Mesmo na bolha, desejo a luz do sol

Quando ligo a televisão em busca de um bom filme, sempre espero por um milagre em assistir a belos filmes que pararam de passar nas últimas décadas

Faz tempo que sinto falta daquele filme cabeça, aquele que nos traz verdades, aquele que é história, aquele que emociona, enfim, aquele que vale a pena você ficar horas na frente da tela grande ou simplesmente em casa, comendo pipoca e relaxado em sua poltrona ou na cama. Lembro-me bem de quando não tínhamos essa tecnologia toda e ficávamos aguardando as emissoras de TVs programarem as atrações. Quantas vezes fiquei aguardando o fim da programação para enfim, saber qual o nome do filme que passaria na sessão da tarde ou mesmo no corujão.

No domingo, eu adorava ler o jornal. Primeiro lia o caderno de esportes e em seguida corria para a revista da TV. Seria um prenúncio do que eu viria a fazer quando crescesse? Talvez. Eu adorava ler a programação de filmes que passariam nos canais de televisão. Quando encontrava aqueles clássicos, ficava feliz e torcendo para que chegasse logo o dia e horário para vê-lo. O tempo passou e a forma de assistir também. Não demorou muito e o glamour que sentia e a valorização que dava na exibição a seguir sumiram. Como sumiram os grandes filmes que fizeram gerações se emocionarem e encorpar comportamento.

Hoje temos muita facilidade em assistir a filmes, ouvir músicas, ler livros, contemplar e adquirir artes. Eu particularmente adorei a nova forma. Mas com ela vem também algumas mudanças e prioridades. Não sou uma pessoa que não gosta da evolução, pelo contrário, eu curto. O problema é que não podemos simplesmente esquecer o que passou. Em todas as áreas devemos respeitar e valorizar o que já aconteceu. Até porque, muitas vezes será o caminho para a evolução. Mas eu sou um adepto da clássica história da humanidade. Desde o Gênesis até os dias de hoje, que muitos acreditam serem os últimos. Não tenho essa pretensão.

Quem nunca viveu numa bolha que atire a primeira pedra

O que quero mesmo é que os grandes filmes possam ter um espaço. Tenho minha videoteca, sim, pois apesar da enorme variedade de canais e streaming (forma de distribuição digital) que nos enchem de produções interessantes e algumas nem tanto, ainda sinto falta de algumas raridades do cinema. Posso aqui citar inúmeras, mas me permito a apenas alguns grandes filmes, como por exemplo “O menino da bolha de plástico”, estrelado por John Travolta, com direção de Randal Kleiser (1976), o mesmo diretor que mais tarde filmaria com Travolta o clássico “Grease – Nos Tempos da Brilhantina”. O filme foi baseado em história real do menino David Vetter, que viveu numa bolha por não ter seu sistema imunológico perfeito. O filme é um drama que nos dias de hoje seria melhor entendido pelo público, mas nunca mais passou em canal algum. Nem nos especializados em clássicos de Hollywood.

Outro grande clássico foi feito para a TV e foi o filme mais visto até hoje feito para TV. Trata-se de “Sunshine” de 1973. Dirigido por Joseph Sargent, e trazendo o primeiro papel de protagonista de Cristina Raines, que ficou conhecida em participações em filmes de terror. Se aposentou em 1991 e se tornou enfermeira. Nessa produção da CBS, ela interpretou Kate Hayden, uma jovem terminal de apenas 20 anos e com dois filhos. Seu marido, Sam Hayden, interpretado por Cliff De Young, sempre ao seu lado, a ajudava nos momentos finais de sua vida. Baseado em fatos reais, o filme arrancou soluções mundo afora, mas depois de 1982, nunca mais foi exibido em nenhum canal de televisão.

Ainda sobre “Luz do Sol”, sua trilha sonora ajudou com canções que emocionaram a todos. “Sunshine on my shoulders” de John Denver, foi uma das lindas canções de trilhas de todos os tempos. “My sweet lady”, outra linda canção que era uma espécie de homenagem feita de seu marido para sua amada. Por muito tempo fiquei impressionado com a história. Triste sim, mas com alma. Saudade dessas películas que jamais voltaram a serem reprisadas por aqui. E hoje, com tantos canais de entretenimento, mas sem sensibilidade de nos proporcionar a emoção necessária.

A luz do sol sobre nossos ombros e nossas lembranças

Às vezes penso se é proposital o fato das grandes produções com histórias humanizadas são propositalmente deixadas de lado. talvez nos dias atuais, chorar por uma despedida ou viver numa bolha, longe de todos para sobreviver não seja tão capaz de atrair pessoas. Citei esses dois filmes por nunca mais ter tido nenhum contato com suas emoções. E não pense que nunca os procurei em lojas de vídeos e dvds. Procurei, mas não encontrei. Cheguei a pensar em contratar um detetive particular para uma busca no mundo do entretenimento e quem sabe descobrir o paradeiro dessas fitas. Mas desisti ao primeiro sinal de que seria em vão, pois no mundo atual só se encontra o que interessa ao mundo do entretenimento.

Passado o momento de nostalgia, voltei a busca por fitas que trazem vida, que nos faz sentir parte da história. Apesar desse grande hiato, continuo acreditando que um dia ligarei a TV e me depararei com o anúncio de que esses dois grandes filmes estarão na grade de programação de algum canal. Afinal, sensibilidade é uma ferramenta do entretenimento. Outro dia falarei de outras grandes produções que não vemos mais pelas telas.

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

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