Davi Correia foi morar no infinito

Em 1973, no auge do regime militar e da repressão política, o espírito galhofeiro do carioca fez cantar no carnaval, nas ruas e salões, uma paródia do refrão do samba “Pasárgada”, da Portela: “Ao embarcar no camburão / senti palpitar meu coração”. Camburão, como se sabe, é o apelido dado aos carros de polícia que transportam presos.

A letra correta dizia “ao embarcar na ilusão / senti palpitar meu coração” e é de autoria de Davi Correia, um dos maiores compositores de samba enredo, que pode, sem dúvida, ser colocado num panteão ao lado de Silas de Oliveira e Martinho da Vila. Davi morreu no último domingo, aos 82 anos, deixando um legado de sambas inesquecíveis.”Pasárgada” foi o primeiro samba que Davi desfilou pela Portela. Depois disso emplacaria mais seis, tornando se o maior vencedor na azul e branca de Madureira.

Suas composições contribuíram essencialmente para a popularização do samba-enredo, justamente nas décadas de 70 e 80, quando o gênero musical se consolida, principalmente do ponto de vista mercadológico. Em 1975, o seu “Macunaíma” torna se um sucesso nacional, regravado inclusive por Clara Nunes.

Mas é na virada da década que ele atinge a maturidade nessa arte, aliando o esmero lírico da letra com uma melodia capaz de embalar foliões na avenida e extrapolar para as rádios e televisões do país. Ele emplaca quatro sambas seguidos para o Carnaval da Portela.

Em 1979, com “Incrível, fantástico, extraordinário”, um preparatório para a explosão do ano seguinte, quando a Portela sagra se campeã com “Hoje tem marmelada”. Os versos iniciais desse samba são um primor de introdução ao enredo: “A brisa me levou / para um reino encantado / onde eu me fiz menino rei / e era o circo o meu palácio dourado…”

Em 1981, entretanto, vem a grande consagração do público e da crítica especializada, considerada sua obra prima, com “Das maravilhas do mar fez se o esplendor de uma noite”. Naquele ano, não há folião que não tenha cantado o refrão chiclete portelense: “E lá vou eu / pela imensidão do mar/ essa onda que borda a avenida de espuma / me arrasta a sambar”.Davi ainda ganharia em 1982 com “Meu Brasil brasileiro, sem no entanto tanta repercussão como o anterior.

No ano seguinte, ele se afasta da Portela e vai para o Salgueiro. Em 1984, outro sucesso de execução na mídia com a vermelha e branca tijucana e seu “Skindô, skindô”. Em 1985, migra para a Unidos de Vila Isabel e também vence o samba ” De quatro em quatro de alegria pulei”.

Em 1994, outro estrondoso sucesso de sua autoria, só que na Mangueira com “Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu”. A homenagem que a escola fez aos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia.

Mas Davi Correia não brilhou apenas nos desfiles das escolas. Também se consagrou no chamado samba de “meio de ano”. Nesse gênero seu maior sucesso foi “Mel na boca”, na voz de Almir Guineto. Foi gravado ainda por nomes como Beth Carvalho, Jorge Aragão, Elza Soares, entre outros.

Davi foi um precursor do que hoje é comum entre compositores de samba enredo. Ele foi um dos primeiros a se profissionalizar e compor para várias agremiações.

Enfim é uma grande perda para o mundo do samba. Um artista de estilo próprio que influenciou muitos que vieram depois. Fica para eternidade seus versos como em “Macunaíma”: “Vou embora, vou embora / eu aqui volto mais não / vou morar no infinito / e virar constelação”.

Por

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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