Novelas, como não amá-las?

Ficava sentado no sofá esperando a hora do mocinho pegar sua namorada e beijá-la com amor e a música de fundo aumentar o clima e o volume

E lá se vão exatos 70 anos e um mês de novelas no Brasil. Isso mesmo, a primeira telenovela produzida numa emissora de televisão brasileira foi “Sua vida me pertence”. A novela foi escrita por Walter Foster, que também atuou e dirigiu o folhetim. Ele contracenou com as atrizes Vida Alves e Lia de Aguiar. A novela estreou em 21 de dezembro de 1951 e foi exibida até 15 de fevereiro de 1952. Teve 15 capítulos e era apresentada duas vezes por semana e ao vivo. Uma verdadeira loucura. Sempre exibida às 20h. E foi exibida pela extinta TV Tupi. Talvez venha daí o horário nobre para as teledramaturgias brasileiras. E vale destacar que “Sua vida me pertence” foi não só a primeira novela da televisão brasileira, mas sim, do mundo. Nunca antes havia sido feita uma novela em moldes para TV. Parabéns à ideia de transformar a radionovela em telenovela.

Bem, já deu para perceber que sou um amante de folhetins. Desde a minha infância eu via as telenovelas e viajava como qualquer criança. Lembro certa vez assistindo um capítulo de Selva de Pedra, a primeira versão, onde a personagem vivida por Regina Duarte sofre um acidente de carro e cai de um penhasco. O carro explodiu e eu acreditei que ela havia morrido. No final do capitulo fiquei triste, pois acreditei ser verdade o que acabara de assistir. Isso é a magia da televisão. E claro, a minha pureza de um menino de apenas seis anos de idade. Naquela época, seis anos era a idade da pureza. Essa cena ainda está registrada como uma das mais emocionantes de uma novela que eu assisti.

O acidente que comoveu e assustou, tamanha foi a realidade

As novelas sempre nos ensinaram muitas coisas, boas ou não. Por longos anos vivemos aprisionados na telinha esperando o momento da revelação, o momento do encontro. Também vivemos dias alegres e com vontade de cantar, gritar ao mundo, apenas sorrir. Novela, a paixão brasileira. Não é para menos, pois fomos nós que a colocamos na tela de televisão.

Pioneiros. Se tem uma coisa que o brasileiro sabe fazer, e bem, chama-se telenovela. Tipo exportação. Tupi, Globo, Record, SBT, Band… Temos alguns clássicos que dispensam comentários. É sucesso global. Vários países já assistiram e curtem até hoje.

Não dá para ficar aqui falando de uma a uma, pois não teríamos tempo e nem espaço, mas algumas ficaram marcadas para sempre. Eu vi algumas novelas que foram referências em algum momento de minha vida. Entre elas estão: Saramandaia, O Bem-Amado, Gabriela, Escrava Isaura, Dancin’ Days, O Astro, Final Feliz, Ti Ti Ti, Vale Tudo, O Dono do Mundo, Top Model, entre outras. Mas foi em 1990, que a Rede Manchete nos brindou com o que eu chamo de ápice da teledramaturgia, “Pantanal”. Para mim as novelas se colocam em: antes e depois de Pantanal. Na minha opinião, a melhor novela de todos os tempos.

A capacidade dos autores e diretores em criar fenômenos de audiência é fantástico. Mas acho que em determinado momento isso acabou se perdendo um pouco e hoje em dia não temos mais aquela qualidade e aquela história capaz de prender e alimentar a vontade do público em seguir, acompanhar cada capítulo. Uma pena. Não acho que a telenovela brasileira entrou em decadência, não, mas não atrai mais o público como antes. E podemos atribuir a isso vários fatores. O mais importante talvez seja a globalização. Basta pesquisarmos onde falhamos, e justamente nessa época em que o mundo ficou a um clique de nossas mãos, podemos enfim, escolher o que desejamos ver e só.

As novelas estão perdendo para os streamings, séries, filmes e produções de canais fechados. A concorrência se tornou cruel com as novelas e dificilmente será vencida por elas. Talvez a dramaturgia não entendeu que nos dias de hoje, onde o dia ficou curto e não temos muito tempo para ficar acompanhando uma novela que dura em torno de seis a oito meses. Tudo é muito rápido, passageiro e fugaz. Acompanhar uma novela nos dias de hoje requer tempo e paciência, justamente duas das mais importantes ferramentas do ser humano. A torcida pelo bem vencer o mal sempre foi utopicamente novelística. Mas enquanto durou, foi maravilhoso! Parabéns, velha senhora teledramaturgia!

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

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