Não foi só por uma mão

O inimaginável aconteceu. Nem o mais pessimista dos torcedores poderia prever que em uma chave com Haiti, Equador e Peru, o Brasil seria eliminado de forma tão precoce da Copa América Centenário, ainda na fase de grupos. A desclassificação veio após a derrota para o Peru na noite de domingo (12) de forma polêmica. Afinal, o gol peruano foi marcado com a mão e, após longa espera, validado pela arbitragem a 15 minutos do fim do jogo. O Brasil se perdeu após a confusão e não conseguiu o que já não realizara até então: furar o bloqueio adversário e marcar ao menos um gol, já que jogava pelo empate.

Com o revés diante do Peru e o empate em zero a zero com o Equador, na estréia, o Brasil ficou em terceiro, à frente apenas do Haiti, adversário o qual o Brasil aplicou 7 a 1. Goleada que de nada valeu. Na verdade, o – hoje – místico placar serviu, sim, mais para o mal do que para o bem, pois lembrou a todos daquele que pode ser considerado o maior dos vexames de nossa história futebolística, os 7 a 1 para a Alemanha em casa, nas semifinais da última Copa. O pior, na verdade, é que de lá pra cá já se vão mais dois fiascos, a eliminação na edição regular da Copa América em 2015, nas quartas de final para o Paraguai, e agora na edição comemorativa, novo fracasso na competição.

mao no PeruTriste é constatar que a tal reinvenção que tanto se alardeou como conseqüência daqueles 10 a 1 agregados (na decisão do terceiro lugar o Brasil ainda foi superado pela Holanda por 3 a 0, na mesma semana do massacre alemão) não saiu do discurso. Pior do que isso, involuímos. Andamos para trás. Hoje, de dez seleções sul-americanas que disputam quatro vagas diretas e uma na repescagem para o mundial de 2018, o Brasil está em 6º, portanto, ficaria fora. Algo precisa realmente ser feito. E para ontem, melhor, para dois anos atrás.

A mudança – assim como na política nacional – precisa ser geral. Uma varredura. A CBF tem que ser auditada. Os interesses precisam voltar a ser técnicos e esportivos. Hoje o Brasil reclama uma mão assinalada contra o Peru. Veja o estágio em que estamos. Protestar um erro que custou a vaga contra o Peru, porque a seleção pentacampeã do mundo não conseguiu fazer sequer um gol nos adversários do mesmo continente, somando o empate com o Equador (que só não virou derrota por um erro da arbitragem). A verdade é que deitamos em cima de um pretenso título de ‘melhor do mundo’ em 2002 e nossa última conquista real já ocorreu há quase dez anos, em 2007, quando levantamos a Copa América pela última vez. A imprensa esportiva frita o Dunga sem dó. Tem sua imensa parcela de culpa, mas não é o único responsável pelo atual fiasco.

Não foi (só) a mão do Ruidíaz que eliminou o Brasil. Foi a falta de condução profissional na CBF. Foi a desestruturação do futebol brasileiro desde a base. Foi a falta de inovação e de reciclagem. Foi a soberba. Foi a ausência de formação e reposição de jogadores em alto nível. Foi a contratação de uma comissão técnica fraca e de condutas questionáveis. Foi a opção por critérios políticos em vez de técnicos em suas tomadas de decisões. Foi não acordar após o 7 a 1 da Copa. Foi ceder aos caprichos dos clubes europeus.  Foi muito mais do que um equívoco de arbitragem. Havia duas substituições a serem feitas, não utilizadas. Se não tinha ninguém no banco capaz de mudar o rumo do jogo, quem fez a convocação? Essa mão foi o de menos. Se fomos “roubados”, como os mais exaltados reivindicam, o fomos e temos sido há muito mais tempo e não no campo.

No fim das contas, o Peru se classificou em primeiro e está em festa. Pega a Colômbia nas quartas de final. Comemoram um grande feito ter vencido novamente – após 31 anos – a seleção brasileira. Eu mesmo, nunca tinha presenciado tal feito em vida. Resta, contudo, explicar para eles que ganhar desse Brasil no momento não é tudo aquilo que podem estar projetando. Já fomos os melhores, hoje estamos longe disso. E aí?! Quem conta pra eles? Talvez o próximo adversário.

Foto: Getty Images

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