Português, minha língua: a mascote da minha vida

A língua é viva e está em constante alteração. A língua é minha, falo e mostro como quiser

O mundo muda, os costumes também, mas não entendo quando dizem que um adevogado marrô uma culé numa das tauba das esquina. Esse já foi uma das discussões entre mãe e filha, ambas letradas, ambas cultas, ambas teimosas.

Entendo que é uma atualização do modo de viver, de comer, de vestir e de falar, claro. Mas não aceito que uma língua tão rica, tão cheia de verbetes, seja simplesmente largada ao deus dará, permitindo que se fale qualquer coisa, até mesmo indecifrável. Concordo que nem todos têm acesso a livros, a escolas e tal. E não vejo isso como preconceito linguístico, vejo isso como um caso de polícia. Ou de puliça.

De qualquer modo, se a língua é viva, não merece esse descaso. Quando vamos a um outro país, sofremos com as terminações, às vezes nervosas, às vezes moles, mas sofremos. Somos turistas, temos essa desculpa até esfarrapada de não sabermos falar outro idioma. Mas aqui, no nosso país, na nossa língua? Fazfavô, fio, isso não é linguagem alterada, é linguagem deturpada e preguiçosa.

Descomplicando a língua portuguesa - Colégio ICJ
Ah, Cegalla, que saudades!

Como o português se tornou brasileiro: desde que o Brasil foi ‘achado’, foi alvo de vários idiomas, entre tantos o indígena que, por não ter uma linguagem ampla, foi incorporada a essa nossa nova língua materna com nomes de plantas, da animais, de lugares e de pessoas, enriquecendo nossa cultura, ainda bebê. Esse é o conhecido multilinguismo.

Com o tempo, vossa mercê, voismecê, você, ocê, você. Alterados pela própria natureza, continua bela e impávida, mas daí a ter que entender uma frase totalmente mudada e desconstruída, pra mim é um ultraje aos meus padrões. Até acredito numa mudança, obviamente o mundo e os costumes mudaram, graças a Deus; mesmo assim, a tauba, junto com a culé, as mine cochinha; menas vezes eu vi tanta mulé se desintegrando com um pacote de bolacha cocrante. Jesus…

Levando em conta que tudo o que escrevo é merecedor de alguma pesquisa, porque pesquisas profundas não dariam tempo de ser publicadas, vi e reconheço as mudanças da nossa língua, que ela é viva e tal. Mas que não venham discutir comigo sobre suarabácti ou epêntese, paragoge, aférese, sinalefa ou afins. Se não souber o que é, titio Google te assessora, porque tudo isso aqui pra mim é grego.

Meu querido português, que deve ter sido um amigo meu de outras vidas, disse um milhão de vezes: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Ora pois, Camões!

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 4 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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