John Cazale: o ator que apareceu em apenas cinco filmes, todos indicados ao Oscar

Cazale foi imortalizado como Fredo, é claro. E essa é uma lembrança mais do que justa para sua lápide cinematográfica

Cazale era um descendente de irlandeses e italianos, nascido em Massachusetts que aspirava ser ator desde jovem. Embora ele buscasse uma carreira na indústria do cinema, empregos de ator eram um tanto difícil de conseguir, mesmo para alguém com graduação pela Universidade de Boston. 

Diante disso, para ganhar a vida ele trabalhava como motorista de táxi e mensageiro para uma empresa de petróleo. Para a sorte dele, outro entusiasta da atuação também estava trabalhando na Standard Oil, procurando ganhar dinheiro lá até sua grande chance. O homem que conheceu era um siciliano nascido no Harlem chamado Alfredo James Pacino, que ficou impressionado com a forma como aquele sujeito quieto, mas agradável, de aparência um tanto estranha, tinha uma visão fascinante e profunda da vida.

Nessa perspectiva, John Cazale começou tarde no cinema. Ele foi noticiado pela primeira vez no palco em Boston aos 24 anos em 1959, enquanto atuava nas peças “Our Town” e “Hotel Paradiso”. Mais tarde, ele se mudou para Nova York e, na década seguinte, apareceu em muitos palcos de teatro, enquanto continuava trabalhando como taxista e fotógrafo para se manter.

Ele e Al Pacino se tornaram amigos rapidamente, atuaram juntos nos palcos várias vezes. No teatro, a dupla conquistou o Obie Awards de melhor ator (Pacino) e melhor ator coadjuvante (Cazale), pela peça “The Indian Want The Bronx” (1968), do dramaturgo inglês Israel Horovitz (1939-2020). Mesmo assim, seriam necessários mais quatro anos para que Cazale fizesse sua estreia no cinema. Novamente, trabalhando com Pacino. Desta vez, interpretando seu irmão na tela, Fredo, em “O Poderoso Chefão” (1972), de Francis Ford Coppola, na época Cazale tinha 36 anos.

Em sua breve e elogiável carreira, Cazale apareceu em “The Conversation” (1974) e em “O Poderoso Chefão parte II” (1975), ambos de Ford Coppola e, em outros dois filmes notáveis: “Um Dia de Cão” (1975), de Sidney Lumet (1924-2011) e “O Franco Atirador” (1978), de Michael Cimino (1939-2016).

Depois de se apresentar na Broadway pela primeira vez como protagonista na peça “Agamemnon” (1977), ele adoeceu após apenas uma apresentação. Após o acontecimento, Cazale foi diagnosticado com câncer de pulmão. Apesar do tratamento agressivo, seu câncer metastatizou rapidamente.

O fato fez o diretor Michael Cimino reorganizar o cronograma de filmagens de “O Franco Atirador”, para que Cazale e sua companheira Meryl Streep pudessem filmar as cenas primeiro. Embora terrivelmente fraco durante o período de filmagens, ele conseguiu fechar todas as suas cenas no longa. Infelizmente, o jovem ator não chegou a ver seu filme ganhar as telas dos cinemas, tão pouco, ganhar o Oscar de Melhor Filme em 1979 – Cazale faleceu durante as filmagens.

John Cazale morreu na manhã de 12 de março de 1978, com Streep ao lado de sua cama. Ele tinha apenas 42 anos. Ele deixou um total de cinco filmes. Mas, que coisa, que cinco. Todos eles foram indicados ao prêmio de melhor filme. Três deles ganharam o prêmio. Todos eles são clássicos – é quase impossível imaginar qualquer um deles sem a energia particular de Cazale. 

Cazale foi imortalizado como Fredo, é claro. E essa é uma lembrança mais do que justa para sua lápide cinematográfica. É o seu topo da montanha no cinema. Para muitas pessoas, a discussão sobre o melhor filme já feito se resume a “O Poderoso Chefão parte II”Pacino, Caan e Brando eram icônicos. Mas Cazale também. É a traição dele a Michael que parte seu coração e a alma de Pacino. É uma coisa corajosa render-se a um papel como Fredo da maneira que Cazale fez. Para realmente permitir que seu personagem seja patético. Quando Fredo grita “Eu sou inteligente!”, Ele não está se defendendo tanto quanto está implorando para que alguém, qualquer um, acredite nele. Incluindo ele mesmo.

