Guerra na Ucrânia: dólar sobe 2% e fecha a R$ 5,10 com

A reversão do movimento de valorização do real ocorreu depois de a Rússia atacar a Ucrânia, gerando uma aversão global a riscos e a busca por ativos considerados mais seguros, caso da moeda norte-americana

O dólar fechou em alta de 2,03%, cotado a R$ 5,104, nesta quinta-feira (24), interrompendo quatro sessões seguidas de queda. Essa foi a maior alta percentual desde setembro de 2021.

A reversão do movimento de valorização do real ocorreu depois de a Rússia atacar a Ucrânia, gerando uma aversão global a riscos e a busca por ativos considerados mais seguros, caso da moeda norte-americana.

O Ibovespa opera em queda diante desse cenário, seguindo as bolsas de valores ao redor do mundo. Praticamente todos os setores recuam, em especial os de viagem, saúde, varejo e tecnologia, com as ações ligadas ao petróleo registrando alta. O maior avanço do dia é da SulAmérica (SULA11), de mais de 10%, após notícia de aquisição pela Rede D’Or.

Por volta das 17h, horário de Brasília, o principal índice da B3 caia 0,82%, aos 111.059,43 pontos.

Na quarta-feira (23), o dólar fechou em queda de 0,94%, cotado a R$ 5, menor patamar desde 30 de junho de 2021. Já o Ibovespa caiu 0,78% aos 112.007,61 pontos.

Bolsas no exterior

Com o cenário na Ucrânia, as bolsas em todo o mundo recuam nesta quinta-feira. Na Ásia, onde as negociações já se encerram, o índice Nikkei, principal da bolsa do Japão, caiu 1,81%, a 25.970,82 pontos, enquanto o Hang Seng sofreu tombo de 3,21% em Hong Kong, a 22.901,56 pontos.

Já o sul-coreano Kospi teve queda de 2,60% em Seul, a 2.648,80 pontos, e o Taiex registrou baixa de 2,55% em Taiwan, a 17.594,55 pontos.

Na China continental, o Xangai Composto recuou 1,70%, a 3.429,96 pontos, e o menos abrangente Shenzhen Composto teve perda ainda mais expressiva, de 2,36%, a 2.282,44 pontos.

Na Oceania, a bolsa australiana sofreu a maior queda em um único pregão desde setembro de 2020. O S&P/ASX 200 caiu 2,99% em Sydney, a 6.990,60 pontos.

As bolsas também recuaram na Europa, com o índice STOXX 600, que reúne as principais ações de 17 países europeus, caindo 3,28%, a 438,96 pontos, seu menor nível desde maio de 2021.

A bolsa de valores da Rússia, na capital Moscou, chegou a suspender negociações de todos os seus ativos em meio a quedas significativas. As negociações foram retomadas algumas horas depois, e o MOEX, principal índice, caindo 33%. O rublo russo segue recuando em relação ao dólar, próximo de mínimas históricas.

As bolsas dos Estados Unidos também caem, com duas dos três principais índices – Dow Jones e S&P 500 – registrando quedas. Já o Nasdaq sobe, com investidores aproveitando a desvalorização grande de empresas de tecnologia.

Ucrânia

Na madrugada de quinta-feira, o presidente russo Vladimir Putin autorizou a realização de uma “operação militar especial” no leste da Ucrânia, onde ficam localizadas duas regiões separatistas que foram reconhecidas pelo país como independentes.

Na prática, a autorização levou a uma invasão do país pela Rússia, com relatos de ataques e explosões em diversas regiões ucranianas. Os Estados Unidos, países europeus e outros aliados criticaram a ação e prometeram responder com uma série de sanções contra a Rússia.

A invasão, e as chances de novas escaladas no cenário geopolítico, aumentam a aversão a riscos dos investidores e a busca pelo dólar, com o índice DXY, que compara a moeda frente a outras, avançando quase 1%.

O cenário também favorece outros ativos considerados de “proteção”, por serem menos voláteis, caso do franco suíço, do ouro e da prata.

O VIX, chamado de “índice do medo” por tentar medir o grau de volatilidade do mercado, tem alta de cerca de 5%, rondando os 32 pontos, após chegar ao maior nível desde setembro de 2020. O ambiente acaba sendo negativa para o mercado de ações como um todo, com as bolsas em todo o mundo caindo, assim como para outros ativos de risco, caso das criptomoedas, com o recuo do bitcoin chegando aos 8%.

Outra consequência da invasão é a alta nos preços de commodities, principalmente as ligadas à Rússia e a à Ucrânia, caso do milho, trigo e do petróleo. O tipo Brent, referência da Petrobras para a política de preços, sobe mais de 5%, e ultrapassou a casa dos US$ 100 o barril pela primeira vez desde 2014.

Exterior

A situação na Ucrânia ainda não havia superado os benefícios para o real de um ciclo de migração de investimentos para mercados ligados a commodities e vistos como baratos, com o Brasil beneficiado também pelos juros altos, que limita os efeitos das apostas em uma política de alta de juros agressiva pelo Federal Reserve. Entretanto, isso pode mudar.

O ciclo estava ligado, em partes, a expectativas de mais medidas pró-crescimento na China que estão aumentando as esperanças de uma recuperação na demanda por metais, o que leva a altas nos preços. Por outro lado, intervenções do governo chinês no mercado têm gerado pressões de queda, em um sobe e desce na cotação.

No caso do petróleo, analistas do Goldman Sachs afirmam que os preços do tipo Brent devem superar os US$ 100 por barril neste ano. O principal fator para a alta é o descompasso entre oferta e demanda da commodity, com os principais produtores, reunidos na Opep, ainda não retomando os níveis de produção pré-pandemia. As tensões na Ucrânia também fazem os preços subirem.

Outro fator que pesava nesse movimento é a expectativa de alta de juros nos Estados Unidos já no mês de março, de 0,25 ou 0,5 ponto percentual, reforçada por dados de inflação levemente acima do esperado. Com isso, investidores estrangeiros têm saído do mercado de ações norte-americano.

Com a inflação americana batendo recorde em quatro décadas, o Fed vem dando indicações mais duras aos mercados, mas a ata da última reunião do banco não deixou claro o tamanho e ritmo do aperto que o banco central americano fará, indicando que as decisões ocorrerão a cada reunião pelo contexto econômico.

Qualquer alta de juros no país pode afetar os investimentos no Brasil, já que torna os títulos do Tesouro norte-americano ainda mais atrativos para os investidores, pressionando negativamente o real.

Brasil

No radar dos investidores está também a chamada PEC dos Combustíveis, que permitiria a suspensão de impostos para esses produtos. Representando um possível descontrole de gastos, o tema tem potencial para afetar negativamente o real e o Ibovespa.

Duas PECs já foram protocoladas, uma no Senado e outra na Câmara, com cálculos de perda de arrecadação indo de R$ 18 bilhões até R$ 100 bilhões dependendo do conteúdo, mas o foco no momento são dois projetos de lei sobre o tema cuja votação foi marcada para o próximo dia 8.

Um dos PLs determina um valor fixo de cobrança do ICMS para combustíveis, com o tributo estadual deixando de variar seguindo flutuações de preço do produto, e expande o chamado vale-gás para famílias brasileiras.

Já o outro criaria um fundo de estabilização do preço do petróleo e derivados (diesel, gasolina e GLP), com uma nova política de preços internos de venda para distribuidores.

O Banco Central fará neste pregão leilão de até 15 mil contratos de swap cambial tradicional para rolagem do vencimento de 2 de maio de 2022. Reuters

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