Defender e produzir ciência no Brasil hodierno é um ato de cidadania

Quem acha que a ciência e a política são elementos fracionáveis, não faz a menor ideia do que a política significa e muito menos o que a ciência representa

Todo indivíduo que decide trilhar a carreira de pesquisador no Brasil — e em outras partes do mundo — termina se acostumando com os inquéritos referentes à aplicação e utilidade efetiva dos recursos que seu trabalho produz.

 Na esfera das ciências humanas, essas dúvidas sobrevêm com regularidade ainda maior devido ao fato de que as apreciações técnicas não oferecem, em geral, resultados instantâneos e propícios a serem quantificados pelas medidas que a sociedade pós-moderna determina através do consumismo hiperbólico que os parâmetros mercantis estabelecem. Não obstante, examinar a reprodução de partículas virais ou de células biológicas a fim de confeccionar um novo medicamento, por exemplo, vem sofrendo com a mesma ojeriza popular que já incide há décadas nas perspectivas literárias que integram os renques da comunicação social do país. A razão disso é encontrada nas propagandas negativas que os setores empresariais realizam com uma ambição tenebrosa. As elites brasileiras jamais nutriram simpatia pelos ensaios científicos que não se transformam em direito de propriedade, uma vez que tais circunstâncias não acarretam incremento patrimonial.

É preciso acentuar reiteradamente que, apesar do planeta estar vivenciando uma conjunção extremamente singular, o Brasil é um dos pouquíssimos lugares em que o conhecimento específico; o raciocínio lógico e a formação humanística estão sendo violentamente desfigurados em busca de substanciar o fanatismo ideológico de uma corja de ególatras infradotados. O conceito de produção na atual fase da humanidade conserva alguns preceitos inteiramente vinculados aos fundamentos de capitalização tecnocrática, seja no quesito de bens materiais ou de temas eruditos, e se apresenta por meio de um proselitismo composto por elementos neoliberais. Em um ambiente dessa magnitude, a preservação e o desenvolvimento de reflexões socioculturais não possuem condições necessárias para evoluir de maneira satisfatória. Tudo é muito volátil, pois os eventos devem ocorrer com o máximo de prontidão.

Nessa altura do texto, é completamente razoável afirmar que o teor deste assunto é nitidamente complexo. Todavia, esse prelúdio é capaz de imprimir o núcleo das tarefas científicas sem nenhum laivo, dado que o contexto permite que tamanha analogia seja construída. Desse modo, torna-se fácil de entender que a defesa da ciência — independentemente da área de pesquisa — e das entidades públicas que a subvencionam é uma questão imanente à verdadeira política, isto é, a cidadania. Não há como interpretar essa situação por um outro ângulo.

O campo dos estudos integrados pela semântica — e muito provavelmente todos os demais vértices que contornam as pesquisas relacionadas à gramática contemporânea — exibe uma problemática abissal quando refletimos sobre os conflitos de interesses que permeiam tal atmosfera. Raras são as ocasiões que a desconstrução de ideias e hábitos considerados normais mediante a cultura da nossa sociedade não se verifica, posto que a missão da ciência não se destina à perpetuação de regras saturadas de dogmatismo e preconceitos. Logo, acreditar que tamanho exercício deve ser uma obra apolítica, desconectada das lutas que combatem as injustiças sociais, é uma estupidez inclassificável. Um pesquisador consciente de suas atribuições nunca ignora o pensamento crítico ao observar os panoramas nacionais e estrangeiros e, obviamente, os fenômenos que insurgem ao longo do tempo.

É por causa desse mecanismo gnosiológico que diversos cientistas endossam a habilidade ímpar da linguística no tocante às reordenações consecutivas que a humanidade experimenta. Além de ser um item crucial da literatura, a ortografia é identificada como uma advertência relativa a tudo o que é obsoleto e que fica incumbida pela configuração de novas linhas de raciocínio no intuito de viabilizar ao cidadão formas de refinar suas opiniões e convertê-las em atitudes.

