Estolidez não tem graça

O vício de transformar e resumir praticamente tudo em piadas e chacotas — especialmente as questões de maior gravidade e importância — jamais deve ser taxado como parte da “alegria do povo brasileiro”. Isso não passa de um claro sinal de completa imaturidade coletiva somada à incapacidade de enfrentar e resolver os problemas.

É válido ironizar algumas situações quando a sátira atenua os contratempos. Na verdade, isso faz bem porque diminui as tensões. Porém, se tal subterfúgio for utilizado a fim de ignorar as obrigações, o resultado será catastrófico! E os brasileiros não estão sorrindo por conta da felicidade, mas sim por uma miríade de propagandas consumistas e bestificantes feitas de maneira simultânea e constante por todos os instrumentos da grande mídia. Em geral, sua vidas são horríveis e marcadas por inúmeras desgraças: não é por acaso que os índices de diversos transtornos psicológicos e o uso de entorpecentes se multiplicam absurdamente por todo o país. Eles acabam dando risada visto que não existe outra opção; zombam do que está errado pois não têm o mínimo de noção a respeito da própria realidade na qual estão inseridos.

Esse tipo de animação irrefletida é simplesmente uma artimanha do sistema neoliberal para manter a sociedade controlada e apática diante dos piores acontecimentos possíveis. Sendo assim, a “ditadura do riso” foi concebida: as instituições não funcionam (ou operam com uma deficiência brutal); a qualidade de vida é deplorável; o ritmo de trabalho é desgastante e os salários são baixíssimos; os direitos são mínimos (isso quando são respeitados); a política e a justiça não passam de uma peça de teatro medíocre; a carga tributária é excessiva por conta do retorno ser ínfimo; a violência é aterradora; a educação é lastimável em todas as suas esferas; a infraestrutura é falida… mas, e daí? Quem se importa com isso quando se (sobre)vive no “lugar mais feliz da Terra”? Não acha graça dessa loucura? Então você é um antiquado!

A imagem do “país mais alegre do mundo” precisa ser desfeita com urgência, dado que não passa de uma pintura artificial por cima de uma parede com a estrutura inteiramente abalada. Promovê-la é até mesmo falta de empatia com o povo brasileiro.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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