E lá se vai o maior de todos

Há cerca de três anos, eu publicava aqui uma coluna sobre Laila, que morreu na semana passada, aos 78 anos, vítima de Covid

O texto foi escrito por ocasião de sua saída surpreendente da Beija Flor, agremiação onde reinou por 30 anos. Ele foi o maior diretor de Carnaval da história das escolas de samba. Um dos grandes responsáveis por tornar a festa “o maior espetáculo da Terra”, admirada no mundo todo. Republico esta coluna de 2018, como homenagem e para ressaltar a sua importância no mundo do samba. Segue abaixo.

A notícia mais surpreendente desses primeiros dias pós carnaval foi o fim do casamento entre a Beija Flor e seu diretor de carnaval, Laíla. Para se ter uma ideia do impacto desse acontecimento, dos 14 campeonatos conquistados pela escola nilopolitana, Laila esteve no comando em 13. Somente em 1983 ele não participou do titulo, no enredo “A grande constelação das estrelas negras”.

Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, como consta em certidão de nascimento, nasceu no morro do Salgueiro, na Tijuca, zona Norte do Rio. Ainda adolescente fundou a Independentes da Ladeira, uma escola de samba mirim. Na década de 1960 inicia sua trajetória, justamente quando o Salgueiro se consolida como grande escola de samba, aliando a estética de artistas oriundos da Escola de Belas Artes, como Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues, à vivência sambista de Laila.

Em 1965, em sua primeira conquista sozinha (antes tinha sido campeã em 60, mas num empate conturbado junto com outras quatro escolas)  a vermelha e branca ja contava com ele no posto de Diretor de Harmonia. E vieram mais quatro sob seu comando – 1969, 71, 74 e 75.

Em 1976, ele e Joãozinho Trinta,também oriundo do Salgueiro, chegam a Beija Flor e transformam a pequena agremiação de um pequeno município da Baixada Fluminense, numa das maiores e mais vencedoras escolas de samba do país. E logo emplacam um tricampeonato em 76, 77 e 78, desbancando então as quatro grandes – Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro, que dominavam os desfiles desde os primórdios.

Em 1980, ajuda a então pequena Unidos da Tijuca a ascender à elite, vencendo o segundo grupo com o enredo  “Coronel Delmiro Gouveia”, sobre o pioneiro empreendedor nordestino que construiu a usina de Paulo Afonso. No ano seguinte opta por continuar na azul e amarela tijucana e por isso deixa a Beija Flor. Uma decisão de um inquieto que busca sair da zona de conforto em busca de inovações.

Permanece lá até 83 e no ano seguinte retorna ao Salgueiro, com o enredo “Skindô, skindô”, que não levou o título, mas cujo o samba tornou se o sucesso do carnaval. Em 85 assume a Unidos de Vila Isabel e ajuda a escola a conquistar um ótimo vice campeonato.

Em 1989 volta à Beija Flor, para juntamente com Joãozinho Trinta realizar o que é considerado o maior desfile da escola, mesmo sem o titulo: o histórico “Ratos e Urubus larguem minha fantasia”. Mas não fica muito tempo e vai para a Grande Rio, onde coloca a escola no Grupo Especial e finca as bases para que a agremiação se consolide como grande.

Em 1997 retorna a Beija Flor e faz  outra revolução. Para o Carnaval de 1998 extingue a figura do carnavalesco e implanta uma Comissão de Carnaval. Enxuga as alas comerciais, na maioria compostas por pessoas distantes ou turistas que pagam fantasias, e investe em alas da comunidade, com fantasias gratuitas, atraindo componentes pobres que não podiam pagar, abre a ala de compositores para novos integrantes, renova a bateria com jovens da região.

O resultado não poderia ser melhor. Após 15 anos de jejum a Beija Flor volta a ser campeã, com o enredo “O mundo místico dos Caruanas nas Águas do Patu Anu”, empatada com o “Chico Buarque” , da Mangueira.

Segue se então um novo período de ouro para a Beija Flor e Laila. Ele torna se homem forte, implanta suas ideias renovadoras e faz da azul e branca a terceira maior vencedora do Carnaval carioca. 

Laila também é produtor musical do disco de sambas enredos desde a década de 70. Ele, sem dúvida, conquistou uma legião de admiradores e tornou se referência no mundo das escolas de samba. Lógico, não é unanimidade, pois muitos discordam de seu método centralizado, seu estilo linha dura e disciplinador. Mas é inegável o seu conhecimento sobre tudo o que diz respeito ao samba. Isto os resultados e a sua história mostram.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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