Guerra na Ucrânia faz commodity disparar e é novo golpe à globalização

A primeira consequência que a guerra já gerou foi a financeira, impactando setores como o bancário, de energia e mineração

Completando um mês nesta quinta-feira (24), a guerra entre Ucrânia e Rússia não dá sinais de desfecho, mas, independentemente disso, especialistas afirmam que o conflito já deixou consequências duradouras para a economia mundial.

Economistas apontam três grandes choques: um financeiro, outro ligado às commodities e um de abalo no regime econômico atual.

O ex-diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI), Otaviano Canuto, avalia que a intensidade desses impactos varia de país para país, dependendo das condições econômicas internas.

Para ele, existe um impacto econômico relevante na própria destruição da Ucrânia, que demorará anos para se reconstruir e se reinserir na economia mundial.

Segundo Paulo Feldmann, professor da FEA-USP, a duração do conflito também influencia nesses efeitos.

“Achava-se que a guerra ia ser de curta duração, e não está sendo, então os impactos são maiores”, diz.

A questão financeira

Para Canuto, a primeira consequência que a guerra já gerou foi a financeira, em especial com uma série de sanções anunciadas pelos Estados Unidos, Europa e aliados contra a Rússia, impactando setores como o bancário, de energia e mineração.

O impacto dessas medidas é direto, e gera o que o economista chama de “isolamento sem precedentes”. A expectativa é de que o Produto Interno Bruto (PIB) da Rússia caia pelo menos 15% em 2022.

“Dá para ver como houve uma tentativa de preparação da Rússia de minimizar [as sanções], um processo gradual nos últimos anos pelo banco central de venda de reservas de títulos em dólar e, em menor nível, euro, trocando por ouro e títulos chineses”, diz.

Mas ele avalia que a Rússia não contava com a maior sanção até o momento, o bloqueio de bancos russos do Swift, um sistema de processamento de pagamentos internacional. Na prática, a medida isolou o sistema bancário russo do resto do mundo, dificultando a realização de transações com o exterior.

Nesse sentido, Canuto afirma que um calote russo pela incapacidade de pagar os compradores de títulos do governo ainda é possível, mas que o impacto seria “menor, e não sistêmico” para a economia mundial.

Ao mesmo tempo, “as sanções elevaram o patamar de incerteza para quem opera em finanças, o que piorou os níveis de confiança e prêmios de risco, com um medo de contágio de venda de ativos de emergentes. Hoje deu pra ver que isso não se concretizou”.

Leonardo Paz, analista de inteligência do NPII-FGV (Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getulio Vargas), afirma que o choque financeiro foi o menor até o momento. O principal efeito foi uma saída de capital estrangeiro de mercados do Leste Europeu.

Esses investidores migraram principalmente para os Estados Unidos, tradicionalmente um “porto seguro” em momentos de crise, mas também para mercados considerados atraentes no momento, caso do Brasil.

Já Feldmann avalia que qualquer guerra reduz o ritmo da atividade econômica mundial, o que não é diferente nesse caso. O mercado mais afetado, porém, tem sido o europeu, com previsão de queda de atividade e alta do desemprego, o que pode acabar tendo repercussão negativa na atividade econômica global.

Commodities disparando

Para Canuto e Paz, o principal efeito da guerra na Ucrânia para a economia é a disparada nos preços de uma série de commodities. A Rússia e a Ucrânia são países relevantes na produção de grãos como soja, milho e trigo, e a economia russa é bastante ligada ao petróleo, gás natural e minerais como o alumínio.

Desde que a guerra começou, todos esses produtos dispararam. Um levantamento da consultoria Safras & Mercados, aponta que o milho e a soja chegaram no maior preço dos últimos dez anos em março, e o trigo chegou a subir 49,5%.

Paz afirma que a alta é especialmente problemática porque o petróleo —cujo tipo Brent passou da casa dos US$ 90 para os US$ 120— e o trigo são “produtos base de cadeia”.

