Ficar em casa ou não?

O Brasil está em uma encruzilhada retórica: de um lado, os governos estaduais, hospitais, centros de pesquisa, universidades públicas, órgãos de imprensa, etc. são unânimes em seguir e recomendar as medidas tomadas em outros países da Europa e da Ásia e implementar uma política severa de distanciamento social para desacelerar a disseminação da Covid-19 em território nacional. Na extremidade oposta se defende o chamado isolamento vertical, ou seja: que apenas quem pertence aos grupos de risco como idosos ou pessoas com doenças crônicas fiquem em casa. 

É evidente que a paralisação do comércio e da indústria desacelera a atividade econômica do País e pode abrir espaço para uma grave recessão. Mas a estabilidade do Brasil deve ser alcançada às custas do bem estar ou, em alguns casos, da vida dos brasileiros? E mais: será que manter as empresas nacionais funcionando é suficiente para sustentar nossos indicadores ou baque que a pandemia vai gerar na economia mundial é forte demais para o Brasil ter a pretensão de se safar sozinho?

Vamos fazer algumas perguntas:

O que dizem as projeções mais atualizadas sobre o espalhamento da Covid-19 no Brasil? O espalhamento tende a se acelerar ou nossas medidas serão suficientes?

Diversos especialistas têm uma expectativa de quase 500 mil óbitos no Brasil, o que equivale a população de Florianópolis. Os cálculos dos professores (da UFRN) e (da Universidade do Estado do Novo México) indicam um contágio de 53% da população e cerca de dois milhões de mortes no pior cenário previsto. Tecnicamente, a velocidade do espalhamento da COVID-19 segue o que os estatísticos chamam de distribuição exponencial. Ou seja: 1, 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128… A curva sobre rápido repentinamente. 

Na ausência de medidas agressivas de isolamento social, vamos caminhar para uma tragédia. Não adianta falar em mitigação agora. Ainda não sabemos a prevalência da doença na população. A única opção segura é o isolamento social. O Reino Unido cogitou um caminho alternativo, mas rapidamente retrocedeu. O presidente Trump, que passou muito tempo minimizando o tamanho do problema, acaba de baixar um decreto obrigando as fábricas a produzir ventiladores. Está remediando um erro que, só hoje, vai custar a vida de mais de 300 americanos. Devemos adotar as seguintes medidas: 1. isolamento social; 2. testagem em massa; 3. produção e distribuição rápida de materiais e equipamentos de saúde.

Quais os impactos socioeconômicos de deixar a doença se espalhar livremente? Atrasar a implantação da quarentena só pioraria o cenário, como foi na Itália?

Já ouviu a história do cobertor curto? Se cobrir a cabeça, passa frio nos pés. Se cobrir as pernas, passa frio na cabeça? É o que os economistas chamam de trade-off. É claro que o isolamento social é um banho de água fria. Enquanto antes se esperava um crescimento acima de 2% para 2020, agora temos uma recessão pela frente. Se a economia não anda, há desemprego, crime, suicídios, recessão, falências, endividamento, calotes, etc.

O problema é que não há outra solução, pelo menos no curto prazo. A Coreia do Sul, um dos casos de sucesso até o momento, investiu em campanhas massivas para não deixar a população em dúvida.

A China demorou 24 dias entre o primeiro registro oficial de COVID-19, no dia 31 de dezembro de 2019, e o isolamento agressivo de Wuhan. Na Itália, o primeiro registro foi realizado em 31 de janeiro, um mês depois. mas o isolamento agressivo só foi adotado 39 dias depois. A diferença de duas semanas parece pequena. Mas, como estamos diante de um fenômeno exponencial, pequenos detalhes têm consequências catastróficas.

De acordo com nossas estimativas, a Itália deve ultrapassar a marca de 100 mil pessoas infectadas antes da China mesmo tendo uma população 20 vezes menor.  Atualmente, a Itália contabiliza mais do dobro de mortes em relação à China. Foram 8.215 vidas italianas contra 3.292 óbitos chineses, o que dá cerca de 350 mortes evitáveis por dia durante duas semanas. Basta um único caso infectado para iniciar a distribuição exponencial. Para derrubá-la, a única saída técnica é o isolamento social.

Ainda não sabemos detalhes sobre a maneira como vírus atua no corpo, nem há meios de tratá-lo. Quebrar a quarentena, além de moralmente errado, também é um erro do ponto de vista técnico, pois dificultaria e muito o controle da doença. Não dá para combater direito um inimigo que não conhecemos.

Estamos vivendo dias complicados e não sabemos ao certo o que fazer. Cada um sabe onde seu calo aperta, mas um calo apertado com coronavírus deve ser bem pior. Então vamos pedir a Deus para iluminar a mente destes cientistas e pesquisadores e que eles possam descobrir rápido a vacina para eliminar esse mutante.

Essa decisão de ficar em casa ou de abrir as portas para trabalhar é bem mais complexa e para tanto, precisamos entender muito mais o que está acontecendo e como podemos sair ilesos deste vírus e desta economia.

Eu acredito em dias melhores!

Eu acredito em você!

Por

* Radialista, Fotógrafa e Palestrante Motivacional.

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