Documentário ‘A Braskem passou por aqui: A catástrofe de Maceió’, a crônica do maior desastre em curso do Brasil

Hoje, o 'Caso Braskem' pode ser considerado o maior desastre em área urbana em andamento no mundo

O documentário conta com a direção do escritor, cineasta, teatrólogo, e ativista argentino naturalizado brasileiro Carlos Pronzato. O argentino possui uma célere filmografia que inclui filmes e documentários que exploram diversas situações e dramas brasileiros. O expoente do país do eterno Maradona (1960-2020), já dirigiu mais 70 documentários. Como lembra o Sindicato dos Servidores Públicos Federais da Educação Básica e Profissional no Estado de Alagoas (Sintietfal), ao longo de sua trajetória, o cineasta coleciona diversos prêmios sobre temas distintos, como do Conselho Latino-Americano de Ciências sociais, em 2008; O “Roberto Rossellini”, em 2008 na Itália; e “Liberdade de Imprensa”, pelo Jornal Tribuna da Imprensa Sindical, em 2017, no Rio de Janeiro.

Foto: Marco Aurélio Martins

Pronzato acredita na força do resgate da memória para renascer revoltas populares, esse renascimento é abordado com excelência no documentário “A Braskem passou por aqui: A catástrofe de Maceió”. Sobre a ligação entre memória e resistência, em entrevista concedida em 2020 à Katia Marko e Fabiana Reinholz, do Brasil de Fato em Porto Alegre, o cineasta declarou o seguinte: “É exatamente esse o seu papel principal, trazer à tona experiências de confronto com o capital, orgânicas ou não, com maior ou menor relevo popular, mas com contundente incidência histórica nos movimentos reivindicatórios e revolucionários posteriores.”

Tecnicamente falando, Pronzato é um documentarista perspicaz na construção de narrativas, no detalhamento dos registros captados em campo e na elaboração do argumento inicial, esses detalhes são nítidos em trabalhos anteriores dele, por exemplo, o argentino já abordou temas como o Apagão do Amapá e a triste Tragédia de Brumadinho. Pronzato é sublime na abordagem de um tema esquecido ou pouco divulgado, a forma com ele faz renascer experiências de lutas operárias, camponesas, estudantis, que impulsam os processos atuais, é admirável. Carlos Pronzato destaca que fazer esses documentários não é “a nossa prioridade é  preservar memórias, garantir o acesso e o registro a essas histórias, dar voz a injustiçados, a movimentos sociais”.

Foto: BAHIADOC

Sobre a questão ele declarou o seguinte em entrevista concedida em 2020 à Katia Marko e Fabiana Reinholz, do Brasil de Fato em Porto Alegre: “Considero esse o principal elemento de resguardo e utilização da memória. Principalmente nestes tempos políticos sombrios em que há uma tentativa impulsada desde as três esferas do governo federal de destituir a História da realidade dos fatos e criar novas narrativas fantasiosas para iludir milhões de pessoas, onde as mentiras oficiais chegam até a propor que nem a ditadura militar existiu, dentre tantas outras barbaridades.”

O jornalista Maurício Ângelo, do Observatório da Mineração, centro de jornalismo investigativo focado no setor extrativo, destaca que o ‘‘caso da Braskem’’, maior petroquímica das Américas, controlada pelo grupo baiano Odebrecht (agora “Novonor”), ilustra como as mineradoras conseguem instalar um governo paralelo nos locais em que atuam e fechar acordos extremamente favoráveis mesmo quando são responsáveis por um desastre de grandes proporções.

Colagem: Victoria Lobo

Maurício Ângelo contextualiza que durante décadas, a Braskem minerou sal-gema em Maceió, capital de Alagoas, contando sempre com a generosidade da ditadura militar nos anos 70 e 80, de todos os governos estaduais e prefeitos eleitos desde então e com a anuência dos órgãos ambientais de fiscalização. Feita de modo inadequado, desrespeitando todas as regras, as minas de sal-gema da Braskem foram exploradas perto uma das outras, em alguns casos encontrando-se para formar falhas que hoje são responsáveis pela destruição de 4 bairros de Maceió e pela remoção de 55 mil pessoas de suas casas.

O jornalista alerta que este é considerado “o maior desastre em área urbana em andamento” no mundo hoje. As casas passaram a apresentar rachaduras e afundamentos, com a fundação comprometida. Os bairros se tornaram bairros fantasmas e o cenário é de guerra. Maurício Ângelo enfatiza que a única opção dessas famílias foi aceitar um acordo com a Braskem que paga míseros R$ 81 mil reais para cada uma, insuficiente para adquirir um imóvel em outro lugar e certamente insuficiente para cobrir todos os danos causados. Ângelo denuncia que A Braskem passou a ser dona dos 4 bairros– Pinheiro, Mutange, Bom Parto e Bebedouro. No longo prazo, esta área em região valorizada de Maceió pode significar até R$ 40 bilhões de reais para a petroquímica. E todo o dinheiro separado pela Braskem para arcar com o desastre causado por ela está em R$ 10 bilhões.

Convém destacar e alertar que se trata de um dos piores crimes socioambientais da história do Brasil e do mundo transformado em lucro imobiliário. Não só não houve punição até o momento como a Braskem sai da história lucrando dezenas de bilhões de reais. A petroquímica, já instalada em área de grande valor ambiental, acaba de se apropriar de 3 quilômetros de orla e 300 hectares de área urbana em uma das melhores regiões de Maceió.

