46% das mulheres ainda estão sem candidato a presidentel

Metade do eleitorado feminino rejeita Bolsonaro

Quando a pergunta é feita sem mostrar uma cartela de respostas, 46% das mulheres dizem não saber em quem votar. É quase o dobro da indefinição entre os homens, de 26%. Como as mulheres representam 52% do eleitorado, é razoável imaginar que elas definirão o pleito.

“A indefinição das mulheres é um dado histórico nas campanhas brasileiras”, diz a cientista política Maria Hermínia de Almeida, da USP. No mesmo período em 2014, o patamar de indecisas ficava em 34%, de acordo com o mesmo instituto.

“A campanha eleitoral começou mais tarde e está muito indefinida. Não são as mulheres que demoram demais, os homens é que são muito afoitos para se definir”, diz Fernandes.

A definição dessa fatia do eleitorado, no entanto, é fundamental para o destino da eleição. “Elas podem não só levar alguém para o segundo turno, mas garantir a vitória desse candidato na disputa”, diz Fernandes. As mulheres, no entanto, não agem como um bloco e as tentativas de capturá-las feitas, sobretudo, por Marina Silva e por Geraldo Alckmin não têm se revertido em intenções de voto.

Metade do eleitorado feminino rejeita Bolsonaro

Na liderança da rejeição, o ex-capitão tem entre as mulheres seu maior desafio: se 43% dos eleitores dizem que não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum, entre as mulheres esse patamar chega a 49%.

Nenhum dos demais candidatos é tão rejeitado pelo eleitorado feminino. O cenário faz do voto em Bolsonaro, uma decisão majoritariamente masculina. Com 24% da preferência na população em geral, entre os homens Bolsonaro atinge 32%, contra 17% das mulheres.

“É uma campanha de homem pra homem. É só arma, violência, ditadura. E Bolsonaro não está muito preocupado, parece que conta com a possibilidade de os maridos influenciarem as mulheres para votarem a favor dele”, diz Almeida.

Bolsonaro consolida preferências

A primeira pesquisa após o atentado a faca contra o candidato do PSL mostrou uma oscilação positiva para o ex-capitão, dentro da margem de erro. Quando perguntados sobre sua escolha sem ver uma lista de candidatos, no entanto, o número de eleitores mencionando Bolsonaro subiu de 15% para 20%.

O crescimento de 5 pontos percentuais em respostas espontâneas significa que o deputado consolidou votos de parte de seus seguidores. Com esse patamar, ele estaria com vaga assegurada no segundo turno.

“A facada consolidou o posicionamento de quem era a favor e o de quem era contra. Aparecer no hospital fazendo sinal das armas não é algo que pegou bem para o eleitorado em geral”, opina Fernandes.

Para Almeida, Bolsonaro demonstra ser uma candidatura de minoria expressiva, mas ainda assim, de nicho. “Com empatia ou sem empatia, a agenda dele é de um candidato de extrema direita, que não é historicamente uma posição majoritária no Brasil.”

Ciro lidera no Nordeste

Ciro e Haddad devem disputar entre si as preferências na região, que concentra quase 27% dos eleitores.

A pesquisa indica que a ofensiva feita por Ciro Gomes no Nordeste vem surtindo efeito. Na região, o ex-governador do Ceará chega a 20% das intenções de voto, o melhor desempenho entre todos os candidatos.

Desde que Lula teve a candidatura impugnada pelo TSE, há 10 dias, o candidato pedetista buscou aproveitar o vácuo e concentrou suas atividades de campanha na região. Passou de 14%, em cenário sem Lula, para 20%. Os números sugerem que Ciro é hoje o principal beneficiário na região da saída de Lula do páreo. No último cenário em que o ex-presidente estava na disputa, Ciro alcançava apenas 5% das intenções de voto entre os nordestinos.

“O PT perdeu um pouco o timing, deixou Ciro solto no nordeste e ficou insistindo no Lula, mas o eleitor já sabe que ele não será candidato. Então, isso cansa um pouco o eleitor e o leva a prestar atenção em outros candidatos”, diz Hilton Fernandes, professor da Faculdade Escola de Sociologia e Política.

Ainda assim, a parada está longe da vitória para Ciro na região: 46% dos eleitores nordestinos admitem que seu voto pode mudar e 52% deles afirmam que votarão com certeza no candidato que Lula indicar. No nordeste, Haddad passou de 5% para 13% nas últimas três semanas. Ele foi confirmado na tarde desta terça-feira como o substituto de Lula.

Por outro lado, Bolsonaro é o candidato a enfrentar a maior dificuldade na região: 51% dos eleitores nordestinos dizem que não votariam de nenhuma maneira no ex-capitão.

Marina: dias piores

Se já acumulou a maior queda entre os presidenciáveis nessa nova rodada (de 16% para 11% das preferências), Marina Silva pode ainda esperar por dias piores.

Isso porque os eleitores da candidata da Rede são os que menos estão convictos de sua escolha, entre os cinco primeiros colocados na sondagem.

Nada menos que 71% dos entrevistados que disseram optar por Marina cogitam mudar de voto. No polo oposto, 74% dos eleitores de Jair Bolsonaro se dizem totalmente decididos.

“Vai ser difícil ela recuperar. Marina tinha um recall muito grande por ter participado das duas últimas eleições, mas quando colocada diante de questões controversas, ela diz que vai perguntar ao povo, o que expressa uma fraqueza e impede o eleitor de concordar ou não com ela. Além disso, construiu uma estrutura partidária muito frágil e suas aparições na TV demonstram um certo amadorismo”, diz a cientista política Maria Hermínia Almeida, da USP.

Especialistas citam como exemplo dos problemas de Marina uma das peças propagandísticas em que ela entra em cena carregando uma cadeira e sentando-se, enquanto aparece na tela da TV a seguinte frase: “Marina é corrupta?”. Ao que a candidata responde apenas “não”.

“É ridículo e não faz sentido com nada do que sabemos de comunicação com o eleitor nem com o momento”, diz Fernandes.

Quando perguntados sobre suas opções de voto útil, os eleitores de Marina migrariam para pelo menos 4 candidatos.

“Mas os maiores beneficiários tendem a ser Ciro e Haddad”, afirma Almeida.

49% dos eleitores podem votar no indicado de Lula

Com um número expressivo de eleitores dispostos a votar em um indicado pelo ex-presidente petista, era de se esperar que Haddad surgisse em patamar muito superior aos 9% de preferência que ele apresenta, o que pode acontecer caso a transferência de votos se concretize.

No entanto, o número de eleitores que já sabe que Haddad é o candidato de Lula mais do que dobrou de meados de agosto para agora, de 17% para 39%, o que sugere que o eleitor já dispõe de informações e pode ainda estar avaliando a adesão ao petista substituto.

“Existe o potencial de transferência, mas ela não é automática. Agora o eleitor sabe que tem o Haddad, mas nas pesquisas qualitativas começa a surgir o medo, do eleitor que já votou em candidato do Lula e se decepcionou. Já tem eleitor perguntando: ‘será que agora vem o Dilmo?’ Então o desafio do Haddad vai ser vencer essa desconfiança”, diz Fernandes.

*Com informações da BBC

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