Já dizia o profeta…

Levantava cedo para ir à escola, pegava o ônibus, no meio do caminho lá estava ele, com sua bata branca lembrando os profetas. Barba branca com sinais de sabedoria, além de sua tabuleta e as rosas que distribuía para as pessoas que por ele cruzavam. Eu conheci Gentileza.

Ainda seguindo as lembranças de um Rio melhor e de suas verdadeiras personalidades, hoje venho aqui falar da figura mais emblemática que eu tive o prazer de conhecer e que hoje, depois de décadas consigo entender um pouco do que ele quis nos mostrar, estou me referindo ao “Profeta Gentileza”. Uma figura humana capaz de quase 30 anos após sua morte, emocionar as pessoas que lembram de seu legado.

Natural de Cafelândia, interior de São Paulo, era mais carioca que muitos que por exemplo, sentaram na cadeira da prefeitura da cidade. Isso mesmo, pois para ser um líder é necessário ser respeitado e ter algo por que lutar. E isso o nosso Profeta tinha, amor, gentileza, paz, ser feliz! Tudo isso ele nos mostrava em suas aparições e mensagens. Figura que trazia paz e emoção a quem cruzasse seu caminho. Uma inspiração de perseverança e fé. Uma palavra amiga nas horas mais inimigas. Esse era “Gentileza. Nascido José Datrino, em 1917, desde pequeno tinha pensamentos em mudar o mundo com suas palavras. Homem que teve posses e família e que em determinado momento de sua vida, abriu mão de tudo para viver pregando para a humanidade.

Costumo dizer que poucas pessoas são a marca do Rio de Janeiro e “Gentileza” era uma delas, apesar de não ser carioca, fazia parte da paisagem. Ali próximo ao Gasômetro era a sua sala de aula. Ali através de seus escritos buscava alertar a população sobre o que seremos sem amor, gentileza, paz, etc. Infelizmente poucas pessoas pararam para assistir essa aula de lucidez através do lúdico professor que só queria nos mostrar o amor. Sempre tive um carinho e respeito por esse homem que abriu mão de tudo para ficar vagando pelas ruas levando sua palavra. E não precisávamos dar nada em troca. Santo homem.

Como disse acima, desde pequeno sabia que sua missão era propagar o amor. E isso ficou mais claro após uma das maiores tragédias circense do mundo, o incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em 17 de dezembro de 1961. E criou-se uma lenda de que ele havia perdido familiares nesse incêndio, mas desmentido por ele. Na época, ele se mudou para o local onde o circo estava e ficou lá por longos quatro anos. Para quem conhece Niterói, é onde hoje se encontra a Policia Militar de Niterói. Plantou várias mudas de árvores e foi sua casa por um tempo.

Passou boa parte desse tempo confortando familiares das vítimas do incêndio ao circo. E continuava sua saga de purificação de uma sociedade petrificada em seus valores mais peculiares, atravessando de barca o percurso entre Rio e Niterói esbanjando simpatia e amor. Outro local conhecido pelo seu trabalho eram as pilastras do viaduto do gasômetro, onde ele expos sua obra em 56 delas. Detalhe: Ele mesmo subia nas escadas e pintava palavra por palavra até forma seu texto filosófico. Muitas pessoas o viam pela manhã, quando estavam indo para o trabalho e recebiam flores de sua mão. Gesto que se repetia diariamente.

Gentileza viveu para ajudarmos a entendermos o significado do amor e da ajuda ao próximo. Apesar de tantos anos, ainda não somos capazes de entender mensagens de esperança, fé, amor…
Afinal de contas, os dois mil anos que se passaram ainda devem ser poucos para que a humanidade entenda o verdadeiro sentido da vida. Mas Gentileza não pensava assim e até o fim de sua vida nos deu a oportunidade de aprender. Morreu em Mirandópolis, interior de São Paulo, em 1996.

Depois de sua morte, algumas homenagens foram rendidas a esse homem que em vida só pensava em espalhar amor, bondade e fé num mundo melhor. Eu tive o prazer de por várias vezes o ver propagando amor ou mesmo escrevendo seus textos nas páginas duras da vida que foram apagadas e pintadas de cinza. Mas que pela sensibilidade de alguém na prefeitura, recolocou tudo no lugar, até sua destruição para a reestruturação da Zona Portuária. Ali terminava a sala de aula mais humana do Rio de Janeiro. Hoje em Mirandópolis, existe uma Ong criada por parentes e amigos, “Gentileza Gera Gentileza”, e que além de difundir seus pensamentos também é muito atuante na área sócio cultural.

Em 1980, Gilberto Gil, fez uma canção para homenageá-lo, “Gentileza”, em 2000 no seu cd “Memórias, Crônicas e Declaração de Amor”, Marisa Monte fez uma homenagem ao Profeta coma música “Gentileza” e em 2001 “Gentileza” foi tema de enredo na G.R.E.S. Grande Rio no carnaval carioca. Gentileza ainda está na memória afetiva do carioca e ficará por lá para sempre, afinal de contas, gentileza gera gentileza, amor, vida, liberdade…

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

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