazem nada em prol do povo que o elegeram, mas faz parte da nossa cultura. E por falar em eleição, lá nos EUA o Trump não aceitou a derrota e fez jogo duro para entregar a paçoca ao atual presidente eleito Biden. Juro que não consigo entender como chamam a eleição americana de democrática quando é um colégio que elege o presidente, mas enfim.

Durante o período de campanha por aqui tivemos “caminhada” em busca de votos. Sim caminhada, pois era assim que os meios de comunicação chamavam as aglomerações de políticos em busca de votos do povo. A partir do dia 1º de dezembro voltaremos ao status quo da aglomeração. Só que os fatos contradizem as dualidades que insistem em nos mostrar em tempos de pandemia. Tivemos um aumento significativo nos casos de Covid-19 em novembro. No momento em que o Brasil caminhava para um queda na curva de infecção e mortes, a irresponsabilidade de autoridades e principalmente da população fez com que os riscos ficassem mais acentuados e perigosos. Já dizia o filósofo: Quando a mente não pensa o corpo padece. E dessa vez literalmente.

Vivemos um fim de ano como começamos, com medo e sós. Aqueles que se isolaram por meses se cuidando e se preocupando com seu semelhante chega ao fim do ano com a sensação de que nada de seu esforço valeu. Nada foi respeitado e levado a sério. Por que será? Não sei, mas fato é que boa parte da população ignora qualquer apelo coletivo, simplesmente por pensar apenas em si e que se dane o outro. Mas se esquece que o barco é o mesmo e que todos afundarão se o timoneiro não conduzir a embarcação de forma cautelosa. Simples assim.

Quando chegamos na última semana onde os pensamentos estão voltados para a famosa “Black Friday”, importada da cultura americana e que já faz sucesso por aqui há alguns anos e que nos permite comprar produtos com maior facilidade, nos deparamos com notícias que mexeram com o emocional de muita gente. Primeiro um prédio em Belo Horizonte em fase final de construção do nada se torna a réplica da famosa Torre de Pisa, na Itália, e ameaça cair e destruir casas à sua volta. No dia seguinte recebemos a notícia que um dos maiores jornalistas esportivos do Brasil havia nos deixado de vez. Trata-se do “Alô você” Fernando Vanucci, 69. Quantas tardes não ficamos assistindo ao Globo Esporte ou mesmo nas noites de domingo esperando o Fantástico acabar para vermos os gols do Fantástico apresentados por ele? Mais tristeza por dias quadrados em novembro.

E como tristeza pouca é bobagem, nesta quarta-feira quando nos preparávamos para almoçar, começou a pipocar nas redes sociais a informação de que Maradona havia sido encontrado morto em sua casa no subúrbio de Buenos Aires. Aí eu digo: para tudo que eu quero descer! O que está acontecendo? É o fim e não estamos nos dando conta? Diego Armando Maradona, 60, um excepcional jogador de futebol. Ídolo maior argentino, respeitado e admirado por boa parte do planeta, morre de repente. Verdade que a sua vida nunca foi um exemplo a ser seguido, mas a vida de cada um só interessa a si próprio, portanto, não estou aqui para crucificá-lo e sim lamentar a perda de um grande astro no que sabia fazer e encantou o mundo, que era jogar futebol.

E ontem, como se não bastasse a morte do Maradona, tivemos a tragédia anunciada mais uma vez de um ônibus que não deveria estar nas ruas com um caminhão que resultou em 41 mortes. Até quando as nossas autoridades fecharão os olhos para casos como esse em que a irregularidade vence a responsabilidade e faz com que vidas sejam ceifadas? Não consigo enxergar uma luz no fim desse túnel. Lamentável. Ontem enquanto escrevia sobre a morte do Diego Armando Maradona para meu blog percebi que muitas pessoas que fizeram história e que eram ídolos estão partindo. Fiquei com a impressão de que por muito tempo ficaremos sem representantes da arte, da alegria, da vida. Está se abrindo uma lacuna cultural que poderá ser o fim da expectativa da humanidade em entender o significado de viver a arte ao limite.

Airton Senna, Renato Russo, Freddie Mercury, Kurt Cobain, Michael Jackson, John Lennon, Bob Marley, Roy Orbinson, Raul Seixas, Andy Gibb, Peter Tosh, Júlio Barroso, Marvin Gaye, Frank Zappa, Harry Nilsson, Chico Science, John Denver, Carl Wilson, George Harrison, Cássia Eller, Maurice Gibb, Johnny Cash, Amy Winehouse, Robin Gibb, George Michael, Kid Vinil, Morais Moreira, Trini Lopez, Eddie Van Halen, Diego Armando Maradona, Kobe Bryant… Algumas das mentes mais brilhantes se foram e só prova que estamos entrando na lacuna que me referi acima. Aqui está apenas um grupo de pessoas que fui me lembrando, mas a lista é enorme. E quando não repomos qualidade, uma hora vai fazer falta. Começo a sentir. E você?

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

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