Em um sentido lacônico, estamos em um cenário que ilustra a arte da escrita como um dispositivo automaticamente inclinado à politização, mas que não abdica do confronto ao descrever a história para impugnar os crápulas que tentam deturpá-la. Vamos a uma elucidação mais consistente: com o respaldo que a sociedade deposita nos livros, arquitetar uma narrativa que favoreça as estultícias do Governo Federal supostamente vigente em uma dezena de fascículos oficiais é distintamente possível, bem como a supressão de profissionais e organizações que denunciam esse vórtice de incompetências e transgressões. Porém, os opositores seguirão aptos a contestar essa virtual mácula bibliográfica e também podem levantar suspeitas contra o Palácio do Planalto operando com o mesmo instrumento. E conforme adentramos com seriedade na órbita da leitura, as chances de nos depararmos com versões alternativas de uma narrativa qualquer é exponencialmente ampliada — e ninguém com o senso de discernimento ajustado encerra uma pesquisa com informações equipolentes àquelas detidas no limiar da análise.

Carl Sagan, brilhante astrofísico e militante pró-ciência falecido em dezembro de 1996, publicou a magistral obra “O Mundo Assombrado Pelos Demônios – A Ciência Vista Como Uma Vela No Escuro” no ano que precedeu a sua morte. O fascículo é avaliado como um decodificador da metodologia científica para os leigos e também fornece instruções de como detectar falácias argumentativas que dão suporte à pseudociência. Se os brasileiros, tão apaixonados pela ostentação do saber, tivessem consultado este livro antes de criarem perfis nas redes (antis)sociais, não haveria uma legião de charlatões receitando vermífugos; antimaláricos; ozonoterapia; esoterismo; fórmulas homeopáticas e astrologia como panaceias que erradicam um vírus sindêmico em um passe de mágica. Aliás, os casos de hepatite medicamentosa — o que inclui a necessidade de transplantes de fígado — têm se proliferado em uma velocidade aterradora por efeito da ingestão de comprimidos sem eficácia no tratamento do Sars-CoV-2.

Tudo ainda parece bastante enigmático? Basta levarmos em conta que estudar não é sinônimo de integridade. Não faltam pessoas que absorvem conteúdo frequentemente e permanecem com uma batelada de comportamentos desprezíveis. Também é válido destacar que não há leis que obrigam uma obra literária a ser invariavelmente questionadora e desenvolvimentista, vide a fuligem que os conservadores difundem acintosamente na intenção de prorrogar a miséria sob uma infinidade de arestas. O ponto-chave aqui é a compreensão do idioma como ferramenta revolucionária porque ele detém o poder de estimular métodos de revisar todos os prismas fixados anteriormente. Isso capacita a sociedade a perceber qual é o seu papel em diferentes conjunturas; faz com que ela assuma as suas responsabilidades e que cobre dos governantes as promessas não cumpridas. Em outras palavras, é utilizar da literatura para movimentar as engrenagens do progresso nacional sem ufanismos torpes. E o espaço que os pesquisadores ocupam é lastreado pelas mesmas similitudes.

Quem almeja se dedicar à potencialização da ciência, ou seja, à desenvolução e irradiação do conhecimento, em uma nação submersa pelas mazelas (educacionais; sociopolíticas; econômicas, etc.) como o Brasil, simplesmente não pode se esquivar de seu compromisso de proteger a sociedade do jugo do apedeutismo. A metamorfose tão solicitada pelo escopo não será concretizada se os mais instruídos renunciarem à prática deste ato de cidadania, pois é exatamente a ausência de convicções políticas em apoio aos desfavorecidos em épocas tão caóticas quanto agora que originam teratismos históricos que, assim como inúmeras pestilências já abolidas — com vacinas que lograram êxito científico —, não devem transcorrer em hipótese alguma!

Por

piterson.hageland@oestadorj.com.br

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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