Chega ao fim o mais longo carnaval da história

Foram dois longos anos de incertezas, com cancelamentos, adiamentos, crise financeira, desemprego e dúvidas quanto a realização do Carnaval como um todo, e mais especificamente do desfile das escolas de samba

No mundo do samba havia dúvidas de alguns sobre o sucesso dessa folia fora de época e se as pessoas estariam mobilizadas para o evento num período diferente do costumeiro. Mas os resultados não deixam dúvidas. O carnaval de 2022 superou expectativas por todos os ângulos.

Sem contar o desafio de superar preconceitos e desmontar o discurso neopentecostal fundamentalista, que há algum tempo tenta demonizar a folia perante a sociedade. Outro desafio, ainda a ser vencido, é derrubar a visão estreita de que governo não deve investir recursos públicos na festa, como se cultura não fosse um direito de todos.

Talvez, o mais representativo sejam os números da audiência dos desfiles alcançados pela TV Globo, que superou o de anos anteriores. Estes números são representativos, porque furam a bolha do mundo do samba e alcançam pessoas que normalmente não vivem este cotidiano.

Também demonstram que o desfile das escolas de samba, ao contrário do que muitos pensam, ainda atrai o grande público brasileiro e tem capacidade de se reciclar como grande espetáculo.
Quanto aos desfiles na avenida, não há dúvida do sucesso.

As escolas de samba superaram todas as dificuldades desses dois anos e fizeram apresentações até superiores a de 2020. Tanto no grupo especial como no grupo de acesso. Sintomático que a maioria dos enredos versaram sobre temas afrobrasileiros e da negritude. Além de uma busca pelo reconhecimento, é uma forma de afirmação diante de tantos ataques sofridos e de mostrar a relevância e a importância histórica e cultural dessas instituições.

O resultado foi um consenso. A Acadêmicos do Grande Rio, agremiação da cidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense sagrou se campeã pela primeira vez, no grupo de elite. Império Serrano, tradicional escola do bairro de Madureira, venceu o grupo de acesso e estará entre as grandes no próximo ano. Ambas apresentaram enredos sobre temática da negritude. A verde e branca sobre a vida de Manoel Ferreira, o Besouro Mangangá, mitológico capoeirista baiano do século 19.

Já a tricolor caxiense fez um desfile histórico, que saiu aclamado da Marquês de Sapucaí. Cantando o orixá Exu, a escola procurou desmistificar a ideia cristã que relaciona a divindade africana com a imagem do demônio. Desfilou as várias facetas de Exu, que no candomblé simboliza energia vital, orixá do corpo e da comunicação, que abre os caminhos para o ser humano.

Simbolicamente, que este campeonato abra caminhos melhores, que possamos superar este período de dois anos de sofrimento. Que venham novos tempos.

Neste sábado, acontece o fechamento deste ciclo, com o desfile das campeãs. Este ano, talvez não tenhamos um intervalo para o reinício dos trabalhos, pois já se inicia o mês de maio. Um novo ciclo logo se reinicia, visando os preparativos para o carnaval 2023.

Por

amilton.cordeiro@oestadorj.com.br

Jornalista, pesquisador de samba e compositor.

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