Feliz Ano-novo?! É…tomara que sim

Faltam apenas quatro dias para que o ano de 2019 se finde. É o limiar dos “Anos 20” do quinto século do calendário gregoriano. Todavia, o Brasil parece amarrado ao período da invasão lusitana de 1500.

Para que haja uma verdadeira expansão da qualidade de vida e desenvolvimento econômico nacional, é preciso combater as desigualdades sociais com brio e rigidez. Isso exige que as verbas públicas sejam utilizadas de forma coerente — tanto pelos vértices da razão quanto pelas margens da legalidade —, bem como deve haver a minimização do desperdício; da burocracia supérflua e do abandono premeditado e inconsequente.

Todos os pontos mencionados são conceitos fundamentais e imanentes. Sendo assim, os brasileiros que se preocupam com a investigação dos fatos compreendem os eventos atuais do país sem muitas dificuldades.

É nítido que o Brasil atravessa uma fase de turbulência cáustica há décadas, com o preço dos itens e serviços básicos se multiplicando e o poder real dos salários decaindo bruscamente. O alastramento da vassalagem moral também é constatada, já que a população vem implorando pela extinção de seus direitos adquiridos mediante os esforços do passado. A degradação da ética linear faz parte do mesmo obstáculo.

A falácia da prosperidade via servilismo de mercado é uma das principais calamidades do Século XXI, pois introduziu a crença de que a dignidade humana é sinônimo de consumo irrefletido. Esse devaneio simboliza o período contemporâneo de maneira impecável, onde os problemas que emergem violentamente nos quadros da educação e justiça resultam em carências extremas —inclusive afetivas e transcendentais.

Desde o fim dos Acordos de Bretton Woods que a cultura da nação brasileira é controlada por diretrizes que buscam intensificar a supremacia dos grupos financeiros. Essa distorção é verificada em uma gama de esferas da sociedade, como a política; a econômica; a jurídica; a educacional e a religiosa. Isso foi brutalmente amplificado nesses tempos líquidos de redes (antis)sociais, onde é possível saber o custo monetário de tudo sem precisar conhecer o valor de nada.

O próprio alento material, copiosamente idolatrado nos últimos anos, se revelou incapaz de providenciar a tão sonhada felicidade coletiva. A semântica deste insucesso reside nas mesmas linhas que obstruíram o funcionamento do bem-estar social, dado que as condições basilares para o seu desempenho foram trituradas. Exemplos são as modernas conexões fraternais, alojando relacionamentos plásticos e vulneráveis entre familiares e amigos. Isso tem dissolvido a esperança de que melhorias legítimas ainda podem ser efetuadas na sociedade brasileira, tal como deprecia as habilidades intelectuais; a dimensão de raciocínio e, por conseguinte, o entendimento da realidade inserida.

Uma vez que ninguém combata aquilo que simule inofensibilidade ou surrealismo, a manipulação do imperativo nacional seguirá ocorrendo de um modo cada vez mais fácil e pestífero. É impossível negar que a escassez de referências científicas e eruditas guardam vínculos com o incremento das adversidades no país, como a erosão social motivada pela epidemia da violência difusa através dos narcóticos. A turgidez da ingratidão, da malevolência, do desafeto e de tantas outras calamidades que incorrem Brasil afora está rigorosamente justaposta à mesma displicência ostensiva para com a ética e o conhecimento.

Assim como as belas-artes conservam ligações inflexíveis com a estética, o diálogo e a gentileza são, por via de regra, elementos intrínsecos ao bom convívio entre as pessoas. O significado da palavra “cidadania” é o que define essa confraternização de uma forma abrangente e excepcionalmente justa. Aliás, é válido ressaltar que isso é o respaldo do famoso contrato social; que impõe determinadas leis em todos os locais que contenham interações societárias. O cidadão autêntico, repletamente original, é consciente de seus direitos e obrigações — e também identifica as prerrogativas e deveres alheios com a maior retidão — em virtude da anuência com os procedimentos diretos, sejam teóricos ou práticos. O civismo meticulosamente aplicado é a única ferramenta que irá disponibilizar chances ao Brasil de otimizar o bem comum. Liberdade sem responsabilidade é utopia.

Agora, o que pensar das intempéries que acometem o país? O escárnio com os preceitos nacionais? O comportamento de massa e o abstracionismo que este produz? A desconfiança tóxica que acaba incidindo sobre o futuro da sociedade? Essas maldições representam o prisma ordinário da globalização e constituem no desvio primário da organização do Brasil em diversos setores. Isto posto, quais ações seriam as mais prudentes a fim de resolver tamanha perturbação? Como orientá-las sem ignorar os potenciais ensejos e contrastes que elas retêm? Tantos fatores evocam um número de questionamentos infinitamente superior às respostas que poderiam surgir. Contudo, é indiscutível que proporcionam uma vasta atmosfera de ideias; que necessitam de um refinamento permanente, com debates e experimentos que procurem retirar os brasileiros do limbo.

Isso é, sem dúvida, uma tarefa para os que se declaram nacionalistas. Restam a estes cidadãos planejar mobilizações com objetivos honestos e absolutamente livres da crença pueril que dissemina a “falácia do salvador da pátria”, onde o resgate proposto é aguardar que um hierofante glorificado irrompa subitamente do éter e reduza o mal a cinzas. Também não é saudável esperar que os infradotados ofereçam ajuda, tampouco considerar as interpretações equivocadas destes acerca do conteúdo falado ou escrito e atividades realizadas pelos defensores da soberania do território e da autodeterminação do povo.

De qualquer forma, o correto a se fazer nestas circunstâncias hodiernas é não se precipitar em responder uma só questão relativa à toda essa problemática nacional, e isso não sugere que tais dilemas são intransponíveis ou que não passam de ilusões forjadas por meia dúzia de subversivos. Portanto, que os brasileiros inquietos com o destino da pátria lutem na tentativa de restaurar os laços sociais. Quem enfrenta o vendaval é inquestionavelmente feliz; no âmago, pois vive de acordo com os lampejos da própria alma.

Se alguma iluminação análoga cruzar o rumo da sociedade brasileira em 2020, o ano será efetivamente novo. Do contrário, a espoliação nacional irá prosseguir.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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