Lei da mordaça não é para cachorros

Como uma cidade extrapola o bom senso e decide que cães não podem mais latir

Eu tenho alguns problemas em meu bairro e em minha cidade: bailes funk, gente mal educada e grosseira, sujeira, roubos. Isso deve ser multado com rigor, mantendo a cidade organizada e em paz. Aí vejo a notícia de que, em 17 de agosto, Penha, uma cidade em SC, aprovara uma lei proibindo os cachorros de latirem. Alguém sabe onde isso pode parar?

Essa coisa foi apresentada pelo vereador Everaldo Dal Posso (PL) e recebeu parecer favorável da procuradoria. A mesma lei de “abuso de instrumentos sonoros ou sinais acústicos”, seria usada também para latidos, com uma multa de R$ 23 mil; o equivalente a um ano de ração jogado no lixo, assim como os votos ali depositados.

Diante de tal bizarrice, para não dizer cretinice ou algum adjetivo que o valha, o projeto seguiu para sanção do prefeito que, obviamente vetou essa imbecilidade e tirou o seu da reta. Mas foi só porque o Legislativo não pode ter essa iniciativa. Ou seja, nem leu do que se tratava, só vetou porque já vinha com “vícios de origem”. Sei.

Vício, para mim, é o que os nossos representantes fazem na miúda, sem se dar conta de que animais não falam, mas também não tocam som alto, nem se drogam na rua, nem roubam. Nem votam.

Lei da mordaça também para cachorros?

Dal Posso não poderia ter feito tal coisa, afinal, como ele mesmo disse, “Minha intenção era proibir fogos de artifício, para assegurar o bem-estar de idosos, autistas e animais, que sofrem com os barulhos”.
“A intenção jamais seria de prejudicar alguém. E principalmente de prejudicar os cães, porque eu sou um defensor dos animais”, se defendeu. Disse ele que tudo foi um erro dos assessores jurídicos, ao redigirem o texto. E que falta faz uma boa leitura, não?

Pondo panos quentes nessa balbúrdia, a prefeitura de Penha se explicou, dizendo que não tem nada a ver com isso, e que o vereador deve estar arrependido e vai votar contra o próprio projeto. O de sempre, ninguém fez, ninguém viu.

Imagine o meu Barbosa, barulhento que é, diante da Câmara de São Paulo sem poder latir? Provavelmente o Viaduto Jacareí, sede da Câmara Municipal, ficaria todo ensopado, e não ia ser de água.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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