Partindo dessa premissa, nos é apresentado o documentário “A Braskem passou por aqui: A catástrofe de Maceió”. O documentário relata o drama das vítimas, a negligência da Brakem e o silêncio condescendente das autoridades responsáveis pelas rachaduras e afundamentos no solo, que atingem ao menos quatro bairros de Maceió. A catástrofe urbana resultou no êxodo de mais de 67 mil moradores, 4.500 empreendedores, 30 mil trabalhadores demitidos e 15 mil residências destruídas levando junto memórias, o passado e o futuro de todos os afetados.

Imagem de abertura do documentário

O documentário “A Braskem passou por aqui: A catástrofe de Maceió”, reúne em 1 hora e 20 minutos, uma série de depoimentos valiosos de moradores expulsos de suas casas, pesquisadores, pequenos empresários afetados, técnicos da Defesa Civil e pessoas chave envolvidas no caso. Carlos Pronzato passou várias semanas nos tradicionais bairros Pinheiro, Bebedouro, Mutange, Bom Parto e Farol que estão afundando em meio a 35 minas de sal-gema. O espectador vivencia através da fotografia do filme cenas que lembram a destruição dos Budas de Bamiyan pelos talibãs afegãos em 2001, ou até mesmo as ruínas da Síria, de fato, é um cenário de campo de guerra. Guerra essa arquitetada por uma organização que pouco se importou com a população existente na região.

É um filme para repensar projeções de nossos sentimentos em nossa relação com a cidade e qual é a nossa capacidade de resiliência. Trata-se de um quadro da natureza humana com dramas, temores e circunstâncias que orientam e determinam o agir das personagens em contraponto com a inércia das autoridades. O documentário permite várias leituras e pode estimular a empatia e a compreensão do ser humano, fundamentais para o papel do cidadão que precisa olhar para si e para o próximo. Qualquer diretor que se dedique em fazer um documentário que não console o espectador ao mostrar um registro tão próximo do nosso dia a dia automaticamente se garante como um artista de olhar autêntico. Pronzato conquista com méritos porque a todo o momento notamos seu esmero em retratar a barbárie ocasionada pela infame Braskem.

Carlos Pronzato leva o espectador a mergulhar nos sentimentos, nas vivências mais profundas dos personagens e nas lembranças mais latentes. Através da fotografia Prozato representa a dor, a angústia, a solidão e a desolação das pessoas esquecidas. Entretanto, o filme não traz temas que partem de perspectivas dualistas de bem e mal, pois, conforme dizia Friedrich Nietzsche (1844-1900), há certas coisas, como o amor, como a vida, que estão além do bem e do mal. O cotidiano urbano, como é possível observar ao longo do filme, mostra-se tão complexo e tão enigmático quanto uma trama shakespeariana com tons de distopia. Pronzato contou ao SINTIETFAL o quanto se impressionou ao ver inúmeros imóveis desocupados:

‘‘É impactante ver as rachaduras. É impressionante. Conseguimos driblar os tapumes para entrar nos imóveis. Não conseguimos entrar nas minas. É impressionante. E a noite piora, porque não conseguimos fazer entrevistas. Durante os percursos encontramos uma cidade perdida. Apenas da compensação da Braskem, os moradores perdem sua história. Teve gente que nasceu no local e perdeu tudo, é muito triste. Isso por causa da negligência de uma empresa, pois tinham tudo para prever a tragédia. Nunca tinha visto algo do tipo”, afirmou o cineasta ao se deparar com uma “cidade perdida, um cenário de guerra”.

Em meados do século passado, o escritor suíço Denis de Rougemont (1906-1985), um arguto defensor da unidade europeia e, especialmente, um estudioso da ocidentalidade, disse algo que pode ser empregado a Braskem, para ele a decadência de uma sociedade começa quando o homem pergunta a si próprio ‘o que irá acontecer?’, em vez de inquirir ‘o que posso eu fazer?’. Nesse ensejo, convém sublinhar que a Braskem mantém o estado de Alagoas refém em condições desumanas. Alinhado a isso a decadência (seja ela na sociedade mais ampla, seja em quaisquer instâncias) principia quando o imperativo ético da ação é substituído pela acomodação e pela espera desalentada, isto é, quando se abre mão do dever que emana a liberdade e se exige, para ser exatamente livre, uma intervenção consciente. Ao ouvir os relatos dos entrevistados, pude notar o pesar das falas, no entanto, há resistência, sim, ainda há esperança, a esperança é um princípio vital, expresso na sábia e verdadeira constatação comum de que ‘‘enquanto há vida, há esperança’’, mesmo em face às mais intransponíveis circunstâncias.

Foto: Reprodução Cícero Albuquerque/Acta/Arquivo

Sem embargo, o documentário é uma oportunidade para que o Brasil inteiro veja o que a exploração mineral predatória e sem a correta fiscalização dos órgãos públicos ambientais fez com uma das cidades cujo potencial turístico é um dos principais do nordeste. É um registro documental que permanecerá em voga durante muitos anos, fora que surge como uma forma de dar visibilidade nacional à tragédia em Alagoas que, ao contrário de Brumadinho e o Amapá, continua acontecendo, o solo continua afundando e ninguém sabe quando vai parar, e se terá mais pessoas atingidas.

Por

vanderlei.tenorio@oestadorj.com.br

Colunista e comentarista de cinema de alguns veículos de imprensa, atua em dois jornais e em um portal. Paralelamente, é editor da página Cinema e Geografia e colaborador de um site de notícias de Maceió. Atualmente integra o quadro de associados correspondentes da União Brasileira de Profissionais de Imprensa (UBRAPI).

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