D de Displicência, H de Hecatombe

O Brasil de 2021 não pode continuar aceitando que Jair Bolsonaro e sua trupe permaneçam alquebrando a nação. Pseudociência alimenta a ignorância e é totalmente inútil para resolver qualquer problema

Mesmo que já tenhamos alcançado a segunda metade de janeiro — e peço sinceras desculpas aos leitores em função de minha ausência entre o ocaso do último mês e o início deste —, as expectativas concernentes a 2021 seguem no mais elevado patamar. Isso é, certamente, um traço daquela mística que os indivíduos fabricam no intuito de glorificar a passagem de ano.

Nada obstante, uma aberração também cruzou o período de 2020 a fim de continuar depredando os resquícios de ordem que a sociedade brasileira tenta manter. Ou melhor, as aberrações em evidência são duas: Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello.

Já era totalmente intragável e visivelmente letal permitir que o misólogo hospedado no Palácio da Alvorada ficasse propagando uma série de tolices referentes ao Sars-CoV-2, o que inclui as “terapias precoces” mediante o uso indiscriminado de antimaláricos e medicamentos veterinários — que terminarão imunizando as bactérias nos esgotos e potencializando seu ímpeto contra o ser humano —; saturação do canal venoso com ozônio; medicina antroposófica e outras sandices amplamente destituídas de eficácia e respaldo científico. Não é, sob hipótese alguma, imodesto declarar que esses contrassensos vitimaram centenas de milhares de brasileiros, especialmente os incautos que possuem o raciocínio subdesenvolvido. Tantas pessoas foram ostensivamente direcionadas a “enfrentar a doença cara a cara”, tal como é pregado de maneira obstinada pelos azêmolas do Governo Federal e seus acólitos.

Essa quadrilha que finge administrar o Brasil é, de modo lacônico, responsável pelos quase 208 mil óbitos que consternam o país. Atentam diretamente contra o povo ao encaminharem os brasileiros aos hospitais e ambulatórios; aos necrotérios e aos túmulos através de um negacionismo plural e contumaz. Vale ressaltar que todos esses locais supraditos já estão abarrotados de enfermos e cadáveres. E como fazem isso? Menosprezam a gravidade da situação; ignoram as mortes que a virulência provocou; incitam aglomerações e comparecem às mesmas; abominam as determinações sanitárias e itens de proteção; sabotam as vacinas e desestimulam as campanhas de imunização; exoneram ministros, técnicos e demais especialistas da saúde que não agem feito vassalos; deturpam a credibilidade das instituições nacionais de controle epidemiológico em assembleias mundiais; abdicam intencionalmente da compra de preparados biológicos — ofertados há praticamente um semestre —, agulhas, seringas e outros insumos de aplicação.

Para os que achavam que estes obtusos já não podiam causar maiores danos às esferas que compõem o país, os eventos que configuraram a semana decorrida provaram o contrário. Sem nenhum equilíbrio mental (isso se alguma vez o deteve), isento de porte gnosiológico e completamente desrespeitoso com a liturgia do seu cargo de líder do Poder Executivo Federal (desacerto que também já perdeu a capacidade de envergonhar alguém), Jair Bolsonaro, o idólatra da distribuição de antipalúdicos como se fossem saquinhos com doces de Cosme & Damião, ornejou uma avalanche de maledicências durante sua excursão pela capital do Amazonas, que encontra-se triturada por viroses patogênicas e epizoários corruptos que simplesmente deixaram os centros de tratamento intensivo desprovidos de cilindros de oxigênio, junto com Eduardo Pazuello, ex-general de divisão supostamente versado em logística — “a vacinação começa no Dia D e na Hora H” — e alçado à dirigente da Pasta da Saúde, apesar de não deter qualificações e entendimento mínimo acerca de questões salutares e medicina.

