Crise torna enredos bem mais interessantes

Nesta segunda feira, dia 20, na Cidade do Samba, a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro fará o sorteio da ordem dos desfiles do Grupo Especial para 2017. Com isso, estará dada a largada oficial para o carnaval dessas agremiações no próximo ano.

Esta semana, também, mais duas escolas de samba do Grupo Especial escolheram enredo. Beija Flor finalmente confirmou Iracema – a virgem dos lábios de mel, baseado no livro de José de Alencar, enquanto a União da Ilha do Governador terá o tema Nzara Ndembu -Glória ao Senhor do Tempo, que, ainda sem maiores detalhes, parece ser uma temática na linha afro brasileira, que vai mostrar a relação da humanidade com presente e futuro, e com o tempo e  universo. Agora, neste grupo faltam apenas a campeã Mangueira e Unidos de Vila Isabel definirem seus temas.

Com isto, vai se configurando a dificuldade das escolas em contar com recursos de patrocínio para o enredo, pois esses dois últimos escolhidos são temas autorais, sem ingerência de patrocinadores. Confirma-se a tendência de um ano de vacas magras, reflexo da crise econômica e política que o país vem atravessando, que faz minguar recursos, empresas pisarem no freio e todos ficarem mais cautelosos nos investimentos.

Por outro lado, essa carência de dinheiro torna as mentes mais férteis e criativas, o que é muito bom para a festa. Se o enredo patrocinado traz a tranquilidade de um bom preparativo, sem riscos, também traz a limitação muitas vezes imposta. Desenvolver histórias a partir de duplas sertanejas, de uma cidade capital da soja, de países longe da nossa realidade, como Suíça, por exemplo, ou falar de uma raça de cavalo, é ter que tirar leite de pedra.

Ainda sem uma leitura detalhada das sinopses, apenas pelos temas já divulgados, por enquanto parece que em 2017 vão passar pela Marquês de Sapucaí coisas bem interessantes. Nas próximas semanas, já com todas as sinopses divulgadas e os sambas já prontos e com disputas nas quadras, teremos uma noção mais completa do que está por vir. Mas superficialmente, pelo menos nas temáticas, o próximo ano promete ser melhor do que o que passou.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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