Nono partido de Bolsonaro, PL detém 3ª bancada na Câmara

Nos últimos meses, a sigla contribuiu com importantes votos para a vitória de Arthur Lira (PP-AL) como presidente da Câmara e conseguiu emplacar

A filiação de Jair Bolsonaro ao Partido Liberal (PL), oficializada nesta terça-feira (30), marca a adesão do presidente a uma genuína sigla do chamado Centrão, capilarizada por mais de 300 prefeituras pelo Brasil e com a terceira maior bancada na Câmara.

A união traz à tona o papel da legenda nos últimos tempos e de alguns de seus principais nomes, como o ex-deputado federal Valdemar Costa Neto, que comanda o partido e teve papel preponderante nas articulações que culminaram com a chegada de Bolsonaro ao partido.

Nos últimos meses, a sigla contribuiu com importantes votos para a vitória de Arthur Lira (PP-AL) como presidente da Câmara e conseguiu emplacar, em março deste ano, a deputada federal Flávia Arruda (PL-DF) como ministra-chefe da Secretaria do Governo.

O PL também obteve indicações no Ministério da Saúde, no Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) e no Banco do Nordeste. A sigla agregou ainda figuras populares como o humorista e deputado federal Tiririca e o ex-jogador e senador Romário.

Desde que se desentendeu com o presidente do PSL, Luciano Bivar, ainda no primeiro ano de mandato, em 2019, o presidente Bolsonaro passou a procurar um partido “para chamar de seu”, em suas próprias palavras, e, principalmente, para conseguir se candidatar à reeleição.

Depois da tentativa naufragada de criar uma nova legenda, o Aliança pelo Brasil, ele buscou uma reaproximação com o PSL, mas a conversa não avançou.

Restava a Bolsonaro buscar uma sigla que não fosse tão pequena a ponto de não ter recursos – como tempo de programa eleitoral e fundo partidário – nem tão grande que fugisse de seu comando direto. É o que apontam especialistas.

Já para o PL, é a chance de sair da posição de uma sigla com foco no Legislativo, como comenta Carlos Pereira, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ).

O PL, ainda que sempre tenha orbitado o Executivo, compunha o quadro como coadjuvante – embora já tenha conquistado a Vice-Presidência da República com José Alencar, na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2002 e reeleita em 2006.

Os motivos também incluem o aumento de força já na atual gestão, colhendo frutos imediatos e não só apostando em depois de 2022. Como o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, está sem mandato e não se opõe a atuar mais nos bastidores do que sob os holofotes, Bolsonaro tem a oportunidade de brilhar no PL.

Essa é a avaliação de Francis Ricken, cientista político e professor de Direito na Universidade Positivo.

“Todos os prefeitos, todos os governadores do PL conhecem Costa Neto, sabem do trabalho que ele faz nos bastidores e sabem que ele faz aquilo que promete”.

Ao aderir ao PL, Bolsonaro está se associando a uma das maiores bancadas da Câmara dos Deputados. O partido atualmente tem a terceira, com 43 deputados federais, atrás apenas do recém-criado União Brasil, formado pela fusão de PSL e DEM, com 82 deputados; e do PT, com 53.

Além da força no Congresso Nacional, há ainda o fator da capilaridade em municípios, com mais de 300 prefeitos filiados.

Segundo o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino, o presidente conseguiu negociar e obter um partido de “porteira fechada”, expressão usada para definir que levou todos os benefícios incluídos.

Bolsonaro passou por oito em sua trajetória política. Na maior parte das vezes, ficou, em média, dois anos, com exceção da permanência por 11 anos no PP, de 2005 a 2016.

Depois de uma fase de rejeição pública ao Centrão, durante a campanha de 2018, com um discurso antissistema, o presidente reconheceu posteriormente que sempre foi do Centrão, grupo ao qual se aproximou ainda mais claramente em julho, quando convidou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) para ministro da Casa Civil.

As bandeiras do PL

Para Mariah Sampaio, cientista política e pesquisadora do grupo de comunicação eleitoral da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o PL é um pilar estratégico do Centrão.

“O partido nada com a maré, é de fácil adaptação. Nessa filiação, o foco não é uma conversa ideológica, mas, sim, uma negociação puramente política, de poder, de espaço e de domínio”, define.

A pesquisadora, que também é professora voluntária na Universidade de Brasília (UnB), ressalta que o partido esteve presente em acordos políticos relevantes para o rumo do país nos últimos anos, incluindo o impeachment de Dilma Rousseff.

“Há uma certeza: ao final, o PL vai estar com o vencedor, pois não entra em disputa para perder”.

Quando uma derrota se aproxima, uma das táticas tem sido “abandonar o barco”. “Foi assim com a ex-presidente e pode ser assim com Bolsonaro”, acredita Mariah, caso no ano que vem a desidratação política do presidente aponte para dificuldades nas urnas.

Do ponto de vista ideológico, o PL dialoga com temas que são caros ao bolsonarismo, como a defesa de uma agência econômica liberal.

O programa do PL indica que o partido apoia medidas que visem o crescimento, aumento do mercado de trabalho, ampliação do mercado interno e redução da dependência do exterior.

No quesito da dívida pública, a sigla considera que “as grandes cifras da dívida brasileira são consequência de processos acumulados de espoliação, dominação e incompetência” e que o Brasil deve honrar com os compromissos legalmente assumidos, desde que sejam exigidos condições e prazos que não “sacrifiquem o povo”.

Mas, por mais que o partido tenha sido criado dentro da tradição liberal e ainda tenha essa retórica com relação à economia, a legenda foi perdendo muito dessa essência ao longo dos anos, segundo cientistas políticos.

Mais do que destaque na macroeconomia, o partido criou uma capilaridade regional e esse pode ser um dos motivos da escolha de Bolsonaro pela sigla.

Para Carlos Pereira, no sistema presidencialista multipartidário característico do Brasil, raramente o partido do presidente tem sozinho a maioria das cadeiras, forçando uma coalizão.

“Ele vai precisar de partidos de perfil eminentemente legislativo, que não são ideologicamente muito orientados. Bolsonaro sempre trilhou esse caminho, de partidos amorfos do ponto de vista ideológico. O PL não foge dessa tradição”, diz.

O professor aponta uma diferença que deve ser levada em conta no jogo político atual: em 2018, não havia ninguém concorrendo à reeleição. O partido garante uma proteção ao presidente nesse contexto.

“Bolsonaro agora é vidraça e vai precisar de um arcabouço protetivo, partidário, que funcione como um escudo. Ele estava em busca disso. O PL pode ser essa ferramenta que ele tanto necessitava e ignorou durante esses anos”.

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