“Em qualquer país decente” —aspas para enfatizar um dos lemas preferidos da direita que elegeu Jair Bolsonaro —, criaturas que vêm a público drapejando orgulho da própria incompetência e estultícia seriam instantaneamente proscritas de suas ocupações (?!) e denunciadas por cometerem prevaricação. Mas voltando à realidade do Brasil, não existem dúvidas de que Eduardo Pazuello, sob o prisma daquilo que o bolsonarismo interpreta como “qualidade”, é o subalterno perfeito. Ora, quem aceitaria jogar no lixo toda uma carreira militar de alto escalão para servir de jagunço a um ex-capitão que “milagrosamente” não foi banido do Exército Brasileiro? Aliás, como exprimem similaridades no tocante à estolidez; depreciação da ciência; mixórdia cognitiva; oligofrenia verbal específica e absoluta inaptidão para gerenciar as instâncias oficialmente vinculadas às suas atribuições.

Julgam como improcedente o rótulo de obtuso a Pazuello? Bom, então recomendo que analisem a seguinte frase emitida por tal figura: “Quem dá o diagnostico é o médico. Não é exame e nem teste. O remédios podem e devem ser usados antes desses testes, pois se os exames acusarem negativo posteriormente, o médico diminui a quantidade de remédios do paciente e fica tudo bem. Desse jeito ninguém vai morrer, mas sim o contrário, porque acabarão salvos caso tenham sido infectadas pelo coronavírus.”

Se tivesse prestado atenção nas lições de gramática e biologia durante o ensino fundamental e médio, Eduardo Pazuello compreenderia sem distorções semânticas que um teste clínico é um procedimento suplementar ao diagnóstico e que médicos não frequentam universidades com o objetivo de aprender curandeirismo e manipulação de artefatos esotéricos que, segundo o folclore, descrevem o que acontecerá em tempos futuros. E caso não tivesse escapulido das aulas de filosofia, o energúmeno que se alojou no Bloco G da Esplanada dos Ministérios logicamente possuiria noções de ética e saberia que profissionais legítimos jamais a conspurcam. Já era terrivelmente lúrido e mortífero para o Brasil suportar um infradotado na Presidência da República disseminando boatos e notícias falsas atinentes ao COVID-19. Agora, quando o país tolera que um inconsequente presunçoso seja designado à emissário da saúde pública no meio de um caos pandêmico, o horizonte se contrai em um vórtice inteiramente nebuloso.

É imperioso que a população aceite o fato de que o país não é aquele lugar de uma década e meia atrás que possibilitou os contribuintes a resignarem-se com um panorama de escândalos políticos. O que veio à tona — e insiste em não desaparecer — é a mais violenta crise sanitária da atualidade. O Brasil verificou o pior resultado do seu produto interno bruto (PIB) desde 1890, assim como registrou o maior índice de desemprego, que avança para os quinze milhões de cidadãos na informalidade. Em meio período como superintendente da União, Jair Bolsonaro levou a economia brasileira da oitava para a décima segunda posição, e o risco de novos lapsos são iminentes. As relações internacionais foram amplamente estraçalhadas, dado que o Itamaraty sofreu um desabono ao ponto de ser equiparado às nações africanas dominadas pela instabilidade geral. A educação não recebeu os cuidados adequados e foi transformada em um mecanismo virtual que aborrece os professores e estudantes digitalmente. Em somatória com tantas adversidades, os dois lordes das profundezas estão freneticamente empenhados em sugerir fármacos que beneficiará os laboratórios de medicamentos com uma explosão de vendas e uma gama de publicidades em troca de apoio governamental. Praticam corporativismo deliberadamente e receituam drogas em absonância com a lei. Destarte, quais são as atitudes sórdidas e inscientes que restam a essa dupla antes que haja uma reação que acabe com esse vendaval de barbaridades?!

Por

piterson.hageland@oestadorj.com.br

Jornalista literário no segmento metapolítico e sociocultural. Pesquisador de assuntos históricos, filosóficos e aspectos econômicos do Brasil e da Ásia Oriental. Colaborador de periódicos geopolíticos e podcasts. Tradutor, locutor e dublador ocasional.

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