É rabo ou cauda? Tanto faz, é só abanar

A felicidade está intimamente ligada ao rabo dos cães. Que nunca percam o direito de abanar o tempo todo

Como não poderia deixar de ser, essa semana recebi uma missão, uma das melhores da vida: abrigar a cadelinha da minha sogra/mãe e cunhada/irmã, pois uma mudança para um lugar menor, sobrecarregaria demais, tanto as humanas como a quase humana.

Veio para minha casa, num terrenão enorme, tudo de acordo com a velocidade da mocinha. Seu rabo já a denunciava: vira-lata pura. Manchinha branca no peito, aquele rabo em formato de gancho. Tipicamente vira-lata, sem raça definida, fura-saco. Preta, nega, zulu, qualquer um deles serve para ela, sem ofensas raciais, sem frescura. Por aqui, só carinho.

E o rabo com cara de gancho já nos diz como está o humor de hoje: abanando freneticamente para todos os lados, ininterruptamente mostra que a cadelinha está muito, muito, muuuuuito feliz. Ou com uma coceira danada nas partes baixas.

O meu outro, o Barbosa, tem um tipo de abano de rabo peculiar: gira como uma hélice. E nunca assistiu um dia sequer ao Mutley na TV. Então, como sempre faço meu dever de casa, fui pesquisar só um pouquinho sobre os tipos de abano, de rabo, de cauda ou de cotoco. Me supreendi ao ver que cada abanada tem um sentido. Por exemplo: se a cauda se projeta para fora e o cão dá uma leve inclinada na cabeça, ele se sente ameaçado. Quando o cão está nessa posição e a sua cauda está balançando de frente para trás, é sinal que ele apenas está tentando impressionar o seu novo amigo. A posição de cauda enrolada e a boca aberta é um sinal que o cão está se sentindo ameaçado por algo ainda incerto. E por aí vai.

Como nunca temos tempo de sobra para avaliar se o rabo está pendendo levemente à esquerda, ou balançando freneticamente 16º a Leste, suponho que o rabo balançando é bom sinal e rabo no meio das pernas é sinal de alerta, afinal quem protege o fiofó não quer guerra, mas uma visitinha ao veterinário se faz necessária.

Depois disso, penso na moda idiota de cortar o rabo dos cachorros. Dizem que isso vem de um tempo em que o homem caçava e vivia no campo, em que os cachorros, sempre fiéis, mostravam onde estava a presa. Dessa forma, eles sempre machucavam o rabo. Sangrando, poderiam ficar com uma ferida aberta, infeccionar e até morrer. Vale lembrar que nessa época, não existiam açougues higiênicos o suficiente, tampouco freezer. Vá lá.

Ideiafix e seu rabinho feliz

Em outra linha de pesquisa, vi que a caudectomia (o corte do rabo, ou cauda, como queiram) surgiu na Roma Antiga, porque os pastores romanos acreditavam que retirar uma parte do rabo do cachorro em seu quadragésimo dia de vida prevenia a raiva. Raiva ficavam os cachorros, que deveriam ter o rabo cortado, sem anestesia, sem mertiolate, sem hipoglós, sem nada. E a raiva continuava pairando por ali. Esses romanos, viu…

O mundo mudou, as pessoas se civilizaram mais, os animais a cada dia são mais “humanizados”. Mas continuam tendo os rabos cortados. Isso deve ser uma autoafirmação de quem não sabe se impor, não tem voz de comando e não sabe organizar nem fila de pão. Algo bem característico de algumas partes do mundo: se não conseguir por bem, vai por mal mesmo.

Aos cachorros que são suscetíveis de perder o rabo, como o Dobermann, Rottweiler, Pitbull: minhas sinceras desculpas, minhas condolências e minha vergonha em fazer parte desse reino. À Anitta, Carla Perez, Geisy Arruda: já que fizeram tanto para deixar algo na memória alheia, vocês podiam fazer uma manifestação em favor dos rabos. A rainha da comissão seria a Gretchen, que fez tantos homens abanarem os seus próprios.

Em tempo, a minha nova herdeira é a vira-lata mais doce dos últimos tempos, com esse rabão helicoidal que roda a todo tempo, faça chuva ou faça sol. Tudo está em paz no reino dos com rabo. E que a moda dos sem dedo nunca vingue, para a felicidade geral da nação, a nossa.

Por

paula.toom@oestadorj.com.br

Jornalista, tradutora, revisora e redatora. Tem 3 cachorros, 3 gatos fixos e mais um monte ao seu redor. Cuida para que eles não sejam abandonados pelas sarjetas. É editora-chefe das colunas que você lê aqui.

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