Mais democracia para o samba

Os últimos acontecimentos envolvendo as associações representativas das escolas de samba do Rio de Janeiro revelam uma crise sob diversos ângulos. Esta semana, foi a vez da Liesb – Liga das Escolas de Samba do Brasil – ser atingida pela crise. A entidade organiza os desfiles dos grupos B, C e D, na avenida Intendente Magalhães.

Oito agremiações do grupo B, descontentes, abriram uma dissidência e anunciaram a criação de uma nova entidade, a Livres – Liga Independente da Verdadeira Raiz das Escolas de Samba.

Esta crise de representatividade das três ligas – Liesa, Lierj e Liesb- é caracterizada pela desconfiança em relação aos seus diretores. As escolas descontentes alegam falta de transparência nas ações, a não prestação de contas financeiras e principalmente a manipulação no julgamento dos desfiles.

Mas um aspecto que fica claro é a intempestividade dessas dissidências. Por que não se tentar um acordo interno, antes de simplesmente se romper os laços? Será que não há possibilidade de entendimentos antes de atitudes tão radicais?

Parece que está faltando capacidade política nos dirigentes das escolas de samba. Política como arte do diálogo que constrói o consenso. Foi assim nas recentes decisões da Liesa, que anulou o descenso da Imperatriz Leopoldinense, que resultou na intervenção do Ministério Público. Antes, a Lierj, logo após o Carnaval, passou por brigas internas, que redundou na renúncia do presidente e o estabelecimento de uma nova direção.

O que transparece em todos esses fatos é a falta de crença em regras de convívio democrático. Qualquer desavença é motivo de questionamento da legitimidade das direções. Mas os dirigentes são eleitos pelas próprias agremiações para um mandato com tempo estipulado nas regras estatutárias dessas entidades.

A democracia exige também respeito às regras estabelecidas por acordo e consenso. Antes de se romper as regras devem-se esgotar todos as formas de diálogo.

O pior que isto acontece justamente no momento em que se exige unidade de todo o mundo do samba. No momento em que a gestão da prefeitura não tem simpatia com as escolas de samba e questiona a necessidade de alocar recursos públicos no Carnaval.

Sem entrar no mérito das atitudes certas ou erradas dos homens que dirigem as ligas, seria necessário uma união de todas as agremiações de samba para enfrentar esta conjuntura. Mas os dirigentes não se entendem entre eles e esta divisão só tende a dificultar cada vez mais as coisas.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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