Editora tradicional vs editora sob demanda

E os autores, como ficam nessa história?

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Quando o assunto é publicação de livros no Brasil, duas formas são as principais no mercado: as editoras tradicionais e as sob demanda. A editora tradicional não faz propriamente uma análise de qualidade, mas publica “o que é válido para seu selo”, como observa o consultor em publicações Marcelo Paschoalin, autor de ‘A Última Dama de Fogo’ e ‘Eriana – Filha da Morte e Vida’. Já a sob demanda é paga pelos autores para publicar, mas não trata-se de uma gráfica, pois ao se denominar editora, precisa disponibilizar o mínimo de qualidade em suas publicações.

Difícil para os autores é saber quem é quem em meio a tantas editoras novas, o que em alguns casos mistura publicações tradicionais e sob demanda. Algumas buscam se destacar em uma dada área ou mesmo na busca de autores com um diferencial, como é o caso da Editora Ornitorrinco, a qual foi fundada por Alícia Azevedo e Henrique de Lima, editores que são apaixonados por livros. “Queremos ficção histórica e não-ficção, queremos poesias e infantis, queremos acadêmicos e graphic novels. Queremos montar um catálogo variado e sempre surpreendente”, declaram Alícia e Henrique.

Quanto a qualidade das publicações tradicionais e sob demanda, os editores da Ornitorrinco declaram que não é uma tiragem tradicional ou sob demanda que vai influenciar o tipo de publicação. “A tiragem sob demanda facilitou em muito as publicações, principalmente de novos autores, tanto as boas quanto as ruins”, informa Henrique, se referindo aos autores que vieram de publicações independentes, como André Vianco e Eduardo Spohr, que se tornaram best-sellers a partir de publicações pagas do próprio bolso.

O professor  Dio Costa, pós-graduado em literatura brasileira e também poeta e músico, fala que as publicações possuem várias esferas e que refletem seu público que, por sua vez, espelha a qualidade, ou a falta dela. “Muitas das obras que surgem e que tem dominado o mercado demonstram uma preocupação maior com o público atual”, comenta. “Tais publicações atendem às expectativas da sua época, sendo uma mercadoria viável e vendável, aceita pelo público e, consequentemente, lucrativa. O que não quer dizer que não exista algo de clássico. Isso porque algumas obras atuais possuem o clássico nas entrelinhas”, reflete.

Qualidade das publicações

“O bom livro é um paradoxo,” declara o professor com formação em Letras, Igor Ferreira. “Pode ser aquele que dialoga com o leitor, complementa seu universo, reflete seu mundo particular e psicológico, aquele que encanta.” Já Dio Costa afirma que dizer que os clássicos são ‘a verdadeira literatura’ é algo extremo, pois um clássico “nada mais é do que aquela obra já considerada antiga, mas que possui alguma característica reconhecida e aceita na atualidade”. O professor também destaca que podem servir de estudos para outras áreas, como a História, mas são os traços atemporais que mostram a força da obra.

Quanto à crítica especializada em uma determinada área da literatura ou em textos de um autor, o bom livro pode ser aquele que leva o leitor a compreender universos desconhecidos ao alçar mais que o idioma, seguindo a outro patamar de compreensão. “Gosto da expressão: Machado convence, mas não encanta. José de Alencar encanta, mas não convence. Ambos são geniais e grandes nomes da literatura do século XIX.”, comentou Igor.

Em relação à qualidade das publicações, quanto à fama das editoras sob demanda de publicarem “livro de qualidade inferior”, enquanto muitos livros de conteúdo duvidoso são publicados pelas grandes editoras tradicionais, só por serem de alguém famoso, Igor Ferreira, também formado em cinema e produtor teatral, fala que o mundo consumidor ainda precisa de um selo de aprovação, para consumir. “Isso não só acontece na literatura, mas também na música, no teatro, nos programas de televisão. Alguém precisa dizer que é bom e assinar em baixo”, afirma Igor.

Isso acontece por muitos precisarem seguir modelos e regras prontas, não por algo ser propriamente bom ou ruim. No entanto, a maioria dos críticos se limita a uma área e muitos ignoram o progresso das artes, a um ponto de enquadrar tudo nos padrões de seu limitado conhecimento, ignorando diferenças de estilos e gêneros. O resultado são críticas pobres e duvidosas, algumas até agressivas, pois o que não agrada o crítico passa a ser atacado, estigmatizado de forma pejorativa.

O escritor e editor Edson Rossatto, um dos fundadores da editora Andross, que publica somente antologias literárias com o objetivo de apoiar e divulgar principalmente os novos autores, declara:“  se um autor acredita no próprio trabalho deve batalhar por ele, pois não há ninguém melhor para bancar a própria publicação e buscar assim a atenção de editoras”, comenta.

E a qualidade, como fica?

Em relação à qualidade das publicações, Edson Rossatto fala que não depende da editora ser tradicional ou sob demanda. “O que acontece é que o tipo de publicação varia de acordo com quem é o dono do dinheiro: o editor ou o autor. Um editor avalia mais o risco do investimento, logo apostará em temas que possuem maior possibilidade de retorno financeiro. Consequentemente, poderá publicar sempre temas recorrentes. Já o autor poderá publicar histórias com maior variação e cair nas graças do sucesso, por publicar uma história inovadora, ou poderá fracassar, exatamente pelo motivo de publicar uma história improvável para o momento”, ressalta Edson.

 

O autor Richard Diegues, também editor, começou a escrever ainda na adolescência e sentia falta de editoras mais especializadas, no caso, em literatura fantástica. Por isso fundou a Tarja Editorial, que publica exclusivamente literatura fantástica. A editora é reconhecida em países de língua portuguesa, como Portugal, onde possui uma parceria com o Fantasporto (Festival Internacional de Cinema do Porto, com foco no cinema fantástico), O que gerou uma antologia.

A Tarja é tradicional, mas o autor e editor não vê problema em relação às sob demanda, pois começou como autor independente e isso rendeu-lhe bons frutos. “Obviamente eu aprovo esse tipo de trabalho, mas o autor tem que ter em mente dois pontos quando parte para a publicação: fazer isso por amor ao seu trabalho e saber que o livro é a primeira ponta do iceberg”, afirma.

Richard Diegues fala da importância de um texto passar por um corpo editorial, com uma boa leitura crítica, antes de ser entregue para o público, pois difere enormemente de um livro que não passa por um trabalho editorial. Porém ressaltar que o fato de um livro passar por uma editora, não quer dizer que tenha qualidade, porque tudo depende da dedicação de cada uma.

Em sumo, a editora da Ornitorrinco conclui bem a questão ao dizer, não só em relação ao tipo de publicação, mas quanto a questão do direcionamento de público: “Livros são livros e literatura é literatura. Cada livro tem seu propósito e seu público, não vejo razão para uma discriminação existir”, afirma Alícia Azevedo.

 

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