Ainda assim, foi em “Um Dia de Cão”, de Sidney Lumet que sinto que ele fez seu melhor trabalho. Era a parte menos parecida com as outras que ele havia desempenhado. Seu Sal estava oco por dentro. Quase um zumbi. Cazale era um homem magro e esguio, mas neste clássico da cidade de Nova York, ele era genuinamente assustador. 

Cazale e Al Pacino em “Um Dia de Cão”

Tão elétrico quanto Pacino era quanto Sonny, Cazale jogou todo o caminho para o lado oposto. Quieto, de poucas palavras. Em outro filme, ele teria sido um grande assassino em série. Mas, como Lumet e Cazale não eram do tipo que se contentavam com algo tão simples e fácil como o tropo da aberração desequilibrada que explode um assalto, você podia sentir algo muito mais profundo dentro de Sal. O papel era tudo menos uma nota, apesar de quão controlado era. Cazale faz a gente se perguntar: O que aconteceu com este homem? O que o tornou assim?.

Conforme o filme avança, misteriosamente, até mesmo magicamente, você desenvolve uma simpatia por Sal. Sua fidelidade por Sonny vem claramente de um lugar de grande afeto. E à medida que a situação dentro do banco se torna cada vez mais impossível, o desespero e o medo de Sal começam a vazar. No final do filme, senti como se estivesse olhando para um garotinho assustado. O minimalismo de Cazale resultou em um efeito maximalista. A coisa toda acontece bem diante de seus olhos e, no entanto, você não consegue realmente ver. Você só pode sentir isso.

Cazale foi indicado apenas uma vez para um prêmio importante de atuação por seu trabalho no cinema, um Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante por “Um Dia de Cão”. De alguma forma, ele perdeu para Richard Benjamin por sua atuação em “Um Dupla Desajustada” (1975), de Herbet Ross. Não tenho nenhuma resposta para sua falta de reconhecimento por “Um Dia de Cão”.

Acho que não importa tanto. O que é mais preocupante é quão pouco trabalho – em termos de quantidade, há para se lembrar dele. Cinco filmes. É isso. A boa notícia é que ele fez cada um deles valer a pena. Gostaria que John Cazale tivesse vivido o suficiente para fazer um filme ruim. Não apenas para o seu próprio bem, ou de Meryl, mas também para o nosso. Porque, embora ele tivesse estado conosco por mais alguns anos, ele certamente teria cometido um erro – a lei das probabilidades acabaria por prevalecer – nós também teríamos conseguido mais. Mais Sals. Mais Fredos. Mais John.

Em vez disso, o que temos é perfeição em pequena escala. Cinco vezes. Cinco vezes por cima da cerca. Nunca haverá outro currículo como esse.

Cazale e Meryl Streep

É importante notar que John Cazale era um cara engraçado. Tenho certeza de que isso o reteve no filme. Ele estava magro como um varapau. Sua testa parecia mais um cinco, talvez um seis, sua voz estava meio alta, seus olhos eram fundos e errados ao mesmo tempo. Ele não era um galã, eu imagino que alguém possa se perguntar como Meryl Streep, em plena floração de sua juventude e beleza, poderia ter sido não apenas atraída, mas devotada, a um personagem de aparência tão estranha. Minha teoria sempre foi a de que ela poderia ter escolhido quem quisesse. Mas sendo Meryl Streep, ela olhou ao redor da sala e tentou encontrar o único homem cujos dons combinavam com os dela. E lá estava John Cazale.

“Ele não era como ninguém que eu já conheci. Era a especificidade dele, e seu tipo de humanidade e sua curiosidade sobre as pessoas, sua compaixão”, disse Meryl sobre John, quando ela foi questionada sobre seu primeiro amor e o que ela pensava sobre o ator a quem ela se dedicou.

Viva John, ou melhor, John vive em nós.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

Colunista e comentarista de cinema de alguns veículos de imprensa, atua em dois jornais e em um portal. Paralelamente, é editor da página Cinema e Geografia e colaborador de um site de notícias de Maceió. Atualmente integra o quadro de associados correspondentes da União Brasileira de Profissionais de Imprensa (UBRAPI).

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