Amigos secretos? Fuja, ame ou cale-se para sempre

Fim de ano, peru na mesa, batatas assadas, farofa fria, Coca-Cola quente, panetone seco. Já chegou o Natal?

Antigamente aqui em casa tínhamos ao menos quatro Natais: um na casa da minha sogra uma semana antes, um na minha mãe à noite da ceia, um na casa da minha avó no dia seguinte, um outro dia seguinte ao da minha avó na casa do meu sogro. Ainda bem que não existia ainda essa coisa de amigo secreto em casa, eu iria falir antes do começo de dezembro.

Um amigo secreto na nossa família não iria dar certo. Talvez colasse por um ou dois segundos, até que todos soubessem tudo de todos. Assim era na Páscoa, assim eram as cartas do jogos que a gente fazia. Todos sabiam todas as cartas. Todas. Com o amigo secreto não ia ser diferente.

Dizem que essa tradição surgiu há muito tempo, na Grécia antiga, quando os gregos presenteavam pessoas influentes escolhidas aleatoriamente em algumas datas festivas. Outros dizem que a tradição surgiu por volta do século XVIII, pelos povos nórdicos que trocavam presentes para celebrar o pacto com deuses. Eu ainda digo que quem criou essa tradição jamais pensou que iria colar tanto e que viria cair aqui nas graças do brasileiro, que se aproveitam de sua (p)nobreza pra gastar menos. E, claro, para servir de deixa para terminar o ano com classe. Justo.

Eu, particularmente, vejo o amigo secreto em família como uma brincadeira de fim de ano, mas nas firmas, no fim de ano, acho meio temeroso, já que você é meio obrigado a dar um presente pra quem não conhece a fundo. E, se conhece, tem que dar um presente com um valor específico. E gostar, mesmo odiando. Oras, como você vai medir o tamanho da amizade pelo valor? Não é certo e é desgastante. Shrek tinha razão, afinal.

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Nem sempre o segredo é segredo. Mas tá valendo.

Num desses amigos secretos que participei, um dos últimos, meu amigo secreto era tão secreto que não fez nada além de me deixar chocada com o presente que recebi. A “brincadeira” começava assim: vendavam os seus olhos e você tinha que descobrir o que era. Assim todos os outros fizeram e ganharam camisetas, brincos, chocolates e tal. Aí chegou a minha vez. Vendaram meus olhos – o que odeio, tive que passar o dedo no meu superpresente, supercriativo, afinal era uma agência de publicidade, todos têm que ser megacriativos e tal.

Notei que era uma coisa nojenta, gelada e jamais imaginei o que viria na sequência. Era uma língua de boi! Alguém estava louco ou sou eu que não entendi a “sacadinha”? Ok, eu era apenas a revisora, mexia com a língua, a portuguesa. E só. A língua daquele boi me deu a entender que a senhora mãe daquele garoto deveria ensiná-lo a falar em português para poder conversar com os outros e não na sua língua materna.

Língua bovina nunca entrou no meu cardápio de traduções e/ou revisões. Muito menos na minha dieta. Pegou mal. Encruou aquela noite que era pra fechar o ano. Ele poderia até ter dado uma desculpa esfarrapada, dizendo que o seu intuito enquanto amigo secreto é o de fazer como os nórdicos faziam, sacanas que sempre foram, fazendo com que essa bobeira toda de língua não fosse tão imbecil como foi. Mas o garoto era baiano, não dá pra confundir Odin com Oxum.

Desde então, faço amigo secreto, às vezes e só em casa, onde todos se conhecem e sabem do que gostam ou cabem. E em casa você até pode dar uma coisa menos normal, mais inusitada, com a certeza de que não será nenhuma peça bovina ou algo do gênero. O fato é que, por essas trapalhadas e outras ainda piores, não sou adepta do amigo secreto da firrma (com dois r mesmo), sou adepta dessa combinação em casa, na família ou em lugares onde todos se conheçam além-mesa de trabalho. Num bar, por exemplo. Ou num churrasco. O fato é que, ainda mais hoje em dia, amigo secreto é até uma maneira de comprarmos só um presente, assim a conta fecha sem medo. Todos se divertem e o bar garante uma saideira com um gran finale e seguimos até o Réveillon, sem papas na língua.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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