Ilha de Yap: onde as moedas são maiores que os habitantes

As pedras com valor monetário "circulam" há vários séculos na ilha, embora ninguém tenha certeza de quando a prática começou

A chegada à pequena ilha de Yap, na Micronésia, no oceano Pacífico, surpreende até os viajantes mais experientes.

O único voo diário sobrevoa florestas fechadas, pântanos, lagoas de água salgada e um emaranhado de manguezais, cercados por recifes de corais.

Mas o que causa mais fascínio não é o cenário paradisíaco, tampouco a saudação das yapesas, com sua tradicional saia florida no aeroporto. É quando você fica cara a cara com o dinheiro de pedra (gigante).

São centenas de rochas em formato de discos, do tamanho de seres humanos, espalhadas por toda a ilha. Podem ser encontradas fora dos poucos hotéis da região, enfileiradas perto da praia ou nas profundezas das florestas. Cada aldeia ainda tem um banco de pedras a céu aberto, onde peças que são muito pesadas para serem transportadas ficam expostas no malal (espaço para danças).

“Minha família é dona de cinco pedras de bom tamanho”, diz Falmed (os yapeses usam apenas um nome), taxista que me levou até o banco de pedras Mangyol, na província de Gagil, ao leste de Yap.

Cinco, no caso, é uma boa quantia, já que muitos moradores da ilha não possuem sequer uma pedra.

As pedras com valor monetário “circulam” há vários séculos na ilha, embora ninguém tenha certeza de quando a prática começou. O que se sabe é que cada rocha é diferente da outra, e são tão densas em significado quanto em volume de calcário, extraído pelos yapeses de Palau, país insular localizado 400 quilômetros ao sudoeste de Yap.

As primeiras peças eram usadas para presentear e tinham a forma de uma baleia – por isso, eram chamadas de rai. Mas evoluíram até se converterem em moeda, com formato circular e um buraco no centro, para facilitar o transporte pelos oceanos.

“Meu antepassado Falmed foi quem começou a ir até Palau de canoa, e fazer a travessia até Yap. Por isso, eu tenho o nome dele”, disse o taxista, enquanto seguíamos por uma estrada de terra, deixando para trás a pacata capital de Colônia.

Apesar de ele usar uma camiseta desbotada pelo sol e dirigir um carro velho, sua família é surpreendentemente importante. Falmed, o antepassado distante, era um líder poderoso o suficiente para dispor de um barco e se deslocar até Palau, onde negociou com os moradores locais e conseguiu acesso a uma pedreira.

“Ele voltou e convocou uma reunião na tribo, pediu a todo mundo para juntar tuba, o álcool local, para negociar”, contou o taxista. Em um mês, Falmed retornaria a Palau e começaria a esculpir o dinheiro de pedra.

O fato é que Yap não tinha rochas resistentes nem metais preciosos para fazer moedas. Mas contava com marinheiros experientes que faziam a travessia até Palau – em jangadas de bambu e, mais tarde, em escunas – para extrair calcário de suas pedreiras.

Inicialmente, as moedas eram pequenas. Mas, à medida que as técnicas se aperfeiçoaram, foram ficando cada vez maiores, chegando a ultrapassar o tamanho das pessoas que as esculpiam.

Quando as ferramentas de metal foram introduzidas pelos comerciantes europeus, no fim do século 19, a extração de pedras ficou mais fácil. Relatos da década de 1880 sugerem que apenas na pedreira de Koror, em Palau, havia 400 homens yapeses trabalhando – uma parcela significativa da população, que girava em torno de 7 mil pessoas na época.

Ao voltar de Palau, os marinheiros entregavam o dinheiro de pedra aos chefes das diferentes aldeias, que se reuniam para dar as boas-vindas aos navegantes e às rochas. Os líderes das tribos ficavam com as maiores, além de dois quintos das menores.

Eles também davam nomes às pedras – muitas vezes seu próprio nome ou de parentes. E confirmavam a autenticidade das mesmas, conferindo às peças um valor baseado em um sistema monetário ainda mais antigo: yar (dinheiro de concha de pérola). Depois disso, poderiam entrar em circulação e ser compradas por qualquer pessoa.

“O chefe da aldeia pode dizer ok, 50 conchas por cada moeda de pedra. Se eu tiver a quantia, faço o negócio e passo a ser o dono”, explica Edmund Pasan, construtor de canoas na província de Maap, no norte da ilha.

Hoje, o dinheiro de concha foi substituído pelo dólar americano, que é usado no dia a dia – por exemplo, nas compras de supermercado. Mas a moeda de pedra continua sendo vital para os 11 mil habitantes de Yap, em negociações mais conceituais, que envolvam direitos ou costumes.

