Livros ilustrados e histórias em quadrinhos; Saiba mais sobre esse universo

Desenhistas procuram furar as barreiras impostas pela falta de apoio e preconceito no país para mostrar seus trabalhos ao redor do Brasil

Print page

No Brasil, os desenhistas possuem uma reclamação comum, o pouco apoio, além do preconceito em geral. Seja em relação à produções animadas, apesar da Anima Mundi, como em relação aos artistas ilustradores e de quadrinhos, ou HQs, que são ainda mais discriminados. Mesmo que o país tenha talentos na área, alguns só são reconhecidos quando vão para o estrangeiro. Como foi o caso de Carlos Saldanha, especializado em animação digital, que se destacou em produções como ‘A Era do Gelo’.

Editoras como a Giz Editorial, que investem no talento e aposta em divulgação são raras. No entanto, o fruto do trabalho, como o feito junto as publicações da autora e também ilustradora Giulia Moon, da série Kaori, compensa. Conhecida por sua sensual série vampiresca, a autora publicou a primeira história solo da personagem, que para diferenciar dos outros livros, foi ilustrada como light novel.

Criando para o próprio livro ilustrações, o que já tinha feito para produzir um book trailer da série de livros, Giulia Moon busca um diferencial para a publicação, que mesmo que seja sobre Kaori, tem uma história com foco no público jovem adulto, diferente de seus outros livros de conteúdo mais adulto e erótico.

No entanto, focar a história no público de jovens adultos, usando as ilustrações para diferenciar as publicações, não torna o livro próprio para crianças. Só que a cultura brasileira tem os livros ilustrados, com capas desenhadas, ou que sejam em forma de quadrinhos, geralmente associados a “coisa de criança” e isso muitas vezes cria problemas desnecessários.

Não a censura e aos lacres, sim a informação e organização

A autora Luciane Rangel, que teve seus personagens ilustrados por Ana Cláudia Coelho, acredita que seja a falta de informação que gera a ideia equivocada de associar desenhos ao público infantil. Tanto no caso de publicações, como no caso de animações para o público adulto.

Destacando como exemplo a consagrada série ‘Os Simpsons’, a autora fala sobre a animação ter feito parte da programação infantil de uma emissora e só atualmente, em outra, que é exibida no horário correto ao seu público-alvo.

Luciane Rangel até comenta a questão de nenhum responsável pela programação infantil, ter a curiosidade de assistir o programa para verificar que não era desenho para criança. Além dela critica a posição de algumas emissoras, quanto a censurar vários desenhos japoneses com foco no público adulto, cortando as cenas mais violentas e diálogos considerados impróprios, só para exibi-los para o público errado.

Vivianne Fair, autora e também ilustradora dos próprios livros, acha que a livraria nem se dá ao trabalho de avaliar o livro e julga pela capa ou pelas ilustrações.

A autora comenta que teve que pedir que seus livros fossem retirados de junto dos infantis. “Acredito que seja apenas ignorância ou para não dar muito trabalho,” diz. Imaginando que talvez a própria livraria não saibe lidar com os nacionais, já que ‘A Caçadora – Sorriso de Vampiro’ foi visto pela autora junto dos infantis e entre os de conteúdo adulto, porque era nacional, quando o público-alvo do livro são os jovens adultos.

Enquanto Vivianne Fair alerta sobre a separação dos livros entre nacionais e estrangeiros, que está gerando certo preconceito quanto ao tipo de publicação, Joe de Lima, roteirista e contista, adverte que não é apropriado juntar no mesmo espaço HQs como a Turma da Mônica, Naruto, Batman e publicações em quadrinhos com foco no público adulto em geral.

O autor até comenta que certa vez encontrou mangás (HQs japoneses), famosas entre o público adulto, junto dos mangás para o público de menor. “Alertei uma das funcionárias, que imediatamente levou os exemplares para a seção adulta”, comenta Joe de Lima.

