Franceses vão às urnas neste domingo (10) eleger novo presidente da República

Lapidado pela sua experiência na cena mundial, o presidente Emmanuel Macron é o mais provável de chegar ao topo, segundo a maioria das pesquisas

No início de 2022, a eleição presidencial da França prometia ser uma das corridas políticas mais emocionantes do país em décadas.

Um presidente em exercício, procurando ser eleito pela segunda vez na sua vida; uma candidata controversa ganhando espaço; um candidato duas vezes condenado por incitar ódio racial e religioso; outro durão da direita em terceiro lugar e a esquerda dominante há tempos na política francesa em desordem.

Então, a Rússia invadiu a Ucrânia. Com os olhos da Europa fixos na guerra sangrenta iniciada pelo presidente russo, Vladimir Putin, as prioridades mudaram rapidamente: os arsenais de munições, a diplomacia de alto risco e até mesmo a ameaça de um ataque nuclear entraram no debate nacional. A campanha foi perturbada pela crise, e vários candidatos-chave tiveram de recuar no apoio declarado no passado a Putin.

Lapidado pela sua experiência na cena mundial, o presidente Emmanuel Macron é o mais provável de chegar ao topo, segundo a maioria das pesquisas. Porém, faltando apenas alguns dias para as eleições, sua rival mais próxima, Marine Le Pen, está subindo nas pesquisas, sugerindo que a disputa entre os dois poderia ser mais acirrada do que na última vez, em 2017.

Os eleitores franceses não estão enfrentando as eleições que muitos esperavam, entre outros fatores pelo fato de a França não reeleger um presidente nos últimos 20 anos, a diplomacia estar disputando espaço com a campanha na agenda do presidente e o conflito ter alimentado uma crise no custo de vida.

Saiba mais sobre o cenário.

Quando é a eleição, e como funciona?

Para eleger o seu novo presidente, é provável que os eleitores franceses precisem ir às urnas duas vezes.

A primeira votação, no domingo (10), coloca 12 candidatos uns contra os outros. Todos eles se qualificaram para a corrida ao garantir o apoio de 500 prefeitos e/ou vereadores locais de todo o país.

Se nenhum candidato ganhar 50% dos votos no primeiro turno, os dois concorrentes mais votados vão passar para um segundo turno duas semanas mais tarde, no domingo 24 de abril.

Dos 12 candidatos na corrida, a pesquisa do IFOP sugere que apenas cinco já asseguraram mais de 10% do apoio dos eleitores. Está quase garantido um segundo turno.

Não é a única eleição nacional que a França enfrenta este ano: as eleições parlamentares acontecem em junho.

Quem está na corrida?

O presidente no posto

Presidente em primeiro mandato, Emmanuel Macron só participou de uma eleição, a sua bem-sucedida corrida presidencial de 2017, e vinha numa trajetória de altos e baixos até o começo de 2022. Considerando que nenhum presidente francês conseguiu ser reeleito desde Jacques Chirac, em 2002, Macron está diante de um desafio, embora seja o favorito.

Ex-banqueiro de investimento e ex-aluno de algumas das escolas mais elitistas de França, Macron provocou a ira nacional com um imposto sobre o diesel no início do seu mandato, gerando o movimento dos coletes amarelos – um dos protestos mais prolongados que o país viveu em décadas.

“A popularidade hoje é importante”, disse o comentarista político Jean-Michel Aphatie. “O nível de ódio despertado por Emmanuel Macron é considerável e partilhado”.

Em nível internacional, as suas tentativas de conquistar o apoio de Donald Trump, evitar o acordo de submarinos AUKUS e o seu malsucedido esforço diplomático para evitar a guerra na Ucrânia entraram, indiscutivelmente, na conta de fracassos. Mas o firme apoio de Macron a uma União Europeia ambiciosa e autônoma garantiu a ele o respeito no exterior e estabeleceu as suas credenciais geopolíticas internamente.

O desafio mais inesperado da sua presidência, a pandemia da Covid-19, talvez tenha definido seu tempo no posto. Mais de dois anos de lockdowns e exigências de máscaras, uma implementação da vacina da UE executada e a mudança ousada para forçar eficazmente o povo francês a se vacinar dispararam a oposição vocal, mesmo que a maioria do país tenha aprendido a viver com as restrições e uma maioria silenciosa apoiou as medidas.

