Liberdade era uma calça velha azul e desbotada

Um jingle antigo, cringe total. Quem nunca teve uma peça dessas não sabe o que é felicidade

Eu tenho uma mania: a de eleger uma peça de roupa como a mais confortável, a mais linda, a mais mais de todas. Claro, ela só é superada por outra mais-mais-mais. Minha roupa mascote. E assim a vida segue. Calças rasgadas, não esfarrapadas, mas rasgadas, gastas pelo uso têm um histórico de vida, um currículo invejável.

Essas são as minhas preferidas. Já tive uma infinidade de blusas também, gastas pelo tempo ou por arranhadas de gato, ou arames farpados, ou mordidas de cachorro. Mas nunca queimadas por cigarro, essas não são roupas amigas. Essas a gente joga fora, viram pano de chão. São destituídas do cargo de preferidinhas. A minha mania virou moda, imagine, uma calça rasgada, puída, custar os olhos da cara, ser de marca?

E aí aparece um novo dado, uma nova designação pra quem já passou por épocas, eras, manias, memes, micos, boko-mokos e afins. Ih, já passei por tantas, minha filha, que nem sei mais onde me encaixo. A minha época foi assim: desgastou, perdeu o vinco.

Na minha época, a gente levantava quando o professor entrava na sala, não falava “pô”, nem “saco”, talvez um “putzgrila”, que era, sim, ridículo, assim como quase tudo naquela época, a minha. Isso vai ser “cringe” quando? Quando aparecer uma nova denominação para o indenominável: a falta de educação e respeito. A intolerância é tamanha que não sabemos mais como cumprimentar alguém, se é preciso cumprimentar, se pode abraçar ou dar um beijinho. Não, isso não pode.

Com a pandemia, nada mais pode. Na minha época (olha só!), dar um beijinho, ou cumprimentar com um aperto de mãos dava, no máximo, sapinho ou olho de peixe. Álcool em gel não existia e vacina não era pra ser exibida como um prêmio. Você ia lá no posto, sem hora marcada, não escolhia porcaria nenhuma, dava o braço e pronto! Doía, inflamava, infeccionava, você xingava até a última geração das mães da enfermeira, assoprava e chega. Passou.

A cicatriz está lá no seu braço, você não pegou nenhuma doença e ninguém fez alarde ou selfie. E continuamos a viver, cada um com seu germe ou psicose de virose preferida. E aí em o povo nada cringe dizer que pagamos mico com nossas histórias antigas, demodês, véias, emboloradas. Não são como as minhas roupas eleitas e preferidas. Ideias não emboloram, ideias são marcadas, imitadas, reconstruídas. A idade chega, as ideias também. O que esgarça são ideias vencidas, ultrapassadas, essas sim cringes. As minhas calças não, nunca, tá ok?

Quem não teve uma fase dessas não viveu nada ainda

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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