O alerta de Joe de Lima mostra que é fundamental que funcionário de livraria conheça o material com o qual trabalha, porque sem saber do que se trata o livro acaba partindo para associações na hora de colocar na prateleira. Assim, um livro com vampiros vai parar ao lado de ‘Crepúsculo’, mesmo que não seja para o mesmo público.

Karlo Campos, romancista e contista de histórias vampirescas, é o criador das HQs ‘Vida de Leiturista’, que em 2013 faz 10 anos, também destaca a falta de mais informações. “Deve ocorrer maior cuidado quanto a isso, pois um material inadequado para um público mais jovem pode gerar descontentamento nos pais que acabam descontando no autor, como se ele fosse o errado de utilizar desenhos e quadrinhos em um material para um público mais velho”, comenta.

A arquiteta e ilustradora, Ana Cláudia Coelho, que ilustra todos os livros de ‘Guardians’ da autora Luciane Rangel, comenta sobre a falta de visão quanto ao potencial das obras do tipo, por parte das editoras brasileiras, que não conseguem ter uma visão rentável dos HQs entre os adultos.

“Não duvido que haja trabalhos de qualidade para o público adulto no Brasil, nem que haja interesse dos leitores,” afirma Ana Cláudia Coelho. Destacando o grande consumo de publicações estrangeiras, como HQs Marvel e os que inspiraram a produção da série ‘The Walking Dead’.

A desenhista fala que há livrarias mais especializadas que classificam os livros por idade, mas é uma exceção, não uma regra. Assim como Vivianne Fair, Ana Cláudia Coelho, sugere que seria muito útil se fosse incluído informações nas capas dos livros, especificando o conteúdo, como já existe, por exemplo, em DVDs.

Luciane Rangel afirma que é preconceito se basear em uma ideia geral equivocada. Destacando o fato de mangás com conteúdo adulto, violento ou erótico precisam ser lacrados, pois são postos a venda nas bancas ao lado de revistas como as da ‘Turma da Mônica’.

Karlo Campos também não aprova a censura e lacres. Ele pensa que uma parceria e apoio as publicações nacionais, com maiores informações sobre seu conteúdo, é fundamental para preservar a liberdade de criação dos autores e os jovens brasileiros. “Para que não comecem a levantar a bandeira sobre ser ou não ser inapropriado o uso de desenhos para temas adultos, o que será um absurdo,” comenta Karlo Campos.

Já Joe de Lima não crê em preconceito contra o trabalho dos artistas, pois a maioria da população conhece os HQs ainda na infância e quando chegam a pré-adolescência, os pais deixam de estimular a sua leitura e muitos abandonam o hábito. “Imagino que ainda seja algo cultural. Não está claro na mente de todos que os desenhos podem tem teor mais adulto.”

Luciane Rangel informa que ao publicar ‘Guardians’ teve a ideia de incluir na contracapa dos livros da série a informação da classificação etária, para garantir que a publicação não fosse parar entre os infantis, por causa das capas desenhadas por Ana Cláudia Coelho.

No entanto, a autora revela que mesmo assim seus livros ainda são colocados na categoria infantil, ao ponto de recebe emails de professores de escolas do ensino fundamental, pedindo doação de exemplares para as suas bibliotecas, que ao serem negadas, alguns ainda insistem dizendo: “mas eu vi a capa!”

Joe de Lima fala que é difícil imaginar um futuro de mudança cultural, que permita a valorização dos livros ilustrados e HQs, como uma boa leitura para adolescentes e adultos. “Um bom começo seriam campanhas direcionadas para o público que se espera atingir, usando linguagens e formatos adequados às expectativas dos leitores em potencial,” sugere o autor. “Melhor organização nas livrarias, com as editoras informando de um modo melhor qual é a faixa etária”, completa.

Tanto Joe de Lima, como todos os entrevistados, acredita que são os pequenos esforços que não só farão as livrarias mostrarem mais respeito com os artistas mas também ajudariam até nas vendas, já que o livro seria encontrado pelo público-alvo com maior facilidade. Sem precisar agredir o direito de liberdade de ninguém.

 

Por

Comentários estão fechados.