É Carnaval!

Enfim, chegou o carnaval que entrará para a história como o mais estranho de todos os tempos

Afinal, está lá no calendário para nos lembrar a efeméride que antecede o período da quaresma estabelecido pelo Cristianismo. Ou seja, há carnaval, mas não há carnaval. Em tempos normais, a esta hora a cidade já fervilhava, com milhões de pessoas nas ruas, puxadas pelo Cordão da Bola Preta, que abre oficialmente os festejos de Momo no Rio de Janeiro.

As escolas de samba já estariam com seus carros alegóricos na concentração, as imediações da Marquês de Sapucaí já interditadas, com aglomeração de turistas curiosos para conhecer aquela magia.

As autoridades médicas e governamentais fizeram um enorme esforço para convencer o povo a ficar em casa e evitar festas e blocos clandestinos. Além da proibição oficial, com decretos e ameaças de prisão e multa para quem descumprisse a ordem, diariamente os meios de comunicação anunciavam que este ano não haveria carnaval.

Por trás desse esforço de convencimento, havia no fundo o temor de uma desobediência civil. O carnaval tem um histórico recheado de descumprimento de ordens oficiais. O mais célebre deles foi em 1912, quando o Barão do Rio Branco morreu na semana da festa e o presidente da República, o Marechal Hermes da Fonseca, decretou luto e adiou o carnaval para abril. O povo desobedeceu e festejou duas vezes.

Aliás, a essência do carnaval é a desobediência, a inversão da ordem e o deboche, desde os seus primórdios e suas origens com o entrudo, nos séculos 17 e 18. As brincadeiras, nessa época, constantemente terminavam em confusão com a polícia, muitas vezes convocada pelos chamados “cidadãos de bem”, que não toleravam a turba violenta que invadia as ruas naqueles dias de festa, numa guerra de ovos, limões de cheiro e farinha. A coisa ficou tão séria que o entrudo chegou a ser proibido no século 19.

Entretanto, outra marca da festa, é uma histórica negociação entre poder estabelecido e os atores que teimam em burlar a ordem. Na impossibilidade de uma repressão eficiente, há sempre tentativas de cooptar os atores. É assim que, a partir do século 20, os governos passam a investir no carnaval. Surge a subvenção para desfile das agremiações, como os ranchos carnavalescos e a decoração da cidade, criando um clima de oficialização da folia.

O surgimento das escolas de samba na década de 30 definitivamente sela essa parceria negociada entre os atores da festa e o poder público, com a clara interferência no funcionamento dessas entidades. O maior exemplo é a organização dos desfiles a partir de 1932. Entretanto, sempre há brechas por onde escapa a verdadeira essência do carnaval.

Essa contradição permeia a folia, seja nas ditaduras, no período do Estado Novo, de Getulio Vargas, ou no regime militar pós 1964. Repressão, negociação, desobediência sempre presentes.

Em 1920, o mundo ainda vivia os traumas da epidemia de gripe espanhola, que matou cerca de 50 milhões de pessoas. A história registra que aquele carnaval foi um dos mais loucos da história. As pessoas pareciam querer extravasar toda a angústia e sofrimento pela qual tinham passado.

Hoje, com todo esse momento que vivemos, as pessoas parecem ter mais consciência da gravidade da doença. Os meios de comunicação são mais disseminados, o avanço da ciência é incontestável. Não temos carnaval este ano. Vamos aguardar 2022 e festejar, talvez, como em 1920.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

Comentários estão fechados.

http://api.clevernt.com/0d18126b-b33f-11e7-bb95-f213f22ad24e