Macron se recusou a debater com seus opositores e quase não fez campanha. Embora o seu primeiro lugar na corrida nunca tenha sido realmente ameaçado, os especialistas acreditam que a sua estratégia tem sido evitar a confusão política, tanto quanto possível, a fim de ostentar sua imagem como o mais presidencial de todos os candidatos.

Mas, uma semana antes do primeiro turno, Macron pediu a seus apoiadores para não contarem com o jogo vencido. “Qualquer coisa é possível”, disse, alertando para a possibilidade de uma virada ao estilo do Brexit nas eleições.

A adversária

“A lógica eleitoral francesa significa que, no segundo turno, você tem que ser o menos odiado dos dois candidatos restantes”, disse Etienne Girard, editor da revista “L’Express”.

Embora o primeiro turno na França tenha um espectro político, no segundo muitos votam apenas para eliminar um dos concorrentes.

Isso tem sido um problema para Marine Le Pen, que vem sendo sinônimo de extrema-direita francesa durante grande parte da última década.

Agora deputada na região de Calais – a porta de entrada para o Reino Unido, que tem lutado para evitar a entrada de imigrantes – a anti-imigrante Le Pen enfrentou Macron em 2017, mas perdeu por uma margem considerável.

O pai dela, o político de extrema-direita Jean-Marie Le Pen, também perdeu uma eleição no segundo turno para Chirac em 2002.

A estratégia de Marine Le Pen para esta eleição foi buscar apoios importantes, “uma estratégia de respeitabilidade”, como Girard descreve.

Embora ainda seja fortemente contrária à entrada de novos imigrantes no país, a suavização do seu tom em tópicos emblemáticos como o Islã e o euroceticismo (especialmente após o Brexit) tem sido amplamente divulgada, no esforço para atrair eleitores fora da sua base de extrema-direita. Mesmo assim, “deter a imigração descontrolada” e “erradicar as ideologias islâmicas” são as duas principais prioridades do seu programa de governo.

Fã de Vladimir Putin (uma fotografia da sua visita ao presidente russo foi incluída num folheto de campanha e depois retirada), Le Pen enfrentou questões desconfortáveis com a guerra na Ucrânia.

No entanto, nas últimas semanas da campanha, ela colocou o custo de vida como uma questão central, prometendo medidas que irão colocar de “150 a 200 euros” de volta nos bolsos de cada membro familiar, incluindo o compromisso de suspender o imposto sobre as vendas de uma centena de bens domésticos.

Le Pen é conhecida por captar eleitores de difícil acesso, de acordo com o especialista em pesquisa Emmanuel Riviere. “Ela sempre consegue seduzir pessoas que não estão interessadas na política, precisamente porque oferece a eles uma solução para expressar sua raiva em relação à política”, afirmou.

Ela está fazendo uma campanha muito superior à que fez nas eleições de 2017. A poucos dias do primeiro turno, a pesquisa Ifop sugere que ela pode ganhar 47% dos votos em um segundo turno contra Macron.

Novos extremos

O novo membro do bloco, o comentarista de televisão de extrema-direita e autor Eric Zemmour, há muito tempo tem sido visto como possível candidato presidencial. Conhecido por suas posições intransigentes sobre o Islã, crianças com nomes não franceses e imigração, ele foi duas vezes condenado por incitar ódio racial ou religioso.

Como candidato presidencial, reforçou essa retórica, elogiando a teoria racista da conspiração de “Grande Substituição” em seus discursos e prometendo um “ministério para a deportação” de cerca de 1 milhão de pessoas provenientes do norte da África – imigrantes que, na opinião dele, querem “substituir” a população francesa nativa. Zemmour ficou entre os três principais candidatos até março, de acordo com a pesquisa Ifop, desafiando o domínio da família Le Pen na área da extrema-direita.

Ele abertamente cita o Islã como uma ameaça à França e tem atraído uma população mais educada e abastada para o extremo político, de acordo com Riviere. Culto e orador talentoso, o seu apelo para “salvar a nossa pátria, a nossa civilização, a nossa cultura” ressoou em uma parcela do eleitorado.

“As pessoas, quando se sentam em frente aos seus televisores e o ouvem, sentem-se elevadas. E isso, na França, é algo que se espera enormemente de um líder político”, comentou Girard, autor de uma biografia de Zemmour.

