Nas ruas, o céu continua azul

E que a vida continue por aqui. Sempre

Outro dia vi uma maritaca andando no meio da rua, entre os carros. Não estava voando. Pensei: logo ela vai ser atropelada e minha consciência vai lá pro chão, junto dela. Dei meia volta, estacionei no meio fio, tive minha mãe xingada. Tudo para evitar que uma maritaquinha fosse transformada em retalho de asfalto. Ao sair do carro, peguei uma máscara pra tentar salvar a pequena verdinha nas mãos. Ela, então, vendo que eu estava muito perto, voou, sem a menor cerimônia. Safadinha, deve ter rido nas minhas costas: “Rá! Peguei mais uma!”

E comecei a me dar conta da mudança de hábitos dos nossos animais. Já repararam naqueles cachorros que só andam na calçada, atravessam na faixa de pedestres e esperam o sinal verde para atravessar, mesmo sem saber que aquilo é uma cor verde? E naqueles pássaros, que vêm na sarjeta só para beber um pouco de água, sem se incomodar com a poluição? E os sabiás, que hoje em dia vêm nas janelas em busca de ração, migalhas e até mesmo frutas que normalmente são colocadas nos beirais das casas?

Entendi, então, como os novos animais vivem conosco, sem sentir nenhum tipo de ameaça. Convivemos, afinal. Muito bem, mas sem nenhum tipo de traquinagem, não teria nada de original nessa convivência pacífica. Estamos todos no mesmo barco, só esperando que Noé venha novamente e nos leve? Ou que um disco voador pouse aqui no meio da Avenida Paulista e resolva fazer uma coleta, oferecendo uma Bolsa Galáxia, com o Auxílio Emergencial garantido até que termine a atmosfera?

Essas ofertas poderiam ser um diferencial na hora de uma coleta de seres para um novo mundo, num planeta totalmente ermo, sem nada além de ar e água. Como esses nossos “novos animais” se comportariam, agora com uma nova situação de sobrevivência? Teriam eles que, de novo, aprender a compartilhar suas experiências conosco ou teríamos nós que aprender com eles? Continuaríamos usando as máscaras e seguiríamos o mesmo “protocolo de distanciamento social”?

Enquanto isso não acontece, e torcendo para que não aconteça, vamos por aqui levando os olhos aos céus e acreditando que o mundo pode ser melhor por aqui mesmo, que o céu continua azul e que nós somos todos parte de um mundo só, redondo e sem esquinas, para que ninguém se esconda nelas. Nem mesmo as baratas, que essas eu mesma acho.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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