Fernando Pinto, um gênio inesquecível

Fernando Pinto é um artista que imprimiu sua marca na folia e criou sua própria estética em desfiles marcantes e inesquecíveis

Alguns carnavalescos fizeram história no rastro das grandes transformações que o desfile das escolas de samba sofreu a partir dos anos 60. Entre eles, um pernambucano chamado Carlos Fernando Ferreira Pinto, que emerge em 1971, no Império Serrano, com o enredo “Nordeste, seu povo, seu canto, sua gente “.

Em 1972 conquista o campeonato com uma célebre homenagem, que fez a verde e branca de Madureira levantar a avenida com o seu “Alô, alô, taí Carmem Miranda”, lembrado e cantado até hoje.

Cenógrafo, figurinista e diretor teatral, participou da primeira montagem de Ópera do Malandro, de Chico Buarque, além de ter integrado o grupo Dzi Croquettes. Também se aventurou como cantor e chegou a lançar um disco, “Estrelas “, em 1986.

No Império Serrano fez ainda outros carnavais memoráveis, como “Viagem encantada Pindorama adentro”, em 1973, “Dona Santa Rainha do Maracatu”, em 1974, “Zaquia Jorge, a vedete do subúrbio”, em 1975 e “A lenda da sereia, rainha do mar “, em 1976. A temática essencialmente brasileira aliada a uma estética que procurava ressaltar esse aspecto, fez com que Fernando criasse sua própria linguagem carnavalesca.

Na década de 80, na Mocidade Independente de Padre Miguel, ele definitivamente estabelece o seu tropicalismo. Finca seu nome na história em desfiles como “Tropicália Maravilha “, em 1980, “Como era verde o meu Xingu”, em 1983 e “Mamãe eu quero Manaus”, em 1984.

Em 1985, quando a Mocidade pisou a avenida já sob um sol escaldante de uma manhã carioca de verão, não houve quem não se encantasse. “Ziriguidum 2001, um carnaval nas estrelas ” era uma projeção do artista de um desfile de ficção científica. Os versos iniciais do samba resumem um pouco a história: “Desse mundo louco / de tudo um pouco / eu vou levar pra 2001 / avançar no tempo/ e nas estrelas fazer meu ziriguidum…” A comissão de frente era formada por astronautas sambistas, o imenso abre alas era uma nave prateada, onde mulatas esculturais sambavam com fantasias futuristas. A escola saiu da avenida ovacionada e o resultado não foi outro, conquistando o título de campeã.

Mas foi em 1987 que a história registra uma das maiores injustiças no resultado do julgamento dos desfiles. É quando Fernando Pinto assina sua obra prima definitiva. Seu “Tupinicópolis” foi vice-campeão, perdendo para a Mangueira que homenageou Carlos Drummond de Andrade. Com toda reverência ao poeta, a cidade indígena da Mocidade foi muito superior ao desfile verde e rosa. Tanto que todos lembram muito mais do shopping boitatá, da boate saci, do pó de guaraná e as demais loucuras tupis guaranis imaginadas pelo genial artista tropicalista.

Fernando Pinto morreu muito jovem, aos 42 anos. Na madrugada de 29 de novembro de 1987, seu carro bateu contra a mureta da Avenida Brasil, quando retornava do ensaio da Mocidade.

Em 1988, a escola ainda desfilou com um enredo seu, “Bye, Bye Brasil, beijim, beijim”, que já estava todo preparado por ele. Mas a ausência do artista ofuscou o desfile. Sua falta é sentida até hoje.

Fernando Pinto marcou época no samba do Rio de Janeiro

Por

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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