“Se aumenta o petróleo, não sobe só a gasolina, sobe toda a cadeia de derivados, como plástico, e cria um efeito de transbordamento para outros setores pela questão do transporte”, diz. Já no caso dos grãos, a alta afeta desde produtos derivados, como o pão, até a proteína animal, em que eles são usados como ração.

Com muitos países já “apertados com a inflação e uma economia estressada”, essa alta piorou ainda mais as condições da economia global, e deve forçar os países a aumentarem os processos de aperto monetário e alta de juros para combater a inflação, às custas de uma redução da atividade econômica.

Segundo Otaviano Canuto, “quando as commodities energéticas sobem, os choques se transmitem para outras commodities, ninguém escapa”.

Isso gera repiques inflacionários em um contexto em que boa parte do mundo, em especial Europa, EUA e América Latina, já estavam com níveis de inflação bem maiores que o pré-pandemia. O desafio inflacionário se intensificou, e a perda de poder de compra tende a afetar a demanda. Otaviano Canuto, ex-diretor do FMI

Ao mesmo tempo, a guerra e as sanções geram bloqueios, restrições e rupturas em cadeias de suprimento, um problema que já contribuiu para a inflação em 2021. Como a Rússia e a Ucrânia exportam commodities chaves para a agricultura, como fertilizantes, e indústria, caso do paládio e alumínio, a tendência é gerar novas ondas de restrição de produção.

O ex-diretor do FMI cita duas áreas específicas do mundo que devem ser mais afetadas. Primeiro, o norte da África, altamente dependente do trigo russo. Caso os países não consigam retomar o abastecimento da commodity, ele não descarta riscos de instabilidade política, além de uma piora na insegurança alimentar.

E há o caso da Europa, altamente dependente do gás russo para energia e aquecimento. Com o preço do produto disparando, o cenário inflacionário do continente piorou, gerando um desafio para o Banco Central Europeu (BCE) de “conter a inflação mas evitar recessão”.

Ele considera que os países emergentes, caso do Brasil, estão menos vulneráveis a esse ambiente, mas que, mesmo que os países exportadores sejam beneficiados pelos preços mais altos nas commodities, o impacto desses mesmos preços na economia será intenso.

“No caso do Brasil, isso vem em um ano já complicado na atividade econômica e inflação. A balança de pagamentos deve ter mais saldo, receitas do setor público melhores. Mas a inflação maior retarda a saída do aperto monetário pelo BC, e traz um crescimento ainda menor”.

Feldmann afirma que, nesse cenário de alta das commodities, o mais preocupante é a do petróleo, com os efeitos nos combustíveis. Para o professor, o único fato favorável para o Brasil, mas que tem pouco a ver com a guerra, é a valorização do real ante o dólar nos últimos meses, o que pode reduzir a pressão inflacionária já que o petróleo é cotado em dólar.

“Outro impacto que ainda não sabemos dimensionar é a questão dos fertilizantes. A agricultura é muito importante para o Brasil e o mundo, e estávamos muito dependentes dos fertilizantes russos, o que demanda uma adaptação. Os produtos agrícolas devem subir”, diz.

Globalização e multilateralismo ameaçados

O professor da USP considera, porém, que o principal efeito da guerra na Ucrânia é a criação de um “baque na globalização”.

“Ela vai acentuar a tendência nacionalista de vários países. É algo muito forte desde 2017, 2018”, observa.

Com as disrupções geradas pela guerra e as sanções, Feldmann afirma que já há temores de falta de componentes e redução de produção, o que faz os países perceberem que não dá para depender de um fornecedor externo em certa áreas.

“A tendência é de aumento na produção doméstica”, diz ele.

É o caso do próprio Brasil, que já busca incentivar a produção interna de fertilizantes. O resultado, segundo o professor, é uma redução na globalização, que também deve repercutir no encolhimento do próprio comércio internacional.

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