Narrativas populares e o conteúdo

A questão padrão comercial vs conteúdo

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Quando o assunto é uma narrativa popular, muitas vezes o padrão comercial caí no mesmo problema, falta de conteúdo. Criando incontáveis histórias rasas e repletas de clichês.

Não que seguir padrões e usar clichês seja algo ruim, já que o padrão narrativo, geralmente ligado a um gênero, é importante para manter a integridade de uma história, evitando narrativas confusas e com tanta informação diferente que deixa todo mundo perdido. Porém, o acréscimo de conteúdo não pode ser renegado, na opinião de vários autores nacionais, já que bem usado ajuda no enriquecimento da trama e personagens.

Fotos: Divulgação

Fotos: Divulgação

A romancista e contista Simone O. Marques da série vampiresca ‘Sabores do Sangue’ e das séries de livros fantásticos ‘Crônicas do Reino do Portal’, ‘As Filhas de Dana’ e ‘Os tesouros da Tribo de Dana’, que tem contos publicados em diversas antologias e que também é roteirista, fala em entrevista sobre a dificuldade de aceitação em escrever histórias com conteúdo, indo além dos padrões.

O Estado RJ: Por que as narrativas populares sempre são associadas a padrões sem conteúdo?
Simone O. Marques: Nós vivemos em um universo literário que há muito tempo se divide entre as histórias para a elite e a histórias para o povo. Enquanto na primeira, se prima pelo vocabulário, que beira ao erudito, na segunda, o objetivo é se aproximar da fala popular. Em uma sociedade em que os conhecimentos acadêmicos são considerados superiores aos saberes populares, a literatura certamente segue a maré. O que temos ainda é aquilo que muitos chamam de textos comerciais, aqueles que visam chegar à massa, vender números gigantescos de exemplares e que são repudiados por muitos autores e leitores que consideram a literatura um trabalho artesanal, destinado apenas àqueles que sabem admirar a arte e compreender suas mínimas referências. Um livro escrito para o povo, as narrativas populares são injustamente consideradas sem conteúdo, principalmente, porque tornam a linguagem acessível, compreensível, palatável para qualquer leitor, seja ele um entendido de gramática, linguística ou não. O que também não significa que uma narrativa popular deva desconsiderar a norma culta, de maneira alguma, ou mesmo não provocar o leitor. O que torna um trabalho incrível de transposição, de adaptação. Para mim, o importante é a narrativa tocar o leitor de alguma maneira, seja falando de sua realidade ou mostrando uma realidade que o faça viajar, desejar mais.

OERJ: Acha que o mercado literário, com a febre dos livros juvenis, passou a só se interessar em ter novas cópias do mesmo?
SOM: Infelizmente, o mercado acredita que sim. Por isso temos sempre grandes ondas ou modinhas. O mercado literário vê um lucro naquele gênero e acaba só investindo pesadamente nele. O que é uma pena, pois limita o acesso e engessa a criação. O pensamento de editoras e de outros envolvidos na publicação é: deu dinheiro? Tem números? Então, publique-se. É triste.
E muitos autores se encostam nessa moda e, muitos não se preocupam em criar algo novo, pesquisar coisas diferentes, reescrevem histórias de sucesso, limitando-se ao criado e alguns até conseguem sucesso por isso, como em alguns casos que vemos no mercado atualmente.

OERJ: Por que poucos optam por escrever histórias que mesclam um pouco de conteúdo aos padrões estabelecidos aos gêneros, criando assim uma narrativa mais marcante?
SOM: Eu acredito que seja por ser mais fácil. Pode parecer terrível dizer algo assim, mas é verdade. E, infelizmente, a maioria das editoras também não quer a narrativa marcante, mas uma narrativa que produza números. A não ser que você já tenha um grande público leitor, o que para mim é algo mais terrível ainda: editoras querem livros vendidos antes que resolvam publicá-los, o que faz dos autores mágicos dos números e leva àquela antiga reflexão de quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha?

OERJ: Da mesma forma que roteiros padronizados se tornam previsíveis, acha que isso acontece com os livros?
SOM: Com toda certeza. Eu, particularmente, quando vejo o caminho previsível que um livro está tomando vou até o final, só para confirmar o que já sabia. E isso acontece muitas e muitas vezes. Mas, o público em geral gosta daquilo que não o tira da zona de conforto, por isso, livros que oferecem mais do mesmo fazem tanto sucesso.
Eu não sou contra clichês, mas há maneiras de usá-los, sem parecer que se está copiando de alguém. Não sou contra finais felizes, por exemplo, mas há maneiras de criar um caminho e de chegar a eles. Criar uma aventura usando a jornada do herói é algo meio que necessário, mas há maneiras diversas do personagem fazer essa jornada, sem que pareça que estamos lendo uma receita de bolo. Livros muito famosos que estão no mercado são completamente previsíveis e fugir disso é entrar em um campo de batalha sem escudo.

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