Festival religioso ou banalização do consumo?

O dia 25 de dezembro está se aproximando, mas o incentivo ao consumismo bárbaro e leviano tem se multiplicado profundamente desde o fim de novembro. Tal conjuntura será mantida até janeiro, onde as mercadorias natalinas remanescentes sofrem uma queda significativa nos preços.

Qualquer indivíduo com o mínimo de sensatez e instrução financeira básica pondera antes de efetuar uma compra, por menor que ela seja. Existe alguma emergência concreta que justifique a aquisição de um novo produto? Há outros utensílios em casa que podem atender às mesmas necessidades de forma equivalente? É o momento apropriado para um sumpto? Os benefícios acarretados pelo item serão maiores que as expensas? Tais observações são absolutamente imprescindíveis, contudo é uma simples minoria que leva esses princípios em consideração.

De um modo geral, a sociedade brasileira é extremamente forçada ao consumo intenso em diversos paradigmas. Sendo assim, é muito difícil conduzir a vida de uma maneira serena, utilizando apenas o essencial e com responsabilidade. Tamanho desafio é medrado na semana do Natal, uma vez que as propagandas mercadológicas estimulam fervorosamente que o universo inteiro seja mais negociado que o habitual.

A indução ao consumismo torpe e imponderado é, na maior parte dos casos, latente. Também há um vício sociocultural residindo nas camadas do silêncio praticamente afásico com o intuito de constranger todos aqueles que decidiram não seguir os padrões estabelecidos pela corrente dominante, o que inclui renunciar às compras supérfluas. Já os reféns do sistema terminam acreditando, por exemplo, que as vestes não devem ser repetidas porque a mídia determinou que isso é errado; que o automóvel fora de linha é sinal de fracasso; que é deselegante não presentear vizinhos e familiares que esquecem inúmeras datas comemorativas sem arrependimento. Em resumo, aproveitar os objetos até o limite e substituí-los unicamente quando já não se pode fazer bom uso dos mesmos é sinônimo de mesquinharia e indigência para os brasileiros comuns.

Em função dos caminhos escolhidos para um bem viver sem laços com o materialismo financeiro, os julgamentos que alguns — ou muitos — entes queridos possivelmente farão a respeito disso, serão piores que os rótulos ligados à avareza. Desenvolver a proficuidade eutímica é indispensável na filtragem de comentários relativos a este tema; sobretudo os deletérios. A partir do momento que um costume tão difundido nacionalmente é retirado das tarefas cotidianas, é provável que sensações de vazio existencial acabem surgindo, dado que as chances de exclusão dos mais variados círculos institucionais e de pessoas se expandem bastante. Afinal, quem gostaria de estar próximo dos que não têm “espírito natalino” em uma sociedade que classifica isso como perversidade e heresia?

As emoções precisam estar completamente alinhadas com a aptidão intelectual — o que engloba o raciocínio lógico e o conhecimento objetivo — para que as críticas torrenciais não deformem o quadro intrapessoal de valores opostos ao senso comum; do contrário, a individualidade é pulverizada e o curral humano obtém mais um servo no renque dos consumistas irracionais, que será mentalmente impelido a frequentar uma multitude de lojas em busca de três ou sete artefatos inúteis que logo se juntarão aos dezoito ou quarenta e nove esquecidos nas últimas gavetas do armário e que, cedo ou tarde, acabarão nas pilhas de lixo dos aterros sanitários. Vale frisar que as divícias monetárias perdem o significado quando os recursos naturais são limitados e o espaço físico do planeta já não comporta tanto descarte material. É simplesmente impossível consumir em demasia sem prejudicar o meio-ambiente.

Todavia, é inegável que o ato de receber presentes causam frêmitos radiantes no coração dos que apreciam a gratitude. Em tempos umbríferos como estes, os livros são as melhores lembranças para qualquer faixa etária, pois eles oferecem informações ao invés de roubá-las. A leitura permite que novos universos sejam conhecidos e explorados, com diferentes acepções que produzem fundamentos sobre uma gama de assuntos distintos. Realizar pesquisas independentes é tão lúdico quanto jogar videogames ou brincar com figuras de ação, e as duas atividades recreativas mencionadas antes da vírgula intercorrem mais por conta da vontade estrambólica de consumir até o inexistente do que pelo escopo da aprendizagem.

O que realmente deveria preocupar a sociedade brasileira, que adora bradar elementos morais do cristianismo, é que o nascimento de Jesus Cristo é o verdadeiro símbolo do Natal; o materialismo fiduciário abjeto, que envenena tudo ao priorizar despesas e ambições somíticas, é totalmente incompatível com as orientações bíblicas. Reconhecer isso não é maldade ou voto de pobreza, mas sim a exposição integral dos fatos! Os consumistas não possuem lições úteis para ensinar aos demais.

O Brasil é uma das nações mais desiguais da Terra, com taxas de juros hiperbólicas e inflação sobre custos. Em suma, contrair dívidas perpétuas neste lugar é tido como algo normal. Onde está a bondade cristã nisso? Jesus ordenou a escravização do povo através de débitos frívolos? Isso é submissão ao poder financeiro! Defender essa imundície não passa de mera distorção etimológica e hipocrisia lacônica.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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