Lembrança de um pretérito imperfeito

Hoje eu acordei e pensei: é impressão minha ou estamos voltando ao passado como em “De volta ao futuro”? E comecei a fazer a cronologia de meus pensamentos e não é que estava certo?

Comecei pelo café da manhã, coloquei minha caneca na mesa e a enchi com leite e 3 colheres de toddy, o sabor que alimenta. Depois peguei uma bisnaga e passei manteiga e um pedaço de queijo catupiry, aquele da embalagem em madeira fina e redonda.

Tomava meu café enquanto lia algumas matérias na internet e percebia que estão sugerindo a volta do Hino Nacional nas escolas e a mesma matéria ainda falava em voltarem também as aulas de matemática e português (graças a Deus, pois já não aguento mais tantos erros diariamente) e educação moral e cívica (sou jornalista e a favor da liberdade de expressão e ter tido aulas de moral e cívica e organização social e política do Brasil – ospb – não fizeram de mim um conservador) nas escolas.

Saindo do café e passando para o quarto para me arrumar para trabalhar ainda com as coisas que li durante o café na cabeça. Será que estamos voltando ao passado? E para um passado que muitos o tem como “anos de chumbo”? Eu durante os anos 70 era um garoto que já amava os Beatles e os Rolling Stones, mas não entendia nada de politica, ainda bem.

Minha família costuma dizer que se eu tivesse mais idade nessa época temiam por minha integridade física e até mesmo minha vida. Isso porque eu sempre fui uma pessoa que ama a liberdade e a democracia e nessa época vivíamos um período conturbado que só mais tarde entendi o real sentido de conturbado.

Mas, voltando aos meus pensamentos que me levaram a esses anos “conturbados”, me lembrei que a onda retrô e vintage estão aí e muita gente aderiu à moda. Eu mesmo me simpatizo bastante. Ainda tenho disco de vinil e toca discos. Gosto de filmes antigos e séries e desenhos que não passam mais nas TVs. Será que isso é uma síndrome da volta ao passado e que quando acordei hoje estava tendo espasmos de uma década psicodélica? Pode ser, mas pra mim está sendo uma experiência única e valorosa.

Meus amigos dizem que eu tenho uma cabeça bacana, jovem, pra frente, mas ao mesmo tempo dizem que meu gosto é antigo e ultrapassado, será mesmo? Estou em dúvida. Gosto das músicas dos anos 60,70 e 80. A partir dos anos 90 foram ficando mais escassas as músicas de uma forma geral. Por isso me identifico com as mais antigas. Acho que não vou levar em consideração esse item.

Na TV vejo que algumas novelas e séries resgatam músicas antigas em suas trilhas, será que sou eu apenas que percebi a tragédia musical que nos assola? Acho que não. Ainda bem, já estava ficando preocupado. Algumas releituras de peças e trabalhos artísticos estão tendo boa aceitação junto ao público em geral.

Bem, saindo de casa andando na rua me vejo de cara com um anúncio que na mesma hora me remeteu aos anos 80. Nessa hora me deu vontade de chorar e eu não sei se de alegria ou de saudade. Me veio na mente um cara que um dia saiu de casa para uma festa vestindo uma camisa da Company com uma calça risca de giz e uma pochete na cintura e, claro, não esquecendo do relógio Champion de pulseira colorida.

Caramba! Esse cara sou eu! Lágrimas desceram instantaneamente de meus olhos já marejados pelas lembranças que teimavam em me acompanhar naquele dia. Cheguei no trabalho e me dei de cara com um colega dizendo para outro que seu primo estava vendendo um aparelho de fax. Eu me perguntei baixinho, quem, nos dias de hoje, compraria um aparelho de fax (eu já tive e não demorou muito para me desfazer)?

Que dia! Naquele momento percebi que o dia seria de pura emoção. Sentei em minha mesa e continuei a fazer de minha mente um computador que só abria pastas com arquivos vencidos. Lembrei-me de minha vó e a primeira vez em que ela me levou à escola. Nesse dia ela acabou levando um tombo e eu pequenino não consegui levantá-la, mas logo apareceu um homem e ajudou-nos. Saudades de minha vozinha. Tive muito pouco tempo de convivência, apenas 7 anos. Saudades dela, mas outra hora conto aqui algumas passagens bem interessantes com ela.

No fim da tarde eu, já embriagado de lembranças e voltando para casa, me deparo com um amigo que me convida para um baile de flash back no Catete, sem aproveitar o momento para fazer um trocadilho (mas que dá vontade dá) que vão rolar músicas dos anos 60,70 e 80. Nesse momento não tive mais dúvidas de que estamos realmente voltando ao passado.

Mas, sabe de uma coisa? Eu estou gostando dessa mistura de costumes. O que precisamos de verdade é da mistura, em qualquer nível. O que nos difere dos outros é a capacidade de absorvermos tudo. Que esse dia que tive se repita outras vezes e que eu possa resgatar sentimentos e memórias guardadas de uma época que não volta mais, mas que pode viver no futuro para nos mostrar como já fomos leves, sensíveis e felizes.

Por

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

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