No entanto, em última análise, ele está pisando no calo de Le Pen. “Eles estão de fato em uma concorrência direta que pode significar uma grande derrota para um dos dois”, observou Riviere. Zemmour (que em 2018 confessou orgulhosamente “sonhar” com um Putin francês) viu a sua popularidade desabar desde o início da guerra na Ucrânia.

O candidato estava publicamente convencido de que Putin nunca invadiria a Ucrânia, e ainda continuou a defendê-lo no momento da invasão. Logo depois, porém, condenou a operação, revertendo seu apoio ao presidente russo.

Sem chance

Em Jean-Luc Melenchon, a extrema-esquerda francesa também tem o seu político exemplar. O líder do partido “França que não se rebaixa”, o político e ativista veterano esteve em três eleições presidenciais até agora.

Entre as suas políticas emblemáticas estão uma “revolução fiscal”, uma reformulação radical da governança francesa no sentido de um envolvimento mais direto do eleitorado e um plano de 1 bilhão de euros para combater a violência contra as mulheres, uma questão muito debatida na França.

Desprovida de um candidato unificador, no entanto, a esquerda francesa parece ter poucas chances de conquistar uma vaga no segundo turno. Melenchon tem uma base leal entre os eleitores da extrema-esquerda, mas vem lutando para ganhar mais eleitores centristas.

Tanto Anne Hidalgo, prefeita de Paris que se lançou candidata presidencial pelo Partido Socialista, como Valerie Pecresse, do Partido Republicano, de direita, também têm se esforçado para avançar nas pesquisas. Mas seus partidos sofreram com a criação do partido centrista “La Republique En Marche”, de Macron, em 2016, e ainda não recuperaram.

E nem Macron, que se mantém na liderança, pode ser considerado a salvo de surpresas. “Neste país, tudo é possível. Vimos que o impossível se tornou realidade em outros países”, alertou o comentarista político Aphatie. “As pessoas diziam Donald Trump eleito? Nunca”.

O que dizem as pesquisas?

Macron segue na frente, de acordo com a pesquisa Ifop, o que sugere que os seus níveis de apoio não diminuíram abaixo dos 24% desde janeiro, e subiram para um nível elevado de 31% nas primeiras semanas da guerra na Ucrânia.

Da mesma forma, Marine Le Pen manteve-se em segundo lugar durante quase todos os últimos três meses – atingindo um alto de 21% no final de março – de acordo com a Ifop.

Tudo isso parece criar um relançamento do segundo turno de 2017. No entanto, embora Macron tenha saído com quase dois terços dos votos da última vez, a pesquisa sugere que este ano um enfrentamento Macron-Le Pen poderia resultar na vitória do titular com 53% dos votos para 47% para Le Pen, uma margem de vitória muito mais apertada.

Quais são as maiores questões para os eleitores franceses?

O custo de vida está entre as principais questões para o eleitorado francês este ano. Confrontados com as repercussões econômicas da pandemia, os elevados preços da energia e a guerra na Ucrânia, os eleitores estão sentindo a pressão, apesar do apoio generoso do governo.

Embora as pressões financeiras possam não ser suficientes para amenizar o extremismo de alguns candidatos nas mentes dos eleitores, podem empurrar alguns para procurar respostas pouco ortodoxas aos seus problemas.

Os combates na Ucrânia estão longe dos bistrôs e cafés da França, mas o conflito está certamente nas mentes dos eleitores. Cerca de 90% do povo francês estavam preocupados com a guerra na última semana de março, segundo Ifop. Tendo em conta o histórico inconstante dos adversários em chegar a Putin, é provável que isto venha a ser disputado a favor de Macron.

A crise ambiental esteve ausente do debate. Embora a importância das proteções climáticas esteja ganhando força a nível mundial, a França adquiriu 75% das suas necessidades de eletricidade em 2020 a partir da energia nuclear, de acordo com o ministério francês do Meio Ambiente. Com a maioria dos candidatos apoiando o tipo de desenvolvimento nuclear que Macron já anunciou, há pouca divergência sobre esta questão.

Com toda a fanfarra que esta eleição prometeu, com uma guerra na fronteira da União Europeia e muitos eleitores que lutam para pagar as suas contas, a escolha da França poderá ser mais importante nos próximos cinco meses do que nos próximos cinco anos. CNN

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