Cultura Queer e o preconceito

Histórias envolvendo personagens ligados ao público LGBT tem ganhado cada vez mais espaço, mas discriminação ainda existe

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Quando se fala em Cultura Queer, termo que vem do inglês e significa tudo relacionado ao público LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros), a figura do gay ainda é pouco ou quase nunca explorada.

Numa cultura machista igual a brasileira, a figura do gay geralmente é afeminada, e no caso das mulheres masculinizadas. “Ainda há pouquíssimo espaço para esse tipo de história e, consequentemente, são poucas as boas histórias”, comenta o tradutor e autor Rober Pinheiro.

Há uma visão equivocada das pessoas, especialmente quando o assunto envolve mostrar um romance entre pessoas do mesmo sexo. “Boas histórias devem ficar acima desses detalhes”, comenta a autora Camila Fernandes. Dizem que o grande público rejeita o beijo gay, como mostrar as polêmicas de novela. No entanto, o público de séries de TV sempre buscam boas histórias e não se importam com tais polêmicas.

Beijar ou não beijar, não é essa a questão

A autora Camila Fernandes fala ainda sobre o público da literatura fantástica e diz que o acha mais “mente aberta”, até por ser um estilo literário que também sofre preconceitos. “Talvez muitos autores ainda tenham medo de ousar”, comenta. “Exceto quando se trata de fetiche, normalmente direcionado ao homem hétero”, opina.

No entanto, uma nova geração de escritores brasileiros se forma, os quais não têm medo de apoiar a diversidade, nem de exercer esse apoio claramente em sua literatura. O problema, segundo eles, é a mentalidade atrasada. “Se um casal heterossexual pratica sado-mosoquismo é para apimentar a relação”, comenta o tradutor e autor Rober Pinheiro.

Porém, um casal do mesmo sexo não pode nem dar as mãos em público. Por isso é importante que o público em geral tenha contato com boas histórias envolvendo casais onde a opção sexual não é discriminada. Na coleção da editora Tarja ‘A Fantástica Literatura Queer’, por exemplo, há histórias que mostram todas as formas de amor.

“Obviamente que o preconceito de todos os tipos e formas, continua a ser o maior dos entraves”, diz Rober Pinheiro. “Faltam boas histórias em vários nichos literários, mas, o Brasil é um país conservador ao extremo, o mais conservador da América Latina, mais conservador que a Itália, berço do Vaticano, e isso se reflete na literatura”, complementa o tradutor e também escritor Eric Novello.

O escritor fala também da divisão em países como Estados Unidos e Canadá. Há prêmio de melhor livro com personagens gays, melhor livro com personagens lésbicas, entre outros. É, então, um fenômeno cultural norte-americano querer classificar. No Canadá encontra-se prateleiras de fantasia divididas em dezenas de subgêneros.

Por outro lado, a tradição no Brasil é a de mistura. Só que isso não ocorre na prática. Mesmo com um povo de inúmeras origens, diversos credos, a lógica de apoiar à diversidade sexual no cotidiano e culturalmente é substituída pela eliminação de tudo que não segue padrões.

Na internet a pluralidade de opiniões se reflete no consumo de livros, mangás e seriados. O interesse não é só do grupo LGBT, muitos heterossexuais, em especial mulheres, gostam de histórias Queer. Na década de 1980, a autora Anne Rice encantou muitos brasileiros com seu vampiro Lestat. E atualmente, no Brasil, a autora Nazarethe Fonseca segue a mesma linha. Eric Novello lembra que a autora é uma grande fã de histórias de vampiro.

Eric fala também do trabalho junto a Nazarethe Fonseca durante o processo de reestruturação dos três primeiros livros, que já estavam escritos, onde ajudou a definir os rumos que a série teria. Mais do que uma história de vampiro, a série ‘Alma e Sangue’ mostra a mudança de mentalidade da personagem principal, que começa se sentindo inferiorizada diante dos homens e vai ganhando forças e revertendo essa situação, conseguindo escolher os rumos do seu destino.

No que diz respeito ao próprio trabalho de autor, Eric Novello revela ser livre de preconceitos. “É preciso ir aonde a história pede, seguir o caminho que torna o seu personagem o mais real possível”, afirma. Novello é um dos autores que participa de ‘A Fantástica Literatura Queer’, assim como Camila Fernandes, a qual fala que o público Queer precisar de representação na cultura e acredita que a coleção seja importante para mostrar que há um espaço legítimo para todos.

Osíris Reis, também um dos autores da coleção, acredita na discriminação. “Há ótimas histórias Queer para o público em geral, desde que não haja preconceito”. Uma boa história é construída entrelaçando conflitos, sentimentos e situações que são comuns a todos. No Brasil há poucas histórias interessantes fora da literatura. Além de Nazarethe Fonseca, Ju Lund também se destaca. A autora acredita que há boas histórias Queer, só que falta um bom investimento em marketing e divulgação.

Sobre seu livro, ‘Doce Vampira’,  a escritora fala que é um romance que aborda muitos assuntos importantes para a sociedade atual. Trata-se da história de uma humana que se apaixona por uma vampira. A trama rendeu  comentários positivos.

Já no estrangeiro há principalmente séries de TV que mesclam o tema, como ‘True Blood’, ‘Spartacus’, ‘Glee’, ‘Teen Wolf’, ‘Game of Thrones’, ‘Torchwood’, ‘Brothers and Sisters’ entre outras. No entanto, o mundo dos quadrinhos também quer acabar com os preconceitos. Além das pioneiras em histórias do gênero, as japonesas autoras de mangá, há algumas histórias interessantes no mundo Marvel e DC, como o casamento do Estrela Polar de ‘X-Men’ e a nova Batwoman.

“mais importante do que uma cena de beijo gay seria uma lei contra a homofobia. É este o sentido certo da mudança, real e ficção andando de mãos dadas, a ficção sendo uma representação do real”, finaliza o tradutor e autor Eric Novello.

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