In memoriam: Jean-Paul Belmondo o emblema da Nouvelle Vague

Estrela da Nouvelle Vague francesa, Belmondo participou de mais de 90 filmes. Entre eles, o Acossado (1960), de Jean-Luc Godard, que o consagrou no país

Nesta segunda-feira (6), a França perdeu um de seus maiores atores. Jean-Paul Belmondo, astro francês que fez fama ao estrelar filmes de Jean-Luc Godard, Claude Chabrol (1930-2010) e François Truffaut (1932-1984). A notícia foi confirmada pelo advogado do ator à agência AFP. A causa da morte não foi divulgada.

Foto: REUTERS

Belmondo ficou conhecido pela participação em filmes como ‘‘Acossado’’ (1960) e ‘‘O Demônio das Onze Horas’’ (1965), clássicos da Nouvelle Vague dirigidos por Godard. De acordo com o advogado Michel Godest, o ator ‘‘estava muito cansado há bastante tempo. Ele morreu tranquilamente’’.

Em artigo publicado na segunda-feira (6), a agência Reuters lembrou que Belmondo mudou na década de 1960 para filmes convencionais e se tornou um dos principais heróis de comédia e ação do cinema francês. Ao longo de mais de meio século de carreira, Bébel, como era conhecido pelos amigos e fãs, foi também produtor e estrela de teatro. Em 2011, ele recebeu a Palma de Honra do Festival de Cannes, principal festival de cinema do mundo. E em 2017, foi homenageado na cerimônia do Cesar, o Oscar do cinema francês.


Foto: Agência O Globo

O ator alcançou sucesso mesmo entre as décadas de 1960 e 1970. Junto ao ex-ator franco-suiço Alain Delon, e foi peça-chave para o cinema europeu da época.

Vida pessoal:

Belmondo nasceu em 9 de abril de 1933, em Neuilly-sur-Seine, filho do renomado escultor Paul Belmondo e da pintora Sarah Rainaud-Richard. Apesar de sua formação culta, ele parecia mais atraído pelo mundo dos esportes do que pelas artes e foi um grande boxeador em sua juventude. Depois que descobriu a atuação, foram necessárias três tentativas até que o Conservatório de Paris concordasse em 1952 em aceitá-lo como estudante. Mesmo assim, não foi uma passagem tranquila, e Belmondo desistiu irritado em 1956 após a má recepção de um júri do conservatório sobre uma de suas apresentações.


O ator Jean Paul Belmondo em 2004, com a sua então esposa Natty Tardivel

Belmondo estrelou mais de 92 filmes, muitos deles sucessos de bilheteria, durante o meio século seguinte. Belmondo foi casado com a dançarina Élodie Constantin, com quem teve três filhos. Em 1989, ele conheceu Natty Tardivel, se casou em dezembro de 2002 e teve uma filha, em agosto de 2003. Depois de vinte anos juntos, o casal se divorciou em 2008.

Carreira:

Estreou no cinema aos 23 anos, em “Dimanche… Nous Volerons”, sem grande destaque. Já no filme seguinte, a comédia “Basta Ser Bonita” (1958), conseguiu ser notado. Mas foi a Nouvelle Vague, que varreu a França e o mundo no final dos anos 1950, começo dos 60, que o projetou. E justo num filme escrito por Francois Truffaut e dirigido por Godard.

Belmondo atuou sob o comando de grandes nomes do cinema como: Vittorio de Sica (“Duas Mulheres”, 1961), Jean-Pierre Melville (“Leo Morin Prête”, “Técnica de um Delator” e “L’Ainé des Ferchaux”, realizados em 1961 e 62), Louis Malle (“O Ladrão Aventureiro”, 1965), Francois Truffaut (“A Sereia do Mississipi”, 1969), Claude Chabrol (“Armadilha para um Lono”, 1972), e Alain Resnais (“Stavisky”, 1974). No total, o ator esteve em 92 filmes. E atuou, também como produtor, em 25.

Venceu prêmios como a Palma de Honra em Cannes (2011) e o tributo pela obra de uma vida, no Festival de Veneza (2016). Com o longa-metragem Itinerário de um aventureiro (‘‘1989’’, de Claude Chabrol) venceu o prestigiado César de melhor ator, encarando a trajetória de um empresário que repensa a vida a partir de uma viagem para a África.

Exemplo de um astro capacitado a projetar insuspeita sensualidade, Jean-Paul Belmondo, seguiu pela carreira, estabelecendo tipos durões, como em ‘‘Borsalino’’ (1970), de Jacques Deray (1929-2003), no qual dividiu a estilosa cena de gângster com o colega Alain Delon; brilhando ao lado de beldades como Jacqueline Bisset, em ‘‘O Magnífico’’ (1973), de Phillippe de Broca (1932-2004), ou dando vida a um agente especial traído, em ‘‘O Profissional’’ (1981), de Georges Lautner (1926-2013).

Alcançou imenso êxito comercial com “Cartouche” (De Broca, 1962) e com “Os Ladrões” (Henry Verneil, 1971). Em 1982, encabeçou o elenco de “O Ás dos Ases”, de Gerard Oury, a maior bilheteria francesa daquele ano.

Foto: AFP

Além de um retorno aos palcos, os anos de 1990 viram Belmondo brilhar como o clássico personagem Jean Valjean de ‘‘Os Miseráveis’’, sob direção de Claude Lelouch. O pai (na vida real) de Patricia, Florence, Stella e Paul, ele foi cogitado para uma releitura de ‘‘Casablanca’’.

Como lembra o Revista de Cinema, foi o cinema de aventura que transformou Belmondo em astro blockbuster. Mas foram os três Godard nos quais atuou (“Acossado”, “Uma Mulher é uma Mulher” e “Pierrot le Fou”) que lhe garantiram a eternidade. Afinal, estes três filmes, em especial o primeiro e último, continuam sendo vistos e revistos. E foram as seminais matrizes do cinema inventivo e de baixo custo praticado nos anos de ouro da Nouvelle Vague.


“O homem do Rio”, com Belmondo, passeia por diversas locações cariocas, como o Cristo Redentor, praias da Zona Sul, a Lapa e Santa Teresa, o Aeroporto Santos Dumont e favelas. Foto: Divulgação

Vale lembrar que, em 1963, Belmondo esteve no Brasil para as filmagens de “O Homem do Rio”, filme de Philippe de Broca, diretor especializado em aventura e comédia que realizou diversos filmes de pegada mais popular com Belmondo. O longa foi lançado na França em fevereiro de 1964 e foi um sucesso de bilheteria e de crítica, sendo indicado ao Oscar de melhor roteiro original.

* Com informações da RFI, da Reuters, do Correio Braziliense e da Revista do Cinema

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

Colunista e comentarista de cinema de alguns veículos de imprensa, atua em dois jornais e em um portal. Paralelamente, é editor da página Cinema e Geografia e colaborador de um site de notícias de Maceió. Atualmente integra o quadro de associados correspondentes da União Brasileira de Profissionais de Imprensa (UBRAPI).

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