Degradação vernacular

Durante minha infância, o senso comum e as propagandas radiotelevisivas me fizeram acreditar que a democratização da rede mundial de computadores (Internet) finalmente resolveria os distúrbios da educação brasileira. Doce ilusão de criança…

O ciberespaço terminou refletindo a antinomia do que se imaginava, visto que as desinformações; calúnias e banalidades são os conteúdos mais difundidos nos ambientes virtuais que destacam a presença de brasileiros. Essa atrocidade vem se multiplicando drasticamente, sobretudo nas redes (antis)sociais.

Uma das consequências deste vendaval anticientífico é a dissolução da gramática portuguesa. Todo indivíduo que saiba verificar as estatísticas — e que não seja hipócrita e presunçoso — tem conhecimento das mazelas que o analfabetismo funcional segue produzindo Brasil afora. Fala-se mal no país, e escreve-se pior! Vale frisar que tamanho imbróglio é acentuado a partir do momento que uma legião de políticos, celebridades e até mesmo professores e jornalistas utilizam solecismos; jargões; paragramas e demais erros morfológicos com altíssima frequência. Estes, que deveriam zelar pela manutenção do idioma, justificam suas negligências para com o vernáculo invocando outro vício de linguagem: o neologismo. Se criaturas tão distintas agem dessa forma, como é possível exigir decoro dos cidadãos de baixa escolaridade? Os barbarismos virão à tona sucessivamente, pois a análise sintática é obliterada quando o cassanje se transforma em regra.

O maior patrimônio cultural de uma nação é o seu idioma. Desrespeitá-lo equivale a zombar da própria nacionalidade. Não existe método tão simples e eficaz de aniquilar a identidade de um povo quanto o esfacelamento de sua língua. Ao que parece, a terrível ideia de unificar o português não foi o suficiente para os algozes da gramática luso-brasileira. Certa vez, em uma reunião de amigos, me perguntaram qual seria meu primeiro ato como líder do Governo Federal. Prontamente respondi: “corrigiria a nossa linguagem, é óbvio!”. Meus entes queridos, perplexos, me indagaram as razões disso. Apresentei-lhes os seguintes motivos:

• Se a linguagem não for correta, transparente e objetiva, o que se diz não é o que se pretende dizer;
• A partir do momento em que o discurso é ambíguo, tudo o que deve ser feito acaba não se realizando;
• Quando as tarefas cruciais são relegadas, a justiça se torna um mecanismo frágil e ineficiente;
• Conforme as leis vão se deteriorando, os valores e as artes entram em colapso;
• Uma vez que o entretenimento e os hábitos do cotidiano tenham sido maculados, as pessoas são arremessadas em um oceano de dúvidas e ficam submetidas à ditadura da ignorância e do abandono.

Sendo assim, as expressões não podem conter ambivalências, independente da ocasião. Ler e escutar informações verídicas, bem como possuir capacidade de entendê-las, é um direito inalienável de todos os brasileiros. Negar isso à população é violar a honra do próximo! É ser transigente com as infrações praticadas contra a razão. Estimular o apedeutismo não promove nada além da miséria.

Por

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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