Então me diga, se você ainda gosta de mim

Escutar rádio da asas à inspiração

Sou uma pessoa musical. Não que eu cante, o que poderia, mas essas opções foram raras no meu crescimento. Cantava em coral, fazia repique de bateria na fanfarra da escola e me meto onde posso pra tocar um violão, um piano ou qualquer coisa que emita som. Pois sou assim tão musical que não me vejo fazendo qualquer coisa sem um som.

E, por ser “das antigas”, tenho uma predileção por rádio. Rádio sim, daqueles que você escolhe uma estação e se torna dona dela. Quando a rádio preferida muda alguma coisa, algum programa novo ou se não vai mais tocar a partir daquele programa que você amava, eu estranho. Tenho isso desde a minha primeira infância, quando tinha insônias de domingo, quando minha mãe mandava a gente ir dormir quando o fantástico acabava. Eram 22h e eu não tinha o mínimo sono.

Meu terror pessoal. Enquanto todos dormiam, menos eu, minha irmã deixava o radinho dela tocando bem baixinho, o que me acalentava até sei lá que horas, com as mesmas músicas da madrugada. Isso fez do rádio meu confidente, aquele que me entendia, mesmo tocando sempre a mesma porcaria de música do Guilherme Arantes que eu optei por detestar na época. Nada contra o “Êxtase” do Guilherme Arantes, música linda, mas que foi minha algoz durante algum tempo. “Eu nem sonhava/Te amar desse jeito/Hoje nasceu novo sol/No meu peito”. Essa letra me assombrava todas as madrugadas insones. O sol não nascia no meu peito e eu nem sabia o que era amar.

Bons e velhos tempos em que se gravavam fitas K7 de péssima qualidade. E ficávamos felizes com o chiado

E a vida seguiu, sempre escutando noticias nas rádios, músicas durante o dia e à noite ficava esperando novas músicas, que raramente vinham. Ou nunca aconteciam. Sempre as mesmas. Cresci, como o esperado, minhas opções musicais se esmeraram, os LPs que apareciam e o rock sempre estava ao meu lado. Tocava na vitrola aquele LP (bons anos aqueles…), mas eu preferia esperar para ouvi-las no rádio, nas duas estações de FM que existiam. Uau, como isso faz tempo, nem me dei conta que tracei uma linha do meu tempo do século passado!!

Enfim, depois de muitos anos, apareceu aquela que seria minha rádio preferida, a que tinha o gosto musical parecido com o meu, com apresentadores incríveis. Isso já foi lá pelos idos de 1980 e poucos. A música no rádio é especial, sem playlist, sem escolher, o que é uma delícia quando você ouve aquela surpresa musical. Apresentadores e apresentadoras preferidas, algumas que acabavam virando referência, como a Rose de Oliveira e sua voz incrível. Antes mesmo de termos esses links cibernéticos, nos comunicávamos por email, trocando grupos e títulos de bandas.

Obviamente que o repertório dela sempre foi inalcançável, mas trocávamos figurinhas e estilos. Saiu da minha rádio preferida, mas nunca do meu respeito como apresentadora de playlists deliciosas das minhas manhãs. Tem também aquela memória de programas semanais, de Blues, às vezes Jazz e quase sempre Rock e todas as suas vertentes. Há pouco tempo atrás, me rendi às músicas brasileiras, porém muito pouco, meu “paladar musical” é meio às avessas.

Ano passado, me surpreendi ao ouvir uma entrevista do Odair José na mesma rádio e perdi aquele ranço dele, quando soube que a palavra ‘brega’ que tanto falam, era uma gíria baiana que significava ‘puteiro’, o que o Odair fazia questão de cantar para provocar as mocinhas pudicas. Já perdi a birra dele por causa dessa atitude e de saber que ele é roqueiro e gostei! Ponto pra ele! Logo depois, ouvi a Elza Maria com “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Gostei, mas não cantei. Ainda. Tenho um pouco de medo dela.

Agora não temos mais radinhos de pilha, mas temos pilhas de músicas intermináveis que cabem num celular e em qualquer lugar do planeta. Pode escutar, não dói nada e é quase de graça. E, de quebra, seus dias ficam mais leves e suas noites insones muito bem acompanhadas. A rádio faz com que você viaje, dance de madrugada, perca o sono de amor. E sem a Voz do Brasil.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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