Não seja jegue, anta, burro ou cavalgadura

Palavras corriqueiras, todos nós já as proferiram umas N vezes. E não damos conta do que e por que as falamos. Vaca, por acaso, tem índole de piranha, galinha? E galinha, sabe-se lá por onde anda pra saber quem são os “viados” (sic) que pulam atrás dela? Piranha sabe fazer mais do que morder a gente no rio, quando não está no de Janeiro? Se bem que lá as piranhas pulam as ondas e atacam na areia, no bar, na orla. Mas isso não vem ao caso.

Vem à minha cabeça atordoada e às vezes deturpada: onde foi que essa ofensa aos animais começou? Ofensa sim, mania de ser humano em ser o melhor dos melhores, mas se sair de casa sem roupa, no frio, já era. Humanos e suas idiossincrasias pós-modernas e cheias de não me toques. Vai tocar bangô no meio do Alasca, sem roupas, e uivar como uivam os lobos de lá. E olha que eles nem roupas têm. Lá o chapeuzinho vermelho nem chega perto.

Somos extraterrestres sim, nosso mundo verdadeiro se derreteu e viemos para essas bandas. O que não nos dá o direito de ofender quem quer que seja, de uma, quatro, cem ou nenhuma pata. Com um, dois ou mais corações ou estômagos variados. Com barbatanas ou braços compridos. Com tentáculos ? Nem com limão, nem à dorê. Passo.

Que história foi essa de chamar como ofensa uma pessoa de macaco? Ou outra de baleia? Outros de ratos, como se fossem os animais mais sacanas da vida. Comer como um porco? Ser como um verme, ser lerdo como uma lesma, ser usado como cobaia. Que mundo é esse, o nosso? Não, esse não é o meu.

Uma psicóloga e pesquisadora de Illinois, EUA, alertou: quando alguém é desumanizado, geralmente negamos à pessoa a consideração, compaixão e solidariedade que geralmente dispensamos às demais. A linguagem desumanizadora afrouxa nossa aversão instintiva à agressão e violência. Estudos descobriram que, depois que uma pessoa desumaniza outra pessoa ou grupo, sua tendência a se importar com as ideias e sentimentos da outra pessoa ou grupo diminui. Norte-americanos, por exemplo, tendem a desumanizar pessoas que vivem nas ruas, o que não é nenhuma novidade por lá.

Num estudo, os pesquisadores pediram que os participantes descrevessem um dia na vida de um mendigo, de um estudante universitário e de um bombeiro. As cobaias- olha aí! – demonstraram uma chance muito menor de mencionar o estado emocional do mendigo.

Alguma semelhança é mera provocação

Então voltemos às vacas magras, as de agora, quando todos querem tudo e não tem quase nada. Onde a ofensa alimenta sua existência e você não percebeu ainda que nada é seu. Que seus votos foram usado como papel higiênico e foram ralo abaixo, cair num rio nojento e cheios de capivaras, jacarés, garça e ratos. Milhares deles.

Mas ainda temos um lado suave, o das gatas lindas, das potrancas gostosas, dos garanhões deliciosos e insaciáveis, dos leões reis e coelhos tarados e fofos. Queremos ainda colo de esquilos, de gatos, de ursinhos carinhosos, de pandas.

Fale como um papagaio e verá que um filho teu não foge à luta. Mas, em momento algum, vire a casaca. Nem feche seu casco. Os inimigos sempre vão achar que foi frouxo como um gazela. Então vem a serpente e envenena a todos com suas fofocas. E mostra quem é a deusa desse Olimpo.

Burro é aquele que deixou o lanchinho na mesa pra ver um whats e vem uma revoada de maritacas histéricas e comeu tudo. Anta.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 4 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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