Eu também quero beijar!

João Alves de Moura, ganhou o apelido da imprensa de "Beijoqueiro" por sair por aí beijando as pessoas como forma de carinho

Mais uma semana em que vivemos num mundo onde o amanhã é uma incógnita, incerto e até assustador devido a tantos fatores que nos fogem o poder, resolvi escrever sobre o amor. E no sentido amplo da palavra, uma vez que ele se mostra de várias formas e facetas.

Venho hoje falar sobre uma personagem um tanto inusitada e ao mesmo templo folclórica e amável, estou falando de José Alves de Moura ou simplesmente, O Beijoqueiro. Alguns achavam “fofo”, outros nem tanto. O fato é que se voltássemos a beijar por excesso de amor, fatalmente estaríamos vivendo num mundo bem melhor.

Beijar nunca foi crime

Nascido em Portugal, em 1940, veio aos 17 anos para o Brasil, uns dizem que para “tentar a sorte” e outros para fugir do serviço militar. Por aqui foi de tudo um pouco, trabalhou como taxista, comerciante e até empresário de futebol. Segundo seu próprio irmão, Francisco, passou boa parte de sua vida em consultórios psiquiátricos, devido a uma agressão que sofreu em um assalto. Diante de uma introdução dessas podemos imaginar o quão interessante foi a vida desse “serial kisser”, (beijador em série) apelido dado pelo cineasta Carlos Nader em 1992 por conta de um documentário que ele produziu.

Morava em São Cristóvão e vivia no Maracanã a fim de chegar perto de seus ídolos e beijá-los. Mas tudo começou lá atrás em 1980, durante o show do Frank Sinatra no Maracanã, quando ele conseguiu furar a segurança e subiu no placo e deu-lhe o que seria o seu primeiro beijo em celebridades. O ato virou notícia aqui e nos EUA e logo estava ele “famoso” por beijar o “The Voice”. Em seguida conseguiu beijar também o então cantor Paulo Sérgio, um dos maiores cantores românticos do país. Começava ali a sua saga por beijar o maior número possível de pessoas famosas por quem tinha carinho.

A Voz e O Beijo

Dizem que tudo começou com um desafio de alguns amigos que não acreditariam que ele subiria ao placo do Frank Sinatra e o beijaria. Pelo visto estavam todos errados. E assim começava a história de “O beijoqueiro”. Engana-se quem pensa que ele só se importava em beijar celebridades, muitas vezes ele saía atrás e beijava pessoas comuns. Eu mesmo já fui beijado carinhosamente por ele quando era jovem e estava próximo ao Campo de São Cristóvão. Numa rápida aparição, ele chegou perto de um grupo que estava comigo e deu um beijo na face de cada um de nós carinhosamente. Fato esse que está guardado em minha memória afetiva de uma época em que mais valia um beijo que uma agressão.

Figura conhecida na cidade do Rio de Janeiro e que faz parte do folclore carioca. Simpático e amável, o Beijoqueiro tem um catálogo de centenas de “beijados” entre anônimos e personalidades. Entre alguns dos agraciados com seus beijos estão: Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Chico Buarque, Caetano Veloso e Tony Bennet. O mundo do esporte também tem seus agraciados, entre eles estão: Roberto Dinamite, Biro Biro, Garrincha, Romário, Obina, Falcão e Zico. Certa vez foi agredido e levado à delegacia e o juiz Mayrino da Costa o libertou e disse: “Beijar não é crime. Quem dera se todos os delinquentes do Brasil trocassem suas armas por beijos”.

Nem a centenária Dercy
deixou de ser beijada Crédito:FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/

Artistas e políticos também eram alvos certos do Beijoqueiro, não faltou beijos para os ex-presidentes Itamar Franco e João Batista de Figueiredo, ex-primeiras-damas Sara Kubitschek e Dulce, as ex-misses Brasil Natália Guimarães e Martha Rocha e a atriz Juliana Paes. Suas últimas aparições foram entre 2007 e 2008 e conseguiu beijar seus eleitos, Oscar Schmidt e Dercy Gonçalves durante a comemoração de seus cem anos e a jogadora de futebol Martha. Ufa! Quantas pessoas firam beijadas carinhosamente por José Alves de Moura. Sua kiss list é enorme e até hoje é assunto.

A cidade do Rio de Janeiro traz em sua história muita riqueza de personagens que nem sempre são nativos, mas com certeza aprenderam a amar e viver na cidade maravilhosa. Sua vidas são carregadas de emoção e não podem ser deixadas de lado. Reviver e alimentar cada uma delas é trazer de volta a “carioquice” que anda faltando por aqui. O Rio já foi mais romântico e já teve pessoas que com sua simplicidade trouxeram a alegria que o carioca anda sentindo falta nos tempos atuais. Ainda podemos resgatar a brejeirice e o jeito carioca de ser, não custa nada, basta sorrir e acreditar que só depende de nós para o Rio de Janeiro voltar a sorrir. Sim, de nós, pois quem dita as regras é o povo. O povo pode acordar e abrir a janela e sorrir na esperança de que ele pode mudar.

Precisamos de mais Beijoqueiros e menos agressividade. Quando entendermos exatamente o que faz um povo feliz, teremos enfim, aprendido a lição. Deixei para o final o beijo mais importante que ele pode dar. Foi difícil, pois na sua cidade ele foi proibido de dar, mas conseguiu depois de várias tentativas em diversas outras cidades, enfim, em Manaus deu 17 beijos nos pés do Papa João Paulo II. João Alves Moura apanhou várias vezes por desejar beijar as pessoas que ele tinha apreço. Verdade que nem sempre estamos aptos para receber beijos de estranhos, mas ele só queria mostrar seu carinho com essas pessoas. No mundo de hoje faltam beijoqueiros e sobra falta de amor ao próximo. Então vamos beijar!

Por

alexandre.mauro@oestadorj.com.br

Jornalista e comentarista esportivo. Moro em Niterói há 22 anos. Fã de cultura e esportes. Ex-editor em jornais na cidade do Rio de Janeiro. Atualmente me dedico à interatividade cultural. Acredito na importância da divulgação por todos os meios da cultura nesse país.

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