Livros de receita: mascotes de toda a família

Família sem receitas favoritas e livros de receitas secretos não tem histórias para deixar

Não sou uma chocólatra, porque quem se vicia numa delícia acaba perdendo o senso e o gosto de cada ingrediente. No caso, o cacau. Amargo e forte, como deve ser. Fui uma cobaia dos ‘sanguinaccios’ de meu pai, quando minha mãe autorizava sua ida à cozinha para fazer umas coisas moles, estranhas, de chocolate.

Eu, caçula, esganada, gordinha e louca para comer fora de hora, acabei me dando conta de que os doces de chocolate amargo são o ápice da sobremesa e de quão nobres são os seus sabores. Ficava beirando o fogão ao lado do meu pai, que testava tudo quanto era sabor. E dava pra mascote-caçula-cobaia dele experimentar: eu.

Sanguinaccio – Foto de Grazie Napoli, Santo André - Tripadvisor
Grazie, babbo!

A partir dali, percebi que chocolate é como um beijo de amor: único e em seu sabor e inesquecível em sua memória. E che bella gororoba era quello. Amor de pai não se mede, se experimenta. E deixa na história da familia.

É bom lembrar que meu pai era italiano. Napolitano, para ser mais exata. Entre as delícias sem livro de receitas, tenho um cardápio de memórias igualmente deliciosas: pasta e coccozza, zuppa di pane, spaghetti alle vongole e pastiera.

Sanguinaccio é um pudim feito a partir do sangue de porco, cremoso e adoçado com ingredientes, tais como chocolate, leite, pinhões, passas e açúcar. É um doce tipicamente italiano, principalmente das regiões da Calabria, Campania e Nápoles. Em Nápoles, é tradicionalmente preparado para o Carnaval, antes da Quaresma e tem um significado religioso muito forte. Mas como tudo o que é italiano é motivo para comidas deliciosas, não podia deixar a minha memória italiana ficar relegada a um segundo plano. E é bom não esquecer que chouriço também tem sangue do porco e ninguém critica. Muito.

Antes que uma leva ache que o sangue era de porco mesmo, acredito que não. Se foi, eram outros tempos, outra cultura, outra vara (para quem não se lembra, vara = coletivo de porcos). E eu era uma criança; coisas do século passado. Ok, pode ter sido sangue de boi, va bene.

Essa iguaria tem como principal base um creme de chocolate meio amargo derretido. Porém, em algumas aldeias italianas, esse creme de chocolate era misturado com sangue de porco recém abatido. Hoje, quase não há mais a utilização desse ingrediente na receita, principalmente, por causa da proibição da comercialização do sangue suíno. Graças a deus. Mas o nome ficou e é assim que ficará sempre conhecido.

Toda família tem os cadernos de receitas que as mães, avós, tias ou antepassadas guardaram para que as mais novas “calouras de cozinha” tivessem o álibi de não ter copiado a receita como se deve. Minha avó Ida, a Bida para nós de casa, guardava receitas, escritas à mão e de revistas, dentro das gavetas do bufê de madeira da casa dela. Quando ela abria, vinha um perfume de uma mistura de madeira doce com a farinha respingada nos papéis. Eu sonhava com aquelas delícias que ela faria num dia especial. Italianos são assim, pra cada momento, uma comida diferente. E deliciosa, sempre.

A minha mãe era mais eclética, comidas igualmente deliciosas, mas não vinham do bufê da Bida, tinham um perfume diferente, talvez por ter um contato mais direto e constante, que deixaram a saudade respingar aqui nos meus olhos, além de me levar até a feira da rua, todas as quintas, quando matava aula, ou nas férias. Pastel…

Tinha também as notas da tia Eglantina, que eram bem organizadas, já que ela trabalhava fora e não tinha tempo de cozinhar. Essas eram extremas e de todos os lugares do mundo, sem perfume e sem lembranças. Um livro aberto para sua imaginação ferver e transbordar.

O original, cheio de história e de farinha

Dia desses, minha filha encontrou uma das minhas pérolas embalsamada numa folha de papel, cheia de mordidas de traça. Elas leram e comeram por pura gulodice, afinal, na folha tinha o título “creme de milho e algo mais”. Estava com a minha letra pré-teclado, ou seja, legível e dizia assim: molho branco, moer ½ lata de milho no mix, lavar o mix, colocar todo o milho (o moído e o inteiro) no molho branco e deixar ferver (12 bolhas, mais ou menos), despejar o creme de leite (com o soro mesmo) na gororoba melequenta [aqui começa a impaciência da mocidade] e ferver mais 13 bolhas e meia [importantíssima essa meia bolha]. Ao final, juntar ½ cérebro de lagartixa.

Tenho certeza absoluta de que escrevi isso para minha mãe; nessa época a gente trocava algumas receitas, ela sabia TODAS, mas se regalava (ela adorava falar essa palavra) ao ler minhas ideias temperadas.

Um dia, como sempre acontece, a panela queimou, o creme talhou, a chuva lavou, a bolha na mão ardeu. Mas a vida não desandou.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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