João-de-barro e Joana Porcelana, arquitetos

Como uma história de ciúmes, força e amor constroem uma lenda

Diz a lenda que “em uma tribo do sul do Brasil, o jovem Jaebé se apaixonou por uma moça de grande beleza e foi pedi-la em casamento. O pai dela perguntou quais provas de força Jaebé poderia dar para se casar com a moça mais bela da tribo. O jovem rapidamente respondeu: as provas do meu amor!

O pai da moça gostou da resposta, mas achou o jovem atrevido. O velho contou que o último pretendente prometeu ficar cinco dias em jejum, porém morreu no quarto dia. Jaebé desafiou: ficarei nove dias em jejum e não morrerei. Toda tribo ficou admirada com a coragem do jovem. Para iniciar a prova, Jaebé foi enrolado em um pesado couro de anta e ficou dia e noite sob vigilância para que não fosse alimentado. A moça chorava e implorava à deusa Lua que o mantivesse vivo. O tempo passou e em uma manhã a filha pediu ao pai: já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer. Mas o pai relutou: ele é arrogante, falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.

Na última noite da prova, o pai da moça ordenou: vamos ver o que resta do arrogante Jaebé. Quando abriram o couro, o jovem saltou ligeiro. Seus olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Ninguém acreditou quando, ao ver sua amada, o jovem se pôs a cantar como um pássaro enquanto se transformava, aos poucos, em uma pequenina ave. E naquele momento a moça, tocada pelos raios do luar, também se transformou em pássaro. Ambos voaram e desapareceram pela floresta.”
Fonte:Câmara dos Deputados

Recebi um vídeo, outro dia, o qual tinha um Sr. Paulo Alguma Coisa (nome incompreensível), provavelmente gaúcho pelo sotaque, que mostrava um joão-de-barro vindo ao seu encontro, sentava-se no colo dele e recebia comidinha e carinho, até se fartar. Depois disso, sem a menor cerimônia, ia embora, mas pra perto, porque tinha seu filhotinho rodeando e o joãozinho – Nenê, para os amigos – não queria que ele se acostumasse com aquela vida boa, tão sua, há mais de seis anos.

O Sr. Paulo se ausentou por esse tempo todo porque esteve doente, mas Nenê nunca o esqueceu. Agora, melhor, o Sr. Paulo pôde voltar ao seu hábito de esperar por Nenê para suas conversas corriqueiras.

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Dito isso, e confirmada a amizade deles, penso que essa história de joão-de-barro fechar o ninho, caso suspeitasse de traição da sua mulher, aqui batizada de Joana Porcelana (licença poética) é papinho machista século XIV. E qual o sentido dessa provável sentença? Uma suposta desconfiança? Isso não tem o menor senso, afinal, eles construíram juntos sua casinha, fizeram tijolinhos, amassaram juntos o piso, as paredes e o teto, escolheram a textura da parede e o lugar onde seria o ninho.

Duvido que uma fêmea, tagarela que é (somos), se sujeitasse a isso complacentemente e não espalharia tudo pelos quatro céus do mundo. Logo agora, que dizem tanto do empoderamento feminino, de igualdade de gênero, LGBTQIA+, não combina. Aprisionar uma ave também não.

Alto e forte, como uma gargalhada, a vocalização do joão-de-barro tem sequência rítmica prolongada como uma canção festiva, crescente e decrescente, e é cantada pelo casal nas horas mais quentes e claras do dia. Isso é amor ou o quê?

O Sr. Paulo deixa também a mesma lição no cuidado com as aves: não precisam de gaiola, elas ficam soltas e, com um pequeno agradinho, porque ele pede, o Nenê está sempre ali ao lado dele.

Agora Joana Porcelana fica só esperando a hora do Nenê voltar pra casa para, juntos, fazerem mais uma sala, cozinha, quarto, cantando. Quintal não pode. Janela? Nem pensar, vai que rola um ciúme…

Por

Jornalista, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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