Falmed conta que sua família só usou o dinheiro de pedra em duas ocasiões – e uma delas foi como um pedido de desculpas.

“Utilizamos para um dos meus irmãos, que criou problemas para outra família”, relembra Falmed com remorso.

O casamento do irmão não tinha dado certo.

“Oferecemos a um dos chefes da aldeia e sua filha uma moeda de pedra como pedido desculpa, e eles aceitaram. Quando se trata de uma classe alta, você tem que usar dinheiro de pedra.”

O valor da rocha sempre foi fluido, desafiando o conceito ocidental de que o valor da moeda é fixo e pré-determinado. As pedras são valorizadas pelo tamanho – variam de 7cm a 3,6m de diâmetro -, assim como pelos ornamentos e pela dificuldade que a família teve para obtê-la. Também depende de para quem você a oferece e do motivo.

Além disso, os yapeses levam em conta a história oral da pedra, já que não há registro por escrito de propriedade. Como as famílias raramente mudam de aldeia, os anciãos dos cerca de 150 vilarejos da ilha passam adiante informações sobre cada peça. As pedras acabam funcionam como um memorial do passado e ajudam a reforçar relacionamentos e negócios que datam do tempo em que havia guerreiros e clãs. Em alguns casos, as rochas apresentam gravuras que simbolizam batalhas de mais de 200 anos.

Acompanhado de Falmed, finalmente cheguei ao banco de pedras de Mangyol, após uma viagem de 40 minutos de Colônia. Havia uma dúzia de moedas de rocha, de tamanhos variados, alinhadas em frente a um p’ebay, estrutura aberta no centro da vila, onde a comunidade se reúne para fazer negócios, celebrações e, às vezes, dar aulas.

Falmed explicou que as pedras rai são colocadas em lugares específicos, de acordo com suas conexões secretas, relações com a aldeia, histórias de casamento, conflitos e pedidos de desculpa – que as fizeram mudar de dono ao longo dos séculos. São as narrativas que apenas os aldeões locais conhecem que determinam qual de fato é a mais valiosa.

Não há necessidade de se produzir mais dinheiro de pedra, uma vez que a ilha tem basicamente um número permanente em circulação, e poucas peças são transportadas. Mesmo as que estão quebradas conservam sua história oral, o que confere a elas mais valor do que uma nova.

De tempos em tempos, no entanto, novas moedas são confeccionadas, com o simples intuito de garantir que as habilidades das gerações passadas não sejam esquecidas.

Mas se as pedras são tão valiosas e acessíveis, o que impediria alguém de esculpir suas próprias moedas, ou simplesmente roubar uma delas?

“A maioria das questões é de conhecimento de todos, os segredos entre os nativos são raros. Assim, o roubo de rai é relativamente desconhecido”, escreve Cora Lee C Gilliland, do Instituto Smithsoniano, nos EUA, no artigo The Stone Money of Yap (“O dinheiro de pedra de Yap”, em tradução livre).

Não que alguns já não tenham tentado.

“Tentaram fazer isso, em Yap, e caíram na gargalhada porque não conseguiram”, disse Pasan, com uma risada.

“Então fizeram isso com as pedras em Guam, mas não são tão fortes e o acesso é mais difícil – é muito mais fácil extrair da pedreira em Palau”, completou.

As ilhas vizinhas a Yap – Guam, Palau e Chuuk – são fortemente influenciadas pela colonização europeia e americana. E todas ostentam as cicatrizes visíveis da Segunda Guerra Mundial. Guam continua a ser território dos EUA, que mantêm uma base militar estratégica na ilha. Já as Ilhas Chuuk abrigam cerca de 60 naufrágios, resultado da devastadora Operação Hailstone, em 1944.

Yap, por sua vez, escapou dos bombardeios americanos, quando a ocupação japonesa do início do século 20 chegou ao fim. A solidez e longevidade da pedra rai parecem representar a resistência da autenticidade da cultura yapese ao longo dos séculos.

“Na cultura yapese, se algo (importante) está acontecendo, e não há nada mais adequado para usar, então você usa dinheiro de pedra”, diz Falmed, que presenteou o filho com uma moeda de pedra no aniversário de um ano, conforme o costume local.

“Quando minha namorada engravidou, viemos do Havaí (para cá)”, recorda-se. “No primeiro aniversário de um bebê, se o clã for de classe alta e tiver algum dinheiro de pedra, vai cortar uma galinha e pingar o sangue na cabeça da criança para marcar o momento. É um presente, e muitas pessoas participam (da cerimônia).”

O filho de Falmed tem 12 anos agora e mora no Havaí. Mas a pedra dele está na casa da família, em Yap. E mesmo sem um certificado por escrito, todo mundo sabe a quem ela pertence